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  • Documentário “Anistia 79”, dirigido por Anita Leandro, retrata a Conferência Internacional pela Anistia e Liberdades Democráticas realizada em Roma.
  • O filme baseia‑se em registros de Milton Lopes dos Santos e Vélcio Ribas, capturados com apoio da Associação França‑Brasil.
  • Sua estreia coincide com os 50 anos do atentado à sede da Associação Brasileira de Imprensa, ocorrido em 19 de março de 1974.
  • A produção integra o resgate da memória sobre os crimes da ditadura militar (1964‑1985) e das reivindicações de Anistia.

A ditadura militar que infelicitou o Brasil (1964-1985) vive. Vive no bolsonarismo. Vive em Flávio Bolsonaro.

Vive nas memórias do atentado à bomba contra a sede da Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, que completa 50 anos nesta quarta-feira, 19 — foi reivindicado por uma certa Aliança Anticomunista Brasileira (AAB).

O resgate da História faz parte de um acerto de contas que ainda não está completo.

A presidenta Dilma Rousseff foi derrubada, dentre outros motivos, por ter bancado a instalação da Comissão da Verdade.

Jair Bolsonaro tentou o golpe de 8 de janeiro de 2023 como representante dos porões da ditadura.

Em agosto estreou Honestino, um docudrama de Aurélio Michelis, estrelado por Bruno Gagliasso, que conta um pouco da vida do líder estudantil da Universidade de Brasília (UNB) que foi “desaparecido” pela ditadura.

Agora é a vez de Anistia 79, um documentário centrado em um episódio específico: a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil, que aconteceu em Roma.

A diretora Anita Leandro (Retratos de Identificação), professora de cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro, baseou-se em registro feito por Milton Lopes dos Santos e Vélcio Ribas:

Sabendo desse evento ele [Milton] conseguiu uma pequena doação ali da Associação França-Brasil, que dava apoio aos exilados — porque os exilados não tinham dinheiro pra filmar — e ele alugou uma câmera, comprou a película, comprou as bobinas de som e foi pra Roma com o Vélcio e mais um amigo dele, um vizinho, um italiano, que aceitou o convite dele para ir até Roma filmar.

Reencontro

No documentário, Anita promove o “reencontro” de 11 participantes do evento com as imagens da conferência.

Dentre os presentes, Diógenes Arruda, Apolonio de Carvalho e Gregório Bezerra — líderes históricos da esquerda brasileira.

A emoção está presente desde o início.

Anita resgata o depoimento dado por Denise Crispim sobre o assassinato de seu companheiro Eduardo Collen Leite, o Bacuri, ao Tribunal Russell — organizado inicialmente pelo filósofo britânico Bertrand Russell para julgar os crimes estadunidenses na guerra do Vietnã, mais adiante ele teve versões para avaliar os crimes cometidos pelas ditaduras da Argentina e do Brasil.

O documentário é um potente retrato do engajamento da sociedade civil brasileira que se organizou para enfrentar a ditadura.

A Anistia aconteceu em um momento de efervescência política no Brasil, que teve milhares de exilados:

Fala-se em 10 mil, mas era muito mais. Só na França devia ter quase 10 mil pessoas. E tinha brasileiros espalhados pelo mundo, em vários países da Europa. Em Portugal tinha muita gente, na Bélgica, na Alemanha, na Itália, nos Estados Unidos, na África, em Cuba. Tinha brasileiro pra todo lado, foi uma debandada geral de toda a juventude brasileira que de alguma forma tinha se engajado na luta política, todo mundo estava sob suspeita, risco de vida. Nós éramos o inimigo interno.

O entulho autoritário

Corte para 2026. O entulho autoritário da ditadura segue presente no dia-a-dia dos brasileiros. A Anistia, em si, foi um veículo para que os militares dessem perdão as crimes cometidos por eles. Crimes de Estado. Crimes inafiançáveis, como a tortura.

O entulho autoritário permanece, diz a diretora:

A formação das polícias no Brasil não mudou uma linha. Nós ainda somos o inimigo interno nos manuais de formação de militares. Como é que isso pode ser possível em 2026? Nós temos a polícia militar que mais mata, a polícia que mais mata no mundo. Só comparável a países em guerra. Não tem uma educação política mínima para um retorno à democracia. Nossa polícia continua ditatorial, extremamente ditatorial, extremamente violenta. Só mudou o alvo. Em vez de ser o estudante… É o pobre periférico, é o pequeno traficante, o varejista da droga. Mudou o alvo. É o pobre. É o indígena. É o negro. Então, nós vivemos as sequelas de uma transição para a democracia sem uma justiça de transição.

Acompanhem, abaixo, um trailer de Anistia 79 e a íntegra da entrevista com Anita Leandro: