A Louis Vuitton e a Singer, especialista californiana na reconstrução personalizada de Porsche 911 clássicos, apresentaram dois automóveis desenvolvidos em conjunto. O projecto cruza a tradição da marca francesa no universo das viagens com a engenharia e o trabalho artesanal da Singer.
O primeiro é um Porsche 911 Reimagined by Singer – Classic, com uma decoração em amarelo açafrão e azul-cobalto, cores associadas à Louis Vuitton. O segundo é um 911 Reimagined by Singer – Classic Turbo Cabriolet, concebido pelo diretor artístico das colecções femininas da Louis Vuitton, Nicolas Ghesquière, com carroçaria branca, detalhes dourados e diversos elementos em madeira.

A origem do projecto esteve num pedido aparentemente simples: a criação de um relógio para o tablier de um Porsche preparado pela Singer. Desenvolvido pela divisão relojoeira da Louis Vuitton, o relógio mecânico, inspirado no modelo Tambour, acabou por dar início a uma intervenção muito mais abrangente.
Durante cerca de um ano, as duas equipas redesenharam praticamente todos os elementos do habitáculo. Instrumentação, comandos, manómetros e acabamentos foram concebidos de acordo com uma linguagem inspirada na relojoaria, recorrendo a materiais e técnicas de acabamento pouco habituais na indústria automóvel.
No 911 Classic, o azul-cobalto e o amarelo açafrão dominam o conjunto. O interior combina pele natural, costuras amarelas e aplicações com um padrão inspirado no malletage dos históricos baús Louis Vuitton. Muitos dos componentes originalmente fabricados em plástico foram substituídos por peças metálicas trabalhadas individualmente, incluindo comandos, fechos e grelhas de ventilação.

A atenção ao detalhe estende-se ao compartimento do motor e aos elementos mecânicos visíveis. Até as inscrições dos tampões de combustível e óleo foram redesenhadas de acordo com a tipografia utilizada nos componentes relojoeiros da Louis Vuitton.
Um Porsche pensado para viajar
A primeira criação foi acompanhada por um conjunto de acessórios concebidos especificamente para o automóvel. Entre eles encontra-se um porta-bagagens de tejadilho preparado para transportar um baú, uma prancha de surf ou esquis.

A Louis Vuitton recuperou, assim, uma tradição com mais de um século. Desde o final do século XIX que a marca desenvolve malas e baús destinados especificamente aos automóveis. Em 1897 já produzia modelos que podiam ser instalados no tejadilho ou na traseira dos veículos, seguindo-se uma gama de equipamentos concebidos para as primeiras viagens de automóvel.

Neste projecto, essa herança materializa-se em malas desenvolvidas para se ajustarem ao espaço disponível no Porsche, incluindo conjuntos para a bagageira dianteira e peças inspiradas nos modelos históricos da marca.
Também a prancha de surf e os esquis foram concebidos especificamente para o automóvel. A primeira combina madeiras de carvalho e nogueira, enquanto os segundos recorrem a madeira, titânio e aço.
Um 911 Cabriolet com inspiração náutica
O segundo automóvel parte de uma interpretação diferente. Nicolas Ghesquière concebeu um 911 Classic Turbo Cabriolet inspirado na relação entre o automóvel e o universo náutico.
A carroçaria branca, próxima do tom da pedra calcária de Paris (Calcaire Lutétien), é complementada por madeira e elementos dourados. O habitáculo utiliza pele e superfícies em madeira, enquanto a zona traseira, atrás dos bancos, foi concebida à imagem dos convés de embarcações clássicas.

O relógio Louis Vuitton ocupa o centro do tablier e combina-se com instrumentos dourados e uma chave de ignição no mesmo tom. O volante recebeu um revestimento específico e a alavanca da caixa de velocidades foi desenhada com uma referência à forma do saco Noé.
Também neste caso foram criadas malas à medida, incluindo um conjunto de três peças instalado na bagageira dianteira. O espaço traseiro foi igualmente adaptado para acomodar bagagem e a capota.

A colecção de acessórios inclui ainda capacete, luvas, óculos, calçado e peças de vestuário desenhadas em função do automóvel, prolongando para o proprietário a linguagem estética utilizada nos dois Porsche.
Uma relação com mais de um século
A ligação da Louis Vuitton ao automóvel não é recente. A partir do final do século XIX, a empresa desenvolveu malas e acessórios destinados às viagens motorizadas. Em 1909, os irmãos Pierre e Jean Vuitton chegaram mesmo a apresentar um automóvel próprio, construído sobre um chassis desportivo da Stabilia.
A marca esteve também ligada a grandes viagens e competições automóveis e, durante o período entre as duas guerras mundiais, colaborou com construtores e carroçadores na criação de bagagem específica para determinados modelos.
Nas décadas de 1980 e 1990, a relação foi retomada através de concursos de elegância, protótipos, malas especiais e os Louis Vuitton Classic Run, que reuniram automóveis históricos e coleccionadores.
A Singer como parceira
Fundada na Califórnia em 2009, a Singer tornou-se conhecida pelo trabalho de reconstrução e personalização de Porsche 911 clássicos. A empresa combina engenharia moderna, construção artesanal e preservação da natureza mecânica e analógica dos automóveis originais.
O 911 Classic deste projecto foi trabalhado nas instalações da Singer na Califórnia, enquanto o Cabriolet Turbo foi construído no Reino Unido.
A colaboração com a Louis Vuitton procurou manter intactas as características fundamentais dos 911, acrescentando uma nova interpretação estética e artesanal. O resultado são dois automóveis muito diferentes entre si, mas unidos pela mesma abordagem: preservar a arquitectura original e explorar até ao limite os materiais, os acabamentos e os detalhes.
Mais do que uma simples associação entre duas marcas, o projeto recupera uma ideia antiga da Louis Vuitton: o automóvel como extensão da viagem e como objecto onde função, técnica e artesanato podem coexistir.
Imagens: Singer