Ah, suplementos… Quem é que, por estes dias, não está a tomar ómega 3, creatina, magnésio ou melatonina? Só para nomear alguns dos mais populares. Ou isso ou alguma das opções herbais, com nomes ainda mais inóculos, como ginko biloba, equinácia, centella asiática, curcuma, ashwagandha ou erva-de-são-joão. Extractos de raízes, folhas ou flores, coisas lindas e naturais que, certamente, não fazem mal a ninguém, certo? Em princípio sim, mas convém sempre usar de bom senso e, em caso de dúvida, consultar um médico ou farmacêutico. Mas há um aspecto em concreto que é preciso nunca perder de vista: a possibilidade de interacção com outros medicamentos. Há até casos em que não informar o médico de que se está a tomar um determinado suplemento, pode ter resultados catastróficos. Um caso emblemático é o da erva-de-são-joão que não só pode interferir com antidepressivos, como até com a pílula anticoncepcional – há muitos bebés fruto desta conjugação.
Num post recente na sua conta do Instagram, o médico britânico de medicina geral e familiar Amir Khan alerta, precisamente, para esta questão, sublinhando que “a maior parte das pessoas assume que se é natural deve ser seguro, mas natural não significa, automaticamente, inofensivo”. E prossegue, enumerando os suplementos mais problemáticos deste ponto de vista começando, precisamente, pela erva-de-são-joão (também conhecida como hipericão e que tem uma acção antidepressiva) para além das interacções já referidas, pode também interferir com fármacos anticoagulantes, como a varfarina (também conhecida como warfarina), e até com alguns medicamentos usados depois de um transplante de órgãos. O médico explica que isto se deve ao facto do suplemento “alterar a forma como o fígado processa os fármacos”.
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Também é preciso ter cuidado com a curcuma – uma planta herbácia cuja raiz é usada como especiaria, com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, e que, enquanto suplemento, é comercializada sob a forma de extracto de curcumina. O médico reconhece que este suplemento “é muito popular para [tratar] a inflamação e as dores nas articulações”, mas “pode aumentar o risco de hemorragias” quando tomado em conjunto com medicação anticoagulante.
Nem o magnésio, que contribui para o funcionamento normal dos músculos e do sistema nervoso, escapa a esta lista. Khan diz que também pode afetar a absorção de fármacos, nomeadamente “alguns antibióticos e medicamentos para a [regulação da] tiróide”. Não significa isto que não se possa tomar magnésio com estes medicamentos, mas pode ser necessário tomar em horários distintos, razão pela qual é tão relevante informar o médico. “E os suplementos de cálcio podem ter um efeito semelhante”, acrescenta. Por último, o médico conclui que também a vitamina K, “importante para a saúde dos ossos e que está presente em alguns suplementos”, pode interagir com fármacos como a varfarina.
Para além dos exemplos referidos por este especialista, evidências científicas também apontam para a possibilidade do ginkgo biloba interagir com a varfarina, aumentando a possibilidade de hemorragias. Algo que também pode acontecer com suplementos de alho ou gengibre em doses elevadas. Também é importante informar o médico quando se toma ferro porque, à semelhança do magnésio e do cálcio, pode interferir com fármacos para a regulação da tiróide entre outros medicamentos, em cujo caso, tomar em horas distintas costuma ser suficiente para evitar problemas. Curiosamente, até suplementos de alcaçuz, usados para o alívio de sintomas de indigestão e desconforto gástrico, podem ser preocupantes – o consumo prolongado ou em doses elevadas pode aumentar a pressão arterial e diminuir o potássio, podendo, também, causar interações com medicamentos.
No geral, se a pessoa toma medicamentos de margem terapêutica estreita, o melhor é sempre avisar o médico antes de acrescentar um suplemento. Deve ser dada particular atenção a anticoagulantes, medicamentos para epilepsia, imunossupressores usados depois de transplantes, medicamentos cardíacos, antidepressivos, fármacos para a regulação da tiróide e alguns medicamentos oncológicos. Ou seja, casos em que uma alteração relativamente pequena na concentração do medicamento pode ter consequências importantes.