No universo feminino, a ideia de que quanto antes se começa a cuidar da pele, melhor ela estará no futuro, é quase um senso comum. Passa de mãe para filha, circula entre amigas e, atualmente, ganhou reforço nas redes sociais.

O discurso não é restrito a uma única geração. Hoje, até mesmo crianças e adolescentes são impactadas pela ideia. O fenômeno do “skincare infantil” se traduz em inúmeros conteúdos espalhados pelo TikTok e Instagram de meninas montando rotinas de dez ou doze etapas com séruns, ácidos e até cremes antienvelhecimento. No entanto, contrariando o movimento, o que a dermatologia aponta é que esses produtos não agem como prevenção.

É o que explica a dermatologista Flávia Reginatto, doutora pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em saúde da criança e do adolescente e associada da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD-RS). Muitos dos ativos populares no cuidado com a pele foram elaborados para tratar sinais já existentes, e não para impedir que apareçam.

“Não adianta usar o antirrugas para prevenir ruga, nem usar um antimanchas para prevenir manchas”, afirma.

A prevenção, segundo ela, está no cuidado básico.

O equívoco, na avaliação da médica, começa numa troca de conceitos impulsionada pela lógica de consumo do mercado de beleza. “A gente confunde o cuidado com a pele com o uso de produtos”, resume. Ela explica que cuidar significa lavar o rosto de manhã e antes de dormir, proteger-se do sol e escolher itens compatíveis com o próprio tipo de pele. Especialmente na infância, quando não há uma queixa específica sobre a saúde da pele, tudo além disso é excesso.

Nesse cenário, o autocuidado deixa de ser uma prática voltada ao bem-estar e se converte em mercadoria, sinônimo de quantidade e de marca. Quanto mais etapas, mais frascos e mais caro o item, maior a percepção de eficácia, ainda que nada disso corresponda ao que a pele precisa. O resultado são rotinas que somam dezenas de ativos e centenas de reais em produtos formulados para uma pele diferente da de quem os usa.

Além disso, grande parte das recomendações não passa por um consultório. “Todo mundo é o doutor da internet”, ironiza Reginatto. Segundo ela, o que circula nas plataformas é sempre o caso extraordinário, aquele que prende a atenção, e não o que a maioria das pessoas de fato precisa. “Chama muito mais atenção uma menina de dez anos fazendo skincare de dez passos do que uma dermatologista dizendo que você não precisa de tudo isso”. A avaliação profissional, nesses casos, serve para identificar se existe de fato uma queixa a ser tratada e qual ativo é adequado para aquela pele e aquela idade.

A médica ressalta ainda a questão do desperdício. Ao acumular cosméticos, dificilmente o consumidor consegue usá-los até o fim, e produtos abertos oxidam, perdem propriedades e podem contaminar antes de serem totalmente consumidos.

A preocupação com os riscos do “skincare infantil” levou a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS) e a SBD-RS a publicarem nota conjunta sobre o tema nesta última semana. As entidades apontam que muitos vídeos apresentam sequências extensas de cuidados e indicam produtos desenvolvidos para adultos, o que favorece exageros e combinações inadequadas de substâncias. Entre as consequências possíveis, listam-se irritações, alergias, dermatites, manchas, queimaduras químicas e comprometimento da barreira natural de proteção da pele.

Por que a pele infantil reage de forma diferente?

A primeira explicação está na exposição. Segundo Reginatto, a pele de uma criança teve contato com poucas substâncias ao longo da vida, e esse contato costuma acontecer de forma gradual. Sem esse histórico, o organismo não reconhece boa parte dos ativos e responde com dermatite de contato.

A segunda diferença é a absorção. A pele adulta, sendo mais resistente, retém os produtos nas camadas superficiais. Já na infantil, a barreira não fortalecida acaba por deixar passar as substâncias. O efeito é uma ação exagerada do produto, distante do resultado esperado.

A terceira é a hidratação. A pele infantil é naturalmente firme, densa e hidratada, condição que se perde com o passar dos anos. Os cosméticos antienvelhecimento foram formulados e testados na pele seca do adulto, o que significa que, aplicados numa pele hidratada, tendem a produzir o oposto do que prometem.

A médica cita como exemplo os ácidos usados no tratamento da qualidade da pele, como o retinóico e o salicílico. Eles agem acelerando a descamação, o que promove a renovação celular. O processo faz sentido quando existe uma célula danificada a ser substituída, como uma mancha causada pelo sol.

“A nossa pele descama naturalmente. A gente não vê, mas a cada três semanas, mais ou menos, uma célula que estava lá embaixo já foi descamada e eu tenho uma célula nova. Os produtos com ácido retinoico, por exemplo, aceleram essa descamação para tratar uma célula manchada. Agora, qual a necessidade de fazer uma pele infantil descamar mais rápido? Se a célula que está em cima é adequada, não tem mancha, por que eu vou acelerar esse ciclo celular? Não tem o menor sentido”, complementa.

As entidades médicas citadas anteriormente acrescentam que hidratantes destinados a peles maduras podem favorecer o surgimento de cravos e espinhas em adolescentes, enquanto esfoliantes e produtos abrasivos provocam agressões desnecessárias nessa faixa etária. A exposição precoce e frequente a numerosas substâncias, segundo a nota, também eleva a chance de dermatite de contato.

Acne é a exceção do cuidado com a pele na adolescência

Para a dermatologista, o único quadro que justifica ampliar a rotina na adolescência é a acne, provocada pelas alterações hormonais da idade. Ela explica que os cravos e as espinhas são esperados, mas não precisam ser tolerados, já que se trata de uma doença com tratamento estabelecido. Segundo Reginatto, a acne é a principal causa de consulta em dermatologia.

O protocolo começa pelo sabonete adequado, que pode conter algum ativo específico, e inclui esfoliação ocasional, eventualmente ácidos como o salicílico e o azelaico, além de protetor solar sem óleo, que não agrave a oleosidade. A médica observa que essas substâncias irritam e descamam a pele, o que exige acompanhamento profissional para evitar dano maior. Se a espinha persistir mesmo com produtos de venda livre, a orientação é procurar um dermatologista.

O que de fato é recomendado no “skincare infantil”

A rotina indicada pela dermatologista para crianças e adolescentes contraria o que se veicula na internet. Na verdade, pode e deve ser simples, curta e barata.

➡️ Sabonete líquido, preferível ao sabonete em barra, que tem pH alcalino e resseca a pele. A quantidade recomendada equivale a meio grão de ervilha. Embalagens pequenas, com duração aproximada de um mês, evitam que o produto oxide antes do fim e perca propriedades.

➡️ Hidratante à noite, escolhido conforme o tipo de pele (oleosa, seca, mista ou sensível). Busque opções em gel para pele oleosa e em formulação mais densa para pele seca.

➡️ Proteção solar, que vai além do filtro. Além do protetor solar diariamente, especialistas recomendam o uso de chapéus, roupas de proteção e permanência à sombra nos horários de maior radiação.

➡️ Hábitos diários. Lavar o rosto no máximo duas vezes ao dia, já que o excesso resseca a pele. Nunca dormir de maquiagem, não espremer espinhas e não arrancar casquinhas, porque a remoção interrompe a cicatrização e reabre a lesão.

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O risco hormonal

A absorção elevada da pele infantil sustenta a preocupação com os chamados disruptores endócrinos. Segundo Reginatto, alguns ativos penetram na pele e são confundidos pelo organismo com hormônios, que passa a produzir em excesso ou a inibir a produção, conforme a substância. Entre as consequências possíveis está a puberdade precoce.

A regra que a médica repete dispensa análise de rótulo. “Criança não usa produto de adulto”, afirma. A orientação vale para creme, xampu e condicionador, e também para batom e esmalte, que contêm ativos de fixação e são absorvidos com facilidade pela unha infantil, mais fina que a do adulto.

Os rótulos, aliás, não resolvem a dúvida sozinhos. “Natural não é sinônimo de segurança”, diz Reginatto. Óleos essenciais, fragrâncias e outros ingredientes presentes em produtos vendidos como naturais, clean ou orgânicos também podem provocar irritação e alergia.

No caso da maquiagem, a dermatologista sugere deslocar a brincadeira em vez de proibi-la. A indicação é maquiar uma boneca em vez da amiga, o que preserva o lúdico sem expor outra criança a dermatite ou a ativos com potencial hormonal.

Quando o problema deixa de ser a pele

Boa parte dessas rotinas chega às crianças por vídeos que mostram um resultado impossível de alcançar. Nas redes, ganhou força o termo “glass skin”, a pele com aparência de vidro, sem poros, sem manchas e sem irregularidades. Reginatto alerta que essa referência quase sempre vem editada e cheia de filtros, e que a pele real não funciona assim.

“A gente precisa entender que a nossa pele tem textura, tem poros, e, de vez em quando, a gente vai ter uma espinha, ninguém vai passar ileso na vida”, afirma.

Essas imagens filtradas, porém, têm efeito direto na forma como a criança passa a se olhar, fazendo com que ela comece a interpretar a própria textura da pele como defeito a ser corrigido. O movimento deixa de ser um problema que afeta apenas a saúde da pele, mas também a saúde mental, com impacto na autoestima e a relação com a própria aparência das meninas. “A pele saudável é uma pele bonita, mas não a perfeição”, resume.

No entanto, o ritual não precisa ser proibido. Reginatto defende que o hábito de cuidar da pele seja adotado desde cedo e reconhece o valor do momento de atenção consigo mesma nessa fase da vida, porém, com ressalvas.

“Ensinar o autocuidado é positivo. Transformar a criança em consumidora de cosméticos, não”, diz.

Para os especialistas, os pais devem se atentar ao comportamento, principalmente quando a rotina passa a organizar a vida da criança, interferindo em horários, atividades e na disposição de sair de casa. Meninas que se dispõem a acordar bem antes do necessário todos os dias apenas para se maquiar, por exemplo, dão sinal de que o ritual deixou de ser cuidado e virou obrigação.

Por isso, AMRIGS e SBD-RS orientam pais e responsáveis a acompanhar os conteúdos consumidos pelas crianças e a observar mudanças ligadas à aparência. Preocupação excessiva com supostas imperfeições e insatisfação com a própria imagem merecem atenção. Na pele, vermelhidão, coceira, descamação, ardência, manchas ou inchaço pedem suspensão imediata do produto e avaliação médica.