
A “planta da ressurreição” (Selaginella lepidophylla), também conhecida como “falsa rosa de Jericó”, sobrevive anos sem água no deserto de Chihuahua
Uma nova versão de uma vacina contra o tétano e a difteria, concebida para dispensar refrigeração, concluiu o primeiro ensaio em humanos. O objetivo é resolver um dos maiores problemas logísticos da vacinação: a “cadeia de frio”.
Um novo ensaio de fase 1 de uma versão “sem frigorífico” de uma vacina contra o tétano e a difteria mostra que ela é tão eficaz como as tradicionais.
Fazer uma boa vacina é só o primeiro passo. Depois é preciso levá-la a qualquer parte do mundo onde seja precisa e mantê-la viável até chegar ao braço das pessoas.
E aí surge um problema logístico enorme: a cadeia de frio.
“Neste momento, não há no mercado nenhuma vacina que possa ser guardada à temperatura ambiente durante muito tempo. A maioria precisa de ser conservada entre 2 °C e 8 °C”, diz Karen O’Hanlon, diretora de operações da Stablepharma, a empresa por trás da plataforma StablevaX, ao IFLScience.
A cadeia de frio é o esforço de manter a vacina refrigerada em cada etapa do transporte e do armazenamento. Quando falha, as vacinas ficam expostas a calor ou a congelação, perdem potência e deixam de proteger.
A congelação acidental é especialmente perigosa para as vacinas com adjuvantes à base de alumínio, e o dano é quase sempre irreversível.
Segundo um estudo da OMS publicado em 2010 na Vaccine, o desperdício pode chegar aos 50% em certas vacinas e contextos. E manter a cadeia de frio pode representar até 80% do custo total de um programa de vacinação em zonas com poucos recursos. Ou seja, há muito para poupar.
É aqui que entra a StablevaX. A tecnologia pega em vacinas já testadas e aprovadas e reformula-as para aguentarem a temperatura ambiente sem perder eficácia.
A ideia veio da natureza. A “planta da ressurreição” (Selaginella lepidophylla), também conhecida como “falsa rosa de Jericó“, sobrevive anos sem água no deserto de Chihuahua.
Nos períodos secos, enrola-se numa bola com aspeto morto. Bastam umas gotas de água e revive. Consegue-o graças a um açúcar, a trealose, que protege as células e as proteínas da desidratação.
O fundador da Stablepharma, Bruce Roser, aplicou o mesmo princípio às vacinas. Reformuladas num estado de “vidro de açúcar“, ficam estáveis até se juntar água para preparar a injeção.
A primeira vacina reformulada é a SPVX02, contra o tétano e a difteria (vacina Td). São infeções bacterianas potencialmente mortais, ainda hoje um problema sério em zonas do mundo onde as vacinas nem sempre chegam. A OMS estima que quase 20 milhões de crianças não estão protegidas contra a difteria.
No ensaio de fase 1, cujos resultados foram apresentados num artigo publicado no início do mês na eClinicalMedicine, os 60 participantes foram divididos em três grupos de 20: um recebeu a SPVX02, os outros dois receberam reforços Td já aprovados, o Tetadif e o diTeBooster.
Ao fim de 28 dias, 100% de quem recebeu a SPVX02 tinha níveis protetores contra o tétano e a difteria, sem acontecimentos adversos graves. É a primeira prova, em humanos, de que a plataforma consegue produzir uma vacina comparável à original e, ao mesmo tempo, estável à temperatura.
“Mesmo depois de guardada a 30 °C durante dois anos, e a 40 °C durante seis meses, a SPVX02 manteve a potência e a integridade do antigénio”, diz O’Hanlon. A empresa acredita que vai conseguir prazos de validade de pelo menos quatro anos à temperatura ambiente.
Segue-se agora um ensaio de fase 2b. A Stablepharma procura já outras candidatas ao tratamento sem frigorífico, como as vacinas contra a hepatite B e o HPV.