
Mãos, pés e cabeças mumificadas são vendidos online sem alertas sobre os riscos para a saúde. Os restos podem conter substâncias tóxicas e agentes patogénicos, e há anúncios que mostram pessoas a manuseá-los sem luvas.
As célebres e macabras histórias sobre maldições de múmias do antigo Egito têm mais raízes em preconceitos culturais ultrapassados e no racismo do que em qualquer intervenção sobrenatural.
Mas isso não significa que estes restos antigos sejam completamente inofensivos.
Segundo os arqueólogos, colecionadores de todo o mundo continuam a manusear material biológico com milhares de anos sem terem em conta os riscos patológicos e microbianos.
Num estudo publicado na semana passada na International Journal of Cultural Property, uma equipa de investigadores da Universidade de Staffordshire, no Reino Unido, analisou cerca de 130 anúncios de leilões e publicações online que ofereciam restos mumificados de seres humanos e animais.
“A nossa investigação revelou que os restos mumificados vendidos online apresentam sinais de biodeterioração, mas os vendedores não dão quaisquer orientações de segurança”, explica a bioarqueóloga Kirsty Squires, primeira autora do estudo, num comunicado da universidade.
“isto sugere que há pouco conhecimento dos perigos ou uma decisão deliberada de os ignorar”, acrescenta Squires.
Os artigos mais comuns nestes anúncios são partes do corpo humano, como mãos e pés, mas mais de metade dos lotes analisados incluía cabeças em diferentes estados de conservação e integridade.
Os vendedores também não dão informação adequada sobre a forma de manusear e conservar estas peças, dizem os autores do estudo.
Alguns anúncios chegavam a incluir fotografias de pessoas a mexer em partes mumificadas de corpos humanos sem luvas.
“Há também indícios de que restos mumificados estão a ser enviados pelo correio aos compradores, tanto dentro do país como para o estrangeiro, com pouca ou nenhuma atenção às implicações destas práticas para a saúde e a segurança”, acrescentou Squires.
Os perigos de transportar e manusear incorretamente restos mumificados são sobretudo de dois tipos. Em muitos casos, os corpos ainda contêm vestígios de substâncias tóxicas usadas no embalsamamento, como chumbo, mercúrio e arsénio.
Depois há os agentes patogénicos. E aqui há precedentes históricos claros, nota a Popular Science.
A biodegradação aumenta o risco de contaminação microbiana, mesmo quando os restos parecem estar bem conservados.
Na década de 1970, 10 dos 12 conservadores de uma equipa morreram depois de inalarem esporos do fungo Aspergillus, na sequência da abertura do túmulo do rei Casimiro IV Jagelão (1427-1492), em Cracóvia, na Polónia.
O exemplo potencial mais famoso dos riscos biológicos associados à arqueologia é também aquele que ajudou a popularizar o mito da maldição das múmias.
Apesar das lendas que atribuem a forças sobrenaturais as desgraças que atingiram a equipa que abriu o túmulo do faraó Tutankhamon, no início do século XX, há cada vez mais indícios de uma explicação mais plausível.
Em vez de espíritos vingativos, poderá ter sido outro caso de aspergilose que matou o mecenas da expedição, Lord Carnarvon, em 1923. Infelizmente, mais de um século depois, parece continuar a haver o mesmo tipo de descuido.
“Apesar dos riscos significativos para a saúde e a segurança associados ao manuseamento de restos mumificados, os vendedores deste mercado não regulamentado tendem a ignorá-los”, concluiu Squires.