A Tata Sons, holding que detém o grupo Tata, o maior conglomerado privado da Índia, prepara-se para uma nova fase de turbulência interna. Natarajan Chandrasekaran, chairman do grupo avaliado em cerca de 280 mil milhões de dólares (cerca de 242 mil milhões de euros) e com mais de um milhão de trabalhadores, anunciou que vai deixar o cargo em fevereiro, após meses de conflito com Noel Tata, líder dos fundos filantrópicos que controlam a empresa, sobre a estratégia e a eventual entrada em bolsa da holding.
Segundo o Financial Times (FT), os dois confrontaram-se repetidamente quanto ao rumo do grupo e ao papel da próxima geração da família, alimentando várias manchetes na Índia. A dimensão do caso levou mesmo o Governo indiano a intervir, com os ministros dos Assuntos Internos e das Finanças a receberem Noel Tata e Chandrasekaran para discutir a estabilidade do conglomerado. “Este é, sem dúvida, o início da era Noel Tata”, afirmou Saurabh Mukherjea, fundador da Marcellus Investment Managers, citado pelo FT.
O grupo é o maior empregador privado da Índia, presente nos setores do aço e da energia, dono da Jaguar Land Rover e da Air India, e líder da maior empresa de serviços de TI do país. Como Chandrasekaran não tem um número dois definido nem há um plano formal de sucessão, o comité de seleção de cinco membros deverá reunir-se em breve para escolher o próximo chairman.
150ANOS
O conglomerado conta mais de 150 anos de história e é o maior empregador privado da Índia.
Filho de mãe suíça e meio-irmão do histórico líder Ratan Tata, Noel é hoje o principal representante da família num conglomerado com mais de 150 anos. Fez carreira no retalho e na expansão internacional antes de assumir a liderança dos fundos filantrópicos da Tata Sons, após a morte de Ratan em 2024.
Embora a holding não seja, em sentido estrito, uma empresa familiar, especialistas sublinham que os Tata se veem como “guardiões” de um legado e de uma missão de serviço à Índia.
Uma das principais fontes de tensão entre Noel e Chandrasekaran está relacionada com a eventual entrada em bolsa da holding. Em 2022, o banco central indiano deu três anos à Tata Sons para se listar no mercado, em nome da transparência, devido à sua dimensão. O grupo reduziu a dívida e pediu a revisão dessa classificação, enquanto Noel tem resistido à pressão para a listagem, defendendo que manter a empresa privada é essencial para preservar a liberdade de apostar a longo prazo em negócios multimilionários.
Críticos citados pelo FT argumentam, porém, que a estrutura privada também reforça o seu controlo sobre o conglomerado e que o sucessor de Chandrasekaran terá de aceitar essa visão.
Pessoas próximas descrevem Noel como alguém que acredita ter herdado essa autoridade, mas admitem que muitos dentro do grupo ainda não o veem com o mesmo peso, alimentando uma disputa de poder que ajuda a explicar a saída antecipada de Chandrasekaran e o desafio que o próximo chairman terá de enfrentar.
Entre os nomes internos apontados à sucessão está também Thachat Viswanath Narendran, líder da Tata Steel, a par de potenciais candidatos externos.
A saída de Chandrasekaran abre assim uma batalha de sucessão que vai testar a capacidade da Tata Sons conciliar o poder crescente dos trusts liderados por Noel Tata, a pressão regulatória para maior transparência e a necessidade de preservar a boa governação que tem ajudado o grupo a aceder a capital.