Um sistema que promete ligar o telemóvel, os auriculares Bluetooth ou até a coleira do cão à matrícula do carro já está em testes e já há feedback relativamente ao seu funcionamento.

Sistema SignalTrace, que associa dispositivos às matrículas dos carros

Recentemente, demos a conhecer o SignalTrace, uma tecnologia da Leonardo capaz de, teoricamente, associar sinais Wi-Fi, Bluetooth e outros sinais eletrónicos emitidos por dispositivos pessoais às imagens captadas por câmaras de reconhecimento de matrículas (em inglês, ALPR).

Agora, sabe-se que já não se trata apenas de uma promessa. Segundo uma investigação recente, existem instalações reais a funcionar em Oxon Hill, Maryland, operadas pela polícia do condado de Prince George, nos Estados Unidos.

O SignalTrace não é propriamente um leitor de matrículas, funcionando como um rastreador de sinais, que capta as emissões públicas de Wi-Fi, Bluetooth e outras frequências emitidas pelos dispositivos que normalmente viajam juntos dentro de um veículo, criando aquilo a que a Leonardo chama uma “impressão digital eletrónica”.

Quando existe também uma câmara ALPR no local, esse conjunto de sinais pode ser associado a uma matrícula, a uma hora e a uma localização, permitindo, em teoria, identificar um carro mesmo sem se conhecer a matrícula.

A realidade é menos assustadora

O consultor de segurança Ryan O’Horo identificou várias instalações do SignalTrace em Maryland e garantiu que são, tanto quanto sabe, os únicos casos reais de utilização da tecnologia até ao momento.

Curiosamente, a sua análise técnica veio colocar em causa algumas das promessas mais ambiciosas da empresa responsável pela tecnologia. Os dispositivos eletrónicos não emitem sinais de forma contínua e estável, e as suas transmissões acontecem em canais diferentes, o que obriga o sensor a estar a “ouvir” exatamente na frequência e no momento certos para capturar algo de útil.

Esta abordagem do sistema torna particularmente difícil a deteção de sensores de pressão dos pneus (TPMS) e de microchips de animais de estimação, dois dos exemplos mais citados no lançamento da tecnologia.

Segundo O’Horo, a antena plana do SignalTrace dificilmente consegue captar as frequências usadas pela maioria dos TPMS, enquanto os microchips de identificação animal só costumam ser lidos a poucos centímetros de distância.

Por sua vez, uma coleira com Bluetooth, um telemóvel ou uns auriculares sem fios são alvos mais plausíveis.

As câmaras da Flock Safety, um dos fornecedores mais conhecidos de ALPR, já estão instaladas em milhares de localizações nos Estados Unidos e são frequentemente citadas como o exemplo mais visível da vigilância rodoviária em massa através de reconhecimento de matrículas.

Anónimo não significa inofensivo

De qualquer forma, conforme mencionado pela Ars Technica, a assinatura de um dispositivo não precisa de incluir o nome do seu dono para se tornar identificável.

Associar repetidamente o mesmo telemóvel ou smartwatch a um veículo registado, a uma morada ou a outros dispositivos pode transformar um padrão supostamente anónimo numa pista de investigação, capaz de implicar passageiros, familiares, colegas de trabalho ou simples transeuntes que passem perto de alguém sob investigação.

De facto, um estudo de 2013 sobre dados de mobilidade, citado pela mesma fonte, concluiu que bastam quatro pontos de tempo e localização para identificar de forma única 95% das 1,5 milhões de pessoas presentes no conjunto de dados analisado.