Quem acompanha o ritmo e o tom com que são descritas as histórias familiares dentro da obra do autor francês Édouard Louis pode estranhar um pouco “O Desabamento”, livro sobre o seu irmão mais velho, morto aos 38 anos, vitimado pelo vício no álcool.

Ao narrar a história da mãe, em “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” e em “Monique se Liberta”, o autor não apenas esquadrinhou sociologicamente a vida de uma senhora sem estudo, que sofreu violências, se encheu de filhos e deu a eles o cuidado possível dentro de um cenário precário.

Ele estava fascinado por aquela mulher, parecia sangrar no papel ao listar as mágoas advindas da convivência com ela e, ao mesmo tempo, expunha seu imenso ressentimento pela falta de oportunidades na trajetória intelectual, profissional e amorosa da mãe.

Ao escrever sobre o pai, em “Quem Matou Meu Pai”, Louis escolhe o formato de uma carta aberta. A conversa dele era com o homem que lhe causava sensações ambíguas: a vontade desesperada de ser visto e aceito colada ao desejo de não encontrar aquele sujeito intragável dentro de casa.

A figura de Édouard Louis causa a mesma comoção dicotômica que seus livros. Ao ver o autor chegar a uma mesa literária, você pensa ser um frágil garoto quebrado. Ele é tímido e parece demandar afeição. Então ele começa a falar e sua força arrebatadora vai tomando o ambiente. Tem fôlego de ator e deixa bem claro que, para além de um grande artista, é um sobrevivente.

Depois de todas essas experiências, concluo a leitura do seu livro mais recente, “O Desabamento”, com o mesmo êxtase e absorvimento de sempre. É mais um grande livro de Édouard Louis, mas completamente diferente dos outros.

Tento então escolher qual dos focos dar para embasar a resenha. É a obra mais impiedosa e gélida do autor? É um livro sobre o susto de perder o irmão mais velho e não sentir nada? “Eu disse que achava ridículo gastar dinheiro com um morto, quando esse dinheiro poderia ser usado para ajudar uma pessoa viva.”

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É, de todos os livros, o que mais se aprofunda na dissecação sociológica que Louis faz da família? “Quando comecei a pesquisa sobre ele, pensei que escrever a história do meu irmão era escrever a história de um garoto com a vida inteiramente delimitada e definida pelos determinismos sociais: masculinidade, pobreza, delinquência, álcool, morte prematura.”

É um livro sobre os anseios megalomaníacos e sempre frustrados de um jovem que foi se tornando cada vez mais misógino, preconceituoso e alcoolista —e que, apenas como um fato sem importância, vem a ser também irmão do autor? É a escrita como “uma proteção contra o esquecimento” —incluindo os raros momentos de delicadeza e generosidade do irmão?

Penso em uma das frases mais bonitas que Louis já disse em uma de suas entrevistas. Ele conta que, ao final de um livro autobiográfico, se o escritor não tiver perdoado a pessoa ali exposta —o protagonista do livro—, não terá valido a pena perder aquele tempo.

Sobre a homofobia do irmão, ele diz: “Meu irmão era tão despossuído de tudo, de dinheiro, de seus sonhos, de felicidade, que esse discurso de ódio era, de certa forma, tudo o que tinha. Acho que por isso se agarrava a ele”.

A relação entre os irmãos era medida justamente pela distância entre eles: “Enquanto meu irmão bebia, eu

estudava filosofia, lia romances, escrevia, viajava”. Acredito que Édouard Louis escreva também para se perdoar.