Numa viagem de Nova York para Woodstock para visitar seu namorado da época, Luísa Matsushita teve uma epifania e decidiu que queria ser pintora. Naquele ano de 2013, ela viajava pelo mundo como vocalista do Cansei de Ser Sexy, banda que fundou e um dos grupos brasileiros de maior sucesso no exterior nas últimas duas décadas.

Ela passou a pintar entre os shows. Em paralelo, uma amiga que trabalhava numa galeria de São Paulo vendia seus quadros. Corta para dez anos mais tarde. Matsushita trocou o microfone pelos pincéis —desde 2023, dedica-se totalmente às artes visuais, produzindo de oito a nove horas por dia em seu ateliê paulistano, como uma operária das tintas. A banda está em pausa, sem compromissos marcados.

Sua produção artística recente pode ser vista até 27 de setembro, numa mostra que inaugura as pequenas salas expositivas do Teatro Cultura Artística. Em seu projeto para a casa de espetáculos no centro de São Paulo, o arquiteto Rino Levi havia previsto que o segundo andar também funcionasse como galeria de arte, o que finalmente vai acontecer. A exposição é organizada pela Aberto, iniciativa que leva mostras de artes visuais a casas-ícone da arquitetura.

As telas de Matsushita são tão coloridas quanto a estética visual do Cansei de Ser Sexy, mas a paleta da pintora é amena, enquanto a da banda era berrante. A artista conta que “dá uma sujada” nas cores para que as telas “pareçam ter cem anos” quando saem do estúdio. De fato, a sensação é a de composições com certa tranquilidade e ordem, algo distante do caos festivo de seu grupo de eletrorock.

Seus quadros são abstratos, com formas predominantemente curvas organizadas pela gravidade e que, segundo ela, não devem estar flutuando. Autodidata, admiradora de Cícero Dias e Eleonore Koch, Matsushita cria com base na intuição —para a exposição, pintou óleos em torno da vida noturna da rua Augusta dos anos 2000, um lugar e uma época que definiram o som do Cansei de Ser Sexy e também muitas de suas escolhas de vida.

Daí vem o título da exposição —”Tudo o que Sei, Eu Aprendi à Noite”— e de quadros como “Fila do Baile”, “Antes da Noite”, “Frevinho”, em homenagem ao restaurante de beirutes na rua Augusta, e “Rua Augusta”, a composição mais caótica de todas, exibida no térreo. A artista afirma buscar captar visualmente a expectativa pela ferveção e os momentos com potencial, mas não a pista de dança em si.

As obras no espaço expositivo do Cultura Artística podem ocupar tanto o grande hall do segundo andar —que se estende como uma galeria com as cadeiras esculturais de Giancarlo Palanti e os sofás de Rino Levi — quanto duas pequenas salas ao fundo deste piso. Nelas, o espectador vê os trabalhos bem de perto, num ambiente intimista que nada tem a ver com o cubo branco das galerias de arte tradicionais.

Além destes espaços, Matsushita ocupa o andar térreo com uma grande intervenção no hall de entrada. Ela pôs duas grandes cortinas cobrindo as paredes e instalou sofás coloridos, transformando um ambiente estéril num local de “modernismo acolhedor”, como ela diz. O resultado lembra uma sala de estar confortável.

Ao prestar atenção, o espectador identifica nas cortinas uma inscrição, no limite da abstração, que diz “você veio”. A artista não se leva a sério. “Sabe quem vê Jesus Cristo na torrada? É para essa pessoa que eu fiz assim”, afirma.