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As dietas que reduzem o consumo de produtos de origem animal podem provocar alterações mensuráveis no organismo mesmo após apenas algumas semanas.

Um novo estudo está a ajudar a esclarecer de que forma a alimentação pode interagir com a genética e influenciar determinados processos metabólicos e imunológicos.

O estudo, publicado este mês na Nature Communications, acompanhou um grupo de 200 pessoas saudáveis da Grécia que alternam entre períodos de alimentação omnívora e períodos de restrição de produtos de origem animal por motivos religiosos. Os investigadores compararam estes participantes com 211 pessoas que mantêm uma alimentação omnívora sem estas restrições.

Os participantes que seguiam o jejum ortodoxo abstinham-se de carne, peixe, laticínios e ovos durante cerca de 180 a 200 dias por ano. A restrição ocorre durante quatro períodos mais longos ao longo do ano, bem como às quartas-feiras e sextas-feiras.

Os participantes não deixavam necessariamente de consumir moluscos e marisco, razão pela qual os investigadores preferem descrever este padrão como uma restrição periódica de produtos de origem animal, e não simplesmente como uma dieta vegana.

“Normalmente, durante a restrição de produtos de origem animal, para além de uma redução acentuada da ingestão de gordura animal, os indivíduos submetidos a restrições periódicas sofrem uma restrição de proteínas (como proporção da ingestão energética total). Isto deve-se à abstinência de quase todas as fontes de proteína animal e não é acompanhado por uma redução da ingestão energética total”, salientaram os especialistas.

Esta tradição religiosa constitui uma oportunidade particularmente interessante para estudar de que forma a alimentação pode interagir com a regulação genética.

Como grupo de comparação, os investigadores acompanharam 211 participantes da mesma região que não praticavam estas restrições alimentares. Os resultados revelaram alterações na regulação de determinadas proteínas, incluindo proteínas relacionadas com o metabolismo e o sistema imunitário.

Os investigadores já tinham observado que a restrição periódica de produtos de origem animal está associada a alterações metabólicas extensas, incluindo mudanças na abundância de proteínas imunometabólicas como a FGF21.

Segundo o Science Alert, o novo estudo identificou variantes genéticas cujos efeitos sobre determinadas proteínas dependem do contexto alimentar. Uma delas está associada à FGF21, uma proteína importante na regulação do metabolismo energético, dos lípidos e da glicose.

A FGF21 já foi associada, sobretudo em estudos com animais, ao chamado “beiging” do tecido adiposo, um processo através do qual algumas células de gordura branca adquirem características semelhantes às da gordura castanha, especializada na produção de calor.

No entanto, o estudo não demonstrou que a restrição de produtos de origem animal provoque diretamente o “beiging” do tecido adiposo em seres humanos. Os investigadores encontraram, sim, uma variante genética associada à regulação da FGF21 durante o período de restrição, que apresentou relações com determinadas características imunológicas, incluindo os níveis de eosinófilos e plaquetas.

Outra descoberta importante envolveu a proteína LBR, que desempenha um papel essencial no metabolismo do colesterol. Uma determinada variante genética, rs74148404, apresentou um efeito regulador sobre a LBR durante a restrição de produtos de origem animal.

Essa mesma variante mostrou uma associação sugestiva com características relacionadas com a obesidade exclusivamente durante o período de restrição. Isto sugere que o contexto alimentar pode modificar a forma como determinadas variantes genéticas se relacionam com o risco de doença.

Os autores salientam que estes resultados não significam que a variante provoque obesidade ou que deixar de consumir carne e laticínios aumente diretamente o risco de obesidade. Trata-se de uma associação genética dependente da alimentação, e não de uma relação causal comprovada.

Em última análise, o estudo mostra que a alimentação pode influenciar a forma como determinadas variantes genéticas regulam proteínas envolvidas no metabolismo e no sistema imunitário.

Estas descobertas poderão contribuir para uma melhor compreensão da interação entre dieta, genética e saúde e ajudar, no futuro, a explicar por que razão diferentes pessoas podem responder de forma distinta às mesmas alterações alimentares.