
A ideia de que cada ano de vida de um cão equivale a sete anos humanos é uma simplificação que não traduz a forma como os cães envelhecem.
Na realidade, o envelhecimento canino não ocorre a um ritmo constante. Os cães passam por mudanças muito rápidas durante os primeiros anos de vida e, posteriormente, o ritmo de envelhecimento abranda. Além disso, a velocidade a que envelhecem varia consoante fatores como a raça, o tamanho e a genética.
Num estudo, publicado em 2020 na Cell Systems, os cientistas descobriram a nova fórmula da idade canina ao recolher amostras de sangue de 104 cães, todos labradores, desde as primeiras semanas de vida até aos 16 anos.
Em seguida, analisaram os padrões de metilação do ADN em dezenas de milhares de locais do genoma e compararam-nos com dados de metilação previamente obtidos de 320 seres humanos com idades entre um e 103 anos.
A metilação do ADN é uma modificação química do material genético que pode influenciar a atividade dos genes sem alterar a sequência do ADN. Ao longo da vida, os padrões de metilação em muitos locais do genoma sofrem alterações relativamente previsíveis.
Esses padrões podem ser utilizados para construir aquilo a que os cientistas chamam um “relógio epigenético”, uma ferramenta molecular que permite estimar a idade a partir de alterações epigenéticas.
No estudo, os padrões de metilação dos cães jovens eram mais semelhantes aos dos seres humanos jovens, enquanto os cães mais velhos apresentavam padrões progressivamente mais semelhantes aos dos humanos mais velhos. A relação, contudo, não era linear: as diferenças de idade eram maiores nas primeiras fases da vida e diminuíam à medida que os cães envelheciam.
Segundo o ScienceAlert, também apresentou uma correspondência razoável com alguns marcos fisiológicos importantes. Por exemplo, um cachorro com cerca de oito semanas apresentava uma idade epigenética correspondente a aproximadamente nove meses num ser humano, coincidindo com uma fase semelhante do desenvolvimento e com o período em que ocorre a erupção dos dentes de leite.
Os resultados mostraram uma relação não linear entre a idade dos cães e a dos humanos. Com base nesses dados, os investigadores propuseram a fórmula:
idade humana = 16 × ln(idade do cão) + 31
Nesta fórmula, “ln” representa o logaritmo natural. A relação significa que a diferença entre as duas espécies é particularmente acentuada no início da vida e diminui à medida que o cão envelhece.
Assim, um cão de um ano corresponde aproximadamente a 31 anos humanos; um cão de dois anos, a cerca de 42; e um cão de quatro anos, a aproximadamente 53 anos.
Uma limitação do estudo é o facto de se ter centrado exclusivamente nos labradores. Raças diferentes apresentam grandes diferenças de tamanho, desenvolvimento e longevidade, pelo que não se pode assumir que a mesma relação seja igualmente válida para todos os cães. Os próprios investigadores indicaram que seria necessário testar o modelo noutras raças.
O tamanho corporal e outros fatores também estão associados à longevidade canina. Em geral, cães de maior porte tendem a ter uma esperança de vida inferior à de cães de menor porte, embora esta relação seja complexa e varie entre raças. Por isso, uma única fórmula não deverá ser encarada como uma medida universal da idade de qualquer cão.
Os investigadores procuraram ainda perceber quais as alterações moleculares que eram partilhadas pelos mamíferos à medida que envelhecem.
Para isso, compararam cães, seres humanos e ratos e identificaram 394 genes cujas alterações de metilação ao longo da vida apresentavam padrões conservados nas três espécies. Esses genes foram agrupados em cinco módulos de uma rede molecular altamente interligada.
A maioria desses módulos apresentava enriquecimento de funções relacionadas com o desenvolvimento, incluindo a formação de estruturas anatómicas, a diferenciação de células neuroepiteliais e a formação de sinapses.
Este resultado sugere que o envelhecimento não é completamente independente dos processos moleculares envolvidos no desenvolvimento. Em vez disso, pelo menos parte do mecanismo molecular envolvido na construção de um organismo pode continuar a mudar ao longo da sua vida, o que significa que o envelhecimento é uma continuação do processo de desenvolvimento.
Os resultados também apontam para uma possível utilidade dos cães no estudo do envelhecimento. Como vivem num ambiente relativamente semelhante ao dos seres humanos e desenvolvem muitas doenças relacionadas com a idade, os cães podem constituir modelos para investigar o envelhecimento saudável e testar intervenções destinadas a retardá-lo.