Foi em Benavente, Espanha, que o fotógrafo Rui Santos, conhecido como Living Impressions, captou a imagem que a NASA escolheu para ilustrar o eclipse de dia 12 de agosto de 2026 no Astronomy Picture of the Day (APOD). A foto foi intitulada pela Agência Espacial norte americana como “A Golden Corona Eclipse” e o fotógrafo português admite que este é um momento particularmente importante no seu percurso, onde conta já com vários prémios.
Talvez seja a fotografia mais importante que alguma vez fiz. Não só pelo fenómeno que representa, mas por tudo o que existe por trás dela: o tempo que levou a preparar, o planeamento, a espera e, finalmente, aqueles poucos segundos em que tudo aconteceu e em que nada podia falhar, explica Rui Santos
Em entrevista ao TEK Notícias, o fotógrafo de Leiria adianta que este reconhecimento surge na sequência de uma Notable Submission da NASA, que acabou por abrir caminho para esta distinção maior. “Ao longo dos últimos anos, o meu trabalho tem vindo a ser publicado em várias revistas de astronomia e fotografia especializada, em diferentes países, e fui também tendo outros destaques pontuais associados a trabalhos que submeti para plataformas da NASA”, detalha.
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A imagem foi partilhada pela NASA no dia 17 de agosto no Astronomy Picture of the Day (APOD) e esta publicação faz com que Rui Santos se junte a um grupo restrito de astrofotógrafos portugueses que já viram o seu trabalho distinguido por esta plataforma internacional de divulgação da astronomia.
A foto divulgada, e que ilustra este artigo, foi captada manualmente, com uma configuração fotográfica que o fotógrafo admite ser relativamente simples, tendo em conta a exigência do fenómeno.
Treinei configurações mais complexas e percebi que no calor do momento, não seria exequível nem desfrutaria do momento”, admitiu Rui Santos.
Paralelamente à foto principal, foi também utilizado um telescópio inteligente para registar o fenómeno, cuja operação e monitorização ficaram a cargo da sua equipa, permitindo-lhe manter-se totalmente concentrado na captura manual da imagem principal durante os momentos críticos da totalidade do eclipse.
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Dois anos de preparação para uma foto onde nada podia falhar
Rui Santos conta ao TEK Notícias que o interesse em fotografar começou quase por acaso em 2020, e que a astrofotografia surgiu logo muito cedo neste percurso. Depois foi somando experiências que o levaram a novos caminhos, e a somar distinções, onde se incluem várias publicações em revistas especializadas e a exposição de três astrofotografias no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, que decorre até ao final de agosto.
“Mesmo antes de conseguir resultados consistentes, já estudava técnicas e formas de captar o céu. Cheguei a fazer experiências em casa, apontando a câmara para o céu, tentando localizar objetos e testando diferentes definições”, recorda, indicando que “foi um processo muito experimental, muitas vezes no limite do que o equipamento permitia, mas foi precisamente através dessas experiências que fui aprendendo a perceber como extrair o máximo daquilo que tinha”.
Para captar o eclipse total do Sol de 12 de agosto, os preparativos começaram dois anos antes, com a escolha do local e a necessidade de ter sucesso num espaço de tempo muito curto.
“Em 2024, quando comecei a ver as imagens extraordinárias do eclipse solar total que atravessou os Estados Unidos, percebi que um dia queria testemunhar e registar algo semelhante. A partir daí, comecei a preparar-me, inicialmente quase de forma instintiva e até inconsciente, para aquele momento”, afirma Rui Santos.
Passou a acompanhar mais atentamente os fenómenos astronómicos, a fotografar repetidamente o Sol e a Lua, a experimentar diferentes técnicas e diferentes distâncias focais e a testar os limites do equipamento. “Também registei eclipses lunares e eclipses solares parciais que foram visíveis no nosso território, precisamente porque precisava de acumular experiência antes de chegar a um momento em que teria apenas alguns segundos para fazer tudo corretamente“.
Rui Santos – Living Impressions
Benavente, a escolha para uma experiência pessoal e introspetiva
A escolha do local foi pensada de forma cuidada, até porque uma das preocupações era a logística no terreno. “Percebi rapidamente que, no extremo nordeste do nosso país, a margem de manobra seria mínima: o espaço seria muito reduzido para a quantidade de gente esperada, concentrada numa janela de tempo tão curta, 20 segundos é um piscar de olhos“, explica.
Para fugir a essa saturação, garantir mobilidade, e encontrar um horizonte totalmente desimpedido optou por Espanha e escolheu Benavente, um ponto longe dos focos mais concorridos de observação do eclipse total do Sol. O objetivo era conseguir a fotografia mas também viver o fenómeno de uma forma mais pessoal e introspectiva, embora não solitária, já que foi acompanhado nesta aventura por um grupo de amigos nesta aventura.
Para além do estudo do fenómeno e da definição das exposições, foi necessário testar e adaptar o equipamento às exigências específicas de uma captação que teria de acontecer num intervalo de tempo extremamente curto e sem possibilidade de repetição.
As primeiras imagens foram partilhadas logo no dia 12 de agosto, mas redes sociais do projeto Living Impressions, mas a imagem principal foi depois trabalhada na sua estação de trabalho.
A versão definitiva da fotografia é “o resultado que tinha originalmente idealizado quando comecei a preparar este eclipse, há mais de dois anos”, admite.
Uma coroa de Sol dourada
O fotógrafo conhecido pelo nome artístico de Living Impressions procurou afastar-se da habitual representação do eclipse como uma simples imagem aproximada do Sol. Em vez disso, a ideia era transmitir a transformação da luz durante a totalidade e revelar estruturas da atmosfera solar que permanecem normalmente ocultas pelo brilho da fotosfera.
Mais do que o registo documental, a imagem a que a NASA deu o nome de “A Golden Corona Eclipse” pretendia a revelar a complexidade visual na sua totalidade, com “a estrutura delicada da coroa solar, as suas extensas projeções, a proeminência vermelha visível junto ao limbo lunar e a transformação extraordinária da luz durante aqueles breves instantes”.
A imagem final foi construída a partir de um bracket de sete exposições, abrangendo 19,3 stops de gama dinâmica, entre −12 EV e +7,3 EV, captadas manualmente durante a totalidade. Cada exposição foi realizada a ISO 100, com uma Sony A6000 equipada com uma Sony 55–210 mm a 210 mm e f/6.3, operada manualmente e sem acompanhamento automático. Os diferentes frames foram foram alinhados manualmente posteriormente para compensar o movimento aparente do Sol entre as exposições.
A própria coloração da imagem acabou por surpreender o fotógrafo, e essa invulgar tonalidade dourada da coroa teve também uma explicação científica, detalhada no próprio texto que acompanha a escolha do APOD. Com o Sol muito próximo do horizonte no momento da totalidade, a sua luz atravessou uma camada maior da atmosfera, levando a uma maior dispersão da luz azul e ao reforço dos tons amarelos e vermelhos. A informação detalha ainda que a presença de fumo proveniente dos incêndios florestais na região contribuiu ainda para atenuar e dispersar a luz, reforçando a tonalidade dourada observada na imagem.
A cor foi uma das coisas que mais me surpreendeu. Os tons vermelhos e alaranjados davam à cena uma qualidade quase palpável, como uma erupção vulcânica a brilhar no horizonte. Havia também algo de estranhamente inquietante, quase como uma cena de um filme de terror”, explicou na altura o fotógrafo.
Segundo Rui Santos, “ao mesmo tempo durante o fenómeno, as estruturas energéticas da coroa fizeram-me lembrar as imagens de Nikola Tesla a realizar experiências elétricas no seu laboratório… aquela sensação de eletricidade ou de energia, no fundo, algo quase sobrenatural suspenso no ar”.

Para além do Céu: Paisagem, Arquitetura, Cidade, Macro e a beleza à nossa volta
Apesar de somar pouco mais de seis anos de dedicação à fotografia, Rui Santos conta já com um percurso assinalável com vários prémios e exposições. Os primeiros passos foram dados depois de algumas gravações com um drone, onde percebeu o encanto que havia em observar as paisagens a partir de uma perspetiva à qual não estava habituado.
“Aquela sensação de descobrir um lugar de uma forma diferente despertou em mim algo, que acabou por me levar por caminhos nunca antes trilhados”, justifica. Talvez por isso o seu portfólio de fotografia é tão variado.
“Acredito que a beleza pode existir onde quer que a consigamos encontrar, fotográfo aquilo que sinto que que me desperta interesse. Por coincidência, ou talvez não, acabo por encontrá-lo em diferentes áreas da fotografia“, afirma. “Gosto dessa diversidade, porque penso que diferentes experiências, temas e formas de olhar acabam por enriquecer a nossa própria vivência e, consequentemente, a forma como fotografamos”.
A astrofotografia tem um espaço importante neste leque de interesses, concretizando uma forma que diz ser particularmente intensa de conjugar o lado técnico com o artístico, mas não sente que se tem de limitar a esse universo. “Para mim, a fotografia começa sempre pelo olhar e por aquilo que uma determinada cena me faz sentir”.
Atualmente tem três astrofotografias expostas no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, até ao final de agosto. Até 4 de setembro há ainda a possibilidade de ver a sua exposição individual “As Árvores da Vida“, no mercado de Alvalade, onde explica que procura “fazer um apelo à preservação do elo vital que as árvores representam para o nosso futuro, incluindo também algumas fotografias noturnas”.

Mesmo assim, a fotografia não é a sua atividade profissional.
Dedico-me à fotografia a 100%, fora do meu horário laboral. Não vivo da fotografia, mas é uma atividade que está muito presente no meu quotidiano e que, de certa forma, acaba por acompanhar também a minha atividade profissional. É um compromisso pessoal ao qual dedico praticamente todo o meu tempo livre”, explicou ao TEK Notícias
Questionado sobre a forma como vê a evolução dos equipamentos e do tratamento de imagem, e o impacto que isso tem na liberdade e criatividade, Rui Santos admite que tem uma admiração enorme pelos mestres do passado. “Criaram trabalhos incríveis e consistentes numa época sem o acesso à tecnologia e à informação que hoje temos exigia mestria técnica, rigor e uma visão artística excecionais. Sem ecrãs para rever a foto no momento, sem visores digitais e sem margem de erro, o talento dependia puramente da intuição e do domínio do ofício”, explica.
Mas não vê a evolução tecnológica como uma ameaça à essência da arte. “Acredito que as novas ferramentas têm a capacidade de trazer ao de cima o melhor do potencial humano. Desde que sejam utilizadas com o propósito correto e guiadas por valores autênticos, em vez de servirem apenas para cortar caminhos ou replicar modas”.
“A tecnologia liberta-nos das barreiras físicas e mecânicas para podermos focar-nos no que realmente importa, que é a ideia, a emoção e/ou a narrativa. Mas o princípio fundamental mantém-se inalterado“, afirma. Para o fotógrafo, a máquina é apenas um meio e “nenhum equipamento, por mais avançado, inteligente ou caro que seja, substitui a sensibilidade que a pessoa tem de ter, o olhar e a intenção de quem está por trás dele. O equipamento não faz o artista“.
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