Olhamos para o quarto como o lugar onde desabamos no fim do dia, mas raramente percebemos que as quatro paredes onde adormecemos dão o tom à nossa capacidade de amar, de descansar e de nos entregarmos. Entre a correria, os ecrãs e a roupa por arrumar, a intimidade costuma ser a primeira a sofrer as consequências. Em conversa com a Máxima, a designer de interiores Gracinha Viterbo desconstrói os clichés da sedução, do vermelho dramático ao mito do ‘quarto de revista’, e revela como a arquitetura do espaço pode ser a melhor aliada da paixão.
Para muitos a cama e o quarto são quase como um santuário sagrado. Mas, muitas vezes transformamo-lo num mero espaço físico. “O quarto não é só onde se dorme, é uma âncora emocional e íntima para muitos, um refúgio, uma liberação, um norte.” Numa abordagem que prioriza os rituais do casal antes de desenhar a disposição do mobiliário, a cama assume o protagonismo na reconexão afetiva. Deixa de ser uma peça de mobiliário para passar a ser o palco onde a vulnerabilidade acontece sem filtros. “A cama não é apenas um móvel; é o lugar onde recuperamos física e emocionalmente, onde conversamos, onde fazemos as pazes, onde sonhamos e onde nos permitimos ser mais vulneráveis.” Mas para que a magia aconteça, o espaço tem de respirar. Se a circulação for difícil ou se o ambiente exigir um esforço inconsciente para ser habitado, o corpo bloqueia. “Quando um espaço exige esforço constante para funcionar, o corpo regista essa tensão, mesmo sem termos consciência disso”, explica a designer. “E quando nos sentimos seguros, presentes e regulados, tornamo-nos naturalmente mais disponíveis para a proximidade e para a intimidade.”
Leia também
O orgasmo mais inesperado pode acontecer no ginásio
A verdade é que é quase impossível ligar o modo de sedução quando a cabeça está a ser estimulada. A confusão visual como a roupa acumulada no canto, as pilhas de papéis ou o material do ginásio, funcionam como um ruído surdo que nos prende. “Um quarto cheio de estímulos, roupa à vista ou objetos acumulados mantém-nos, inconscientemente, em modo de tarefa. É difícil descansar quando tudo à nossa volta nos lembra aquilo que ainda falta fazer.” A solução não passa por criar um espaço estéril, mas sim por esconder o acessório para libertar o essencial. E sim, a vida real cabe no design: “A cadeira ou o cadeirão – aquela peça com personalidade feita para aguentar aquelas peças que não temos tempo de arrumar logo e se pousam para outra altura – faço sempre questão que esteja presente porque todos temos ‘a cadeira’ no quarto. Aquele recanto onde podemos pousar para arrumar depois”.
Da mesma forma, resgatar a intimidade exige banir deste espaço as maiores ameaças do mundo moderno: “O design de interiores pode e deve ajudar a melhorar hábitos e rituais de conexão com os outros e com nós mesmos, e nenhum casal gosta que o outro pegue mais ou olhe mais para os eletrónicos do que para o outro”.
A sexualidade e o desejo começam na cabeça, mas disparam no corpo – e nada afeta mais a atmosfera do que a iluminação errada. “Num quarto NUNCA uso luz no teto“, afirma a designer. A razão é simples: a luz central expõe, encadeia e acentua as inseguranças corporais, enquanto a intimidade pede subtileza e acolhimento. Para criar um ambiente genuinamente sexy, a aposta deve recair em camadas de luz indireta, abajures baixos e focos quentes. “A luz deixa de ser apenas algo que nos permite ver e passa a ser algo que nos faz sentir. Pode haver um candeeiro sexy que crie uma luz moody – afinal não podemos deixar de integrar um pouco de playfulness.” Quando a iluminação envolve o quarto de forma suave, o cérebro desliga o modo de alerta e o corpo ganha espaço para se libertar.
A esta atmosfera junta-se o apelo tátil, porque a pele responde à textura muito antes de o cérebro processar a intenção. “Costumo dizer que a textura é mais uma cor, e o toque também está ligado ao desejo”, lembra. O segredo reside no luxo descontraído dos tecidos e materiais nobres – o linho lavado, o algodão aveludado, a madeira quente, o couro e a pedra natural. “Os materiais devem transmitir autenticidade, temperatura e imperfeição natural. Nada de rigidez nem cerimónia se o objetivo é um espaço sexy e íntimo: queremos criar qualidades que tornam um espaço verdadeiramente humano.”
Por isso esqueça o vermelho ou as escolhas de paleta forçadas. O caminho passa por tons acolhedores como o bege mineral, a areia, a argila ou os azuis e verdes acinzentados, tendo em atenção que pode haver exceções e que “a melhor cor é sempre aquela que traduz a identidade de quem ali vive”.
No fundo, criar o quarto perfeito não é sobre impressionar as visitas, é o ato supremo de autocuidado a dois. “Gosto de acreditar que criar lugares onde as pessoas se sintam seguras, reguladas emocionalmente e profundamente elas próprias é o cenário perfeito para um momento íntimo inesquecível.”
Leia também
Um testemunho sobre vaginismo. A dor invisível que afeta a sexualidade feminina
Leia também
Lídia Franco, Mia Fernandes e Tânia Graça: no dia internacional do orgasmo, três gerações de mulheres conversam sobre sexualidade
Leia também
Afinal, o que é o squirt, um dos mistérios da sexualidade feminina