Em uma famosa entrevista, Graciliano Ramos disse uma frase que pode resumir bem o seu fazer literário: “A palavra não foi feita para enfeitar, / brilhar como ouro falso. / A palavra foi feita para dizer”.

A força desse dizer me bateu forte quando li “A Vida Não é um Animal Doméstico”, romance do carioca Paulo Vicente Cruz, publicado pela Diadorim Editora. O livro, tomado pelo impulso da linguagem altamente talhada na precisão do termo, tem dosagens sutis de experimentalismos, de sutilezas forjadas em uma narrativa que se elabora enquanto busca definir-se.

Duas coisas emergem dessa obra. A primeira delas é a arquitetura do seu enredo, precisa e cirúrgica. Paulo Vicente Cruz esmera-se na concisão e nos detalhes imagísticos, em textos mínimos, de parágrafos curtos, transportando o leitor para dentro de uma história temperada sob a forte emoção de um personagem que se reencontra em um universo de perdas.

A segunda impressão vem da sua literalidade. Nesse ponto, o autor estabelece conexões poderosas entre o que se lê e se sente por meio do processo de leitura —neste caso, como se o texto literário fosse elaborado a partir de sua própria construção.

Ao narrar a história em primeira pessoa, Paulo Vicente Cruz não conta só a trajetória de um jovem negro, sem amigos aparentes e que não ousa dizer seu nome, vivendo o luto pela morte do pai, a descoberta do amor e a jornada de ter que enfrentar a violência policial embutida no racismo que devora gente pobre e suburbana.

Nessa escrita, o que nos chega é o percurso de uma sociedade posta à margem; a própria noção de excludência. Em determinado ponto, o personagem diz: “Em todos os lugares por onde andei, me apontaram o dedo, mostrando quem chegava comigo; quem falava por minha boca; quem sentia por minha pele; quem eram todos os outros que eram rejeitados quando me viraram as costas”.

Paulo Vicente Cruz é um mestre em narrativas que extraem o máximo de potência do minimalismo. Se em sua coletânea de contos “Enquanto os Gigantes Dançam” (2021) ele já demonstrava fôlego para flagrar ritos de sobrevivência urbana, neste romance o autor consolida sua voz e constitui o arcabouço de uma literatura que pode ser chamada de emergente.

Pautando a vida sobre desafios e incertezas, o jovem protagonista —enigmático quanto à própria história que nos conta—, encontra na avó, Joana, o seu norte de existência, espelhando o drama de tantos outros corpos negros estranhos em sua própria terra natal.

A partir dessa paráfrase, “A Vida Não é um Animal Doméstico” assume a rara missão de se conceber como saga urbana, costurada por saberes de uma ancestralidade sutil. É uma escrita poderosa enraizada na palavra escrita e no altissonante grito silencioso. Na lágrima como registro da dor e na memória que teima em ser sustentada, Paulo Vicente Cruz faz com que, tanto na ficção quanto na história vivida, saibamos que é natural ao ser humano se permitir gritar e chorar.


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