O futuro Aeroporto Luís de Camões vai ser construído numa zona sujeita a um risco significativo de cheia em caso de tempestades com chuva extrema. «Devido à complexidade e extensão da rede de canais artificiais necessários para desviar as linhas de água existentes, é altamente vulnerável ao efeito de precipitação extrema e ao remanso da rede hidrográfica superficial, aumentando o risco de inundação interna nas pistas», alerta o relatório da IdroAM, empresa italiana de engenharia especializada em recursos hídricos, hidráulica e hidrologia, com mais de 25 anos de experiência em Itália. «No que respeita à área potencialmente inundável, o modelo aponta para cerca de 80 hectares afetados. Para termos uma ideia da dimensão, estamos a falar de aproximadamente 112 campos de futebol», resume Adriano Murachelli, um dos autores do estudo. Durante nove anos, foi presidente da AIAT, Associação Italiana de Engenheiros do Ambiente e do Território. Agora é o diretor técnico da IdroAM, que conta com a ANAS, empresa pública italiana de estradas, a Autoridade Portuária de Veneza e muitas outras entidades públicas como clientes.

O risco de inundação «ganha especial importância à luz das alterações climáticas», argumenta Adriano Murachelli. Os eventos de precipitação extrema mais intensos e mais concentrados, no tempo e no espaço, representam uma ameaça para o funcionamento do aeroporto. «A questão não é apenas saber se conseguimos resolver um problema através de obras de engenharia. A questão é perceber se podemos evitar criar esse problema à partida, através de uma melhor escolha da implantação», considera o perito italiano.

O problema é que o aeroporto vai ser construído sobre uma ribeira e afetar «de forma direta» o sistema hídrico e de retenção de água do Vale do Cobrão, onde existe uma barragem com capacidade superior a seis milhões de metros cúbicos. «O polígono impermeabilizado atua como um obstáculo transversal, forçando a interrupção direta da Ribeira do Vale do Cobrão. A área de represa a sul é parcialmente aterrada para acomodar a infraestrutura, anulando a sua função natural de retenção», especifica o relatório. Esta circunstância vai obrigar ao desvio da ribeira e à construção de quatro canais artificiais de drenagem, com uma extensão total de aproximadamente 21 km. Como termo de comparação, Veneza tem 42 km de canais, de acordo com a ATVO, empresa metropolitana de transportes. O Aeroporto Luís de Camões terá no ventre meia cidade lacustre – o que não deixa de ser poético.

AQUÍFERO AMEAÇADO

A obra representa uma séria ameaça para o sistema aquífero Tejo-Sado. É «o mais extenso da Península Ibérica», nos cálculos e na expressão da Agência Portuguesa do Ambiente. «Esta implantação sobrepõe-se a manchas arenosas de elevada permeabilidade superficial, que funcionam como zonas críticas de infiltração e recarga do aquífero. A impermeabilização desta área compromete diretamente a renovação desta reserva estratégica de água», descreve o relatório da IdroAM. «Obviamente, tudo aquilo que permitia à água encontrar o próprio caminho e chegar às reservas naturais vai, em parte, ficar comprometido», traduz Inês Antunes, coautora do estudo. Na opinião desta engenheira civil, formada no Instituto Superior Técnico (IST) e doutorada pela Universidade de Parma, são necessários mais estudos para se perceber o impacto ambiental do aeroporto. Em qualquer caso, ressalva que «é importante ter respeito pelo sistema hídrico natural».

O GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente publicou esta semana um parecer com uma lista extensa de problemas ambientais de uma empreitada «megalómana». Sobre o aquífero, «o crescimento urbano impossível de controlar é um risco para a reserva estratégica de água da região de Lisboa e do país, equivalente a 13 Alquevas». Esta organização ambientalista lamenta a «destruição» de 7 mil hectares de área agroflorestal e o abate de perto de 250 mil sobreiros. Por isso, é contra o encerramento do aeroporto da Portela e a transferência dos aviões para o extremo oriental do Campo de Tiro de Alcochete, a mais de 50 quilómetros de Lisboa – «o principal motor são os negócios da construção e do imobiliário».

O estudo foi encomendado pela Associação de Moradores da Mata do Duque II, que apresentou ao Governo uma proposta de implantação cinco quilómetros a ocidente da prevista. Na modelação da IdroAM, essa alternativa reduz o volume potencial de inundação de 720 mil para 140 mil metros cúbicos – cerca de 80%. A área inundável cai de 80 para 18 hectares e os canais artificiais necessários baixam de 21 para 5,7 quilómetros. O relatório conclui que oferece uma capacidade de resposta muito superior a uma cheia extrema. «Pequenas diferenças à escala do mapa podem ser muito significativas à escala da água», sentencia Inês Antunes.

MINISTRO METE ÁGUA

Em fevereiro, a seguir aos dias de maior tempestade na Grande Lisboa, a TVI foi a primeira televisão a filmar a bacia hidrográfica que ficará parcialmente aterrada. «Temos um problema grave. É que há aqui várias zonas que são alagadiças. O local é o mais propenso a ser invadido em leito de cheia», declarou nessa reportagem Paulino Pereira, professor do Instituto Superior Técnico. «Azar dos Távoras, puseram a pista e as infraestruturas aeronáuticas na ponta oriental do campo de tiro. Quanto mais próximas de Lisboa fossem implantadas, melhor seria», concluiu aquele perito em Hidráulica, dando razão à proposta alternativa dos moradores.

O ministro das Infraestruturas e Habitação resolveu desmentir a reportagem, numa declaração filmada no seu gabinete, para as redes sociais. «As imagens que viste foram filmadas cerca de cinco quilómetros fora do perímetro do projeto», acusou Miguel Pinto Luz. Por escrito, posteriormente, admitiu que «existe, de facto, uma linha de água, a Ribeira de Vale do Cobrão, na proximidade do novo aeroporto de Lisboa (NAL)».

Ora, a ribeira não fica «a cinco quilómetros», nem «na proximidade». Ambas as afirmações são falsas. A ribeira fica lá dentro, como patente na reportagem. «A implementação do aeroporto obriga ao desvio da ribeira do Vale do Cobrão, que atravessa a área de implantação do NAL», está escrito no relatório técnico da concessionária, entregue ao ministro no dia 16 de julho.

Feito este acerto geográfico, falta enfrentar a questão de fundo. «Reforçamos, no entanto, que apesar da existência desta ribeira, a zona não é considerada “leito de cheia”», garantia o ministro na resposta à TVI. Para negar a inundação patente nas imagens televisivas, Miguel Pinto Luz exibiu gráficos da ferramenta europeia Copernicus. O relatório da IdroAM também já lhe foi enviado, pela comissão de moradores.

A engenharia moderna consegue aeroportos no mar. Disparam os custos e aumentam os riscos. «Costuma dizer-se que um bom marinheiro consegue sair de situações difíceis, mas um excelente marinheiro evita entrar nelas. Em engenharia acontece exatamente o mesmo», adverte Inês Antunes. Miguel Pinto Luz é engenheiro em Eletrotécnica e Computadores, igualmente formado no IST.