Doenças que haviam desaparecido há muito tempo do nosso país pela alta adesão às vacinas estão voltando. As vacinas não são isentas de riscos e podem, sim, haver efeitos colaterais. Mas, quando pensamos no custo-benefício que elas trazem para a sociedade como um todo, e não apenas nos âmbitos municipal, estadual e nacional, precisamos considerar também o intenso movimento de viagens e as idas e vindas por meio dos mais diversos meios de transporte, com pessoas circulando por todos os países do mundo.
Antes de cada vacina ser disponibilizada para a população, há um rigoroso controle, por meio de estudos, para garantir sua segurança e eficácia e identificar possíveis riscos que possam surgir durante, logo após e tempos depois da aplicação.
A curto prazo, a vacina protege a pessoa de forma individual, preparando o sistema imunológico e diminuindo o risco não só de contrair aquela infecção, mas também de adoecer. A médio e longo prazos, promove uma proteção coletiva para todos que entram em contato com ela, seja próximo ou em locais fechados, como transportes coletivos, salas de aula, comércio, entre outros. Quanto mais pessoas se vacinarem, maior será a eficácia e a efetividade da proteção coletiva contra aquela doença que está circulando, principalmente para as populações mais vulnerabilizadas, como crianças, idosos, pessoas em situação de rua e até indígenas.
A longo prazo, na história da humanidade, existem dados da OMS que indicam que, entre a década de 1970 e o ano de 2024, as vacinas contra 14 doenças infecciosas salvaram mais de 150 milhões de vidas. Isso seria o equivalente a seis vidas por minuto, todos os anos. De todas as vacinas incluídas no estudo, publicado na revista The Lancet, a do sarampo foi a que demonstrou maior impacto, representando 60% das vidas salvas pela imunização.
Isso sem contar doenças que traziam sequelas importantes não apenas para a pessoa acometida, mas também para a família e a sociedade como um todo, como a poliomielite, além dos custos para o Sistema Único de Saúde.
A grande preocupação atual da área médica e científica é quando as vacinas deixam de ser uma escolha individual, deixando de ser compreendidas como uma questão de saúde coletiva e pública, porque são uma ferramenta de extrema importância e responsabilidade compartilhada.
Com isso, reforçamos que, com as evidências acumuladas ao longo de décadas, os benefícios superam os possíveis riscos para as populações às quais cada vacina é recomendada. É importante seguir o calendário vacinal proposto pelo Ministério da Saúde ou, em casos sazonais, como o que as cidades de São Paulo, São Bernardo e Guarulhos vivem, a recomendação do reforço da dose, com vacinação nas Unidades Básicas de Saúde, além de outros espaços, como estações do metrô, para facilitar a adesão da população.
Vendo doenças como o sarampo, que por anos estiveram eliminadas do país, voltarem a circular, precisamos nos perguntar: quais doenças estamos, de fato, dispostas a evitar? Que vidas estamos dispostos a preservar? Quando tratamos a vacinação como uma escolha meramente individual, deixamos de reconhecer que ela ultrapassa o corpo de quem se vacina. Vacinar-se é também uma decisão sobre o coletivo, sobre quem protegemos e sobre a sociedade que escolhemos construir.
Andrea Taborda é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.
