A pontaria esteve apontada a Luís Montenegro e essencialmente ao discurso na Festa do Pontal, que mereceu inúmeras críticas, desde as referências a quem “faz o escrutínio do Governo” até à “insensibilidade” de quem “em 47 minutos de discurso não teve cinco para pedir desculpa” aos alunos, famílias e escolas que foram visados na crise dos exames nacionais. Na verdade, José Luís Carneiro usou a “insensibilidade” como crítica em várias ocasiões.
“Alguém tem de dizer ao primeiro-ministro que o rei vai mesmo nu. O Governo e o primeiro-ministro não deram até hoje prova de conseguir reagir, responder com capacidade, com sensibilidade e com competência às crises que têm assolado o país, que tem colocado em causa a segurança das pessoas e que têm posto em causa a previsibilidade da capacidade de resposta do Estado”, apontou o líder socialista, dando como exemplos o apagão (“todos se recordam do apagão e do improviso e impreparação”), os incêndios de 2025 (“estavam na Festa do Pontal, os incêndios ameaçavam a vida das pessoas, o seu património, e não tiveram a sensibilidade para adiar a festa”) e as tempestades (“Governo reagiu tarde e reagiu mal”).
Dedicado a enumerar, um por um, os erros do Governo, destacou mais do que uma vez a questão dos exames nacionais. Acusou o Executivo de ter optado por “avançar imponderadamente” e ter tomado uma “decisão irresponsável”, o que “criou uma crise e prejudicou jovens, famílias e escolas”. No final, sublinhou, “sacudiram responsabilidades” e “atiraram culpas para famílias, professores e escolas”. “A humildade democrática falha a este Governo e a este primeiro-ministro”, concluiu o líder do PS.
A economia — que Luís Montenegro descreveu como a que “mais cresceu” — foi outro motivo de discórdia, com José Luís Carneiro a tentar, assumidamente, “refrear o entusiasmo das palavras de Luís Montenegro”. Puxou da memória para dizer que, quando a economia “crescia a 3%”, a AD prometia a economia a “crescer a mais” e dizia que “Portugal estava a ser ultrapassado pelos países do leste europeu”. Agora, realçou, está a crescer “cerca de metade daquilo que crescia com os governos do PS”, o país “perdeu competitividade” e “isto coloca em causa o futuro do nosso país”. Além das acusações, Carneiro queixou-se de ter a vida complicada na Assembleia da República pelo facto de “o Governo ter bloqueado as propostas do PS” ao lado de Chega e Iniciativa Liberal.
De resto, Montenegro também teve resposta à medida que anunciou no Pontal: a compra de 13,7% do capital da REN. E, mais do que resposta, Carneiro deixou perguntas ao primeiro-ministro: qual a razão que leva à compra; qual o valor; e por que razão é que optou por comprar a um dos acionistas e não no mercado ou a outros acionistas. E acrescentou: “Está em condições de garantir aos portugueses que a posição que o Estado agora vai comprar permite ao Estado determinar e participar na definição estratégica da REN?”
Puxou depois da Saúde para dar continuidade ao rol de críticas que trouxe para o novo ano legislativo. “O país está sem rumo estratégico. Falar 47 minutos sem se ter referido à saúde mostra bem como o primeiro-ministro está desligado da realidade”, defendeu, recuperando propostas da campanha de 2025: médicos de família para todos os portugueses até dezembro de 2025, reduzir os tempos de espera para a primeira consulta, diminuir as listas de espera para cirurgias e diminuir as listas de espera também para as cirurgias oncológicas. “Foram quatro promessas e Luís Montenegro falhou a todas. Mais grave do que não assumirem os erros, é procurarem limpar das listas de espera as chamadas cirurgias menos urgentes”, reforçou.
Carneiro não terminou o discurso sem tocar no tema da habitação. Ao notar que “em dois anos o custo com a habitação em Portugal aumentou mais de 28%” e ao atribuir isso “às políticas erradas do Governo, que em vez de responder do lado da oferta, procurou responder do lado da procura”, o líder socialista prometeu lançar o “Serviço Nacional de Habitação, destinado a garantir a mobilização do Estado, das autarquias, das cooperativas, das associações, dos arquitetos, dos engenheiros e das empresas de construção civil, para mobilizar todo o país para esta resposta fundamental.”