Cinquenta quilómetros de betão, fábricas e ruínas. A Rússia iniciou o assalto ao cinturão defensivo que pode ditar o destino da guerra na Ucrânia

Os olhos estão todos postos nos resultados espetaculares das duas campanhas de longo alcance. Durante mais de duas semanas, multiplicaram-se imagens na Rússia de armazéns com centenas de milhares de metros quadrados em chamas e refinarias a serem atingidas por um vasto número de drones. Mas, na Ucrânia, a resposta também tem sido bem visível, com cidades e portos de todo o país a serem fustigados por um vasto número de mísseis balísticos. Ainda assim, é na frente de combate, no coração do Donbass, onde acaba a “zona cinzenta”, que a verdadeira guerra pelo controlo de território ucraniano está a acontecer. 

“Estão a decorrer ofensivas em toda a linha da frente. Zaporizhzhia está sob pressão, Sumy está sob pressão e Kharkiv está sob pressão. Temos uma escalada em todo o patamar”, afirma o major-general Agostinho Costa.

A grande ofensiva russa contra a famosa linha defensiva ucraniana no Donbass, considerada o último grande reduto da defesa da região, já começou e obteve alguns sucessos. No final de junho, várias infiltrações russas com pequenas unidades conseguiram entrar no interior do bastião mais a sul da linha defensiva, a cidade de Kostiantynivka. É aqui que as forças russas estão a concentrar os seus principais esforços.

Ligado por uma longa estrada, o “cinturão de fortalezas” liga quatro cidades que servem de centro de operações para as forças ucranianas no Donbass desde 2015. Composto por Sloviansk a norte, Kramatorsk, Druzhkivka e Kostiantynivka a sul, este cinturão liga quatro cidades que tinham populações consideráveis antes da invasão russa, em 2022, uma vez que eram importantes centros industriais. 

Estas quatro cidades criam uma linha defensiva em forma de “C” com 50 quilómetros de comprimento, aproximadamente a mesma distância de Lisboa a Setúbal ou do Porto a Braga. Esta densa concentração de centros urbanos, muitas vezes com instalações industriais extensas nas imediações, corta o que resta da região do Donbass ao meio e “obriga” as forças russas a atacar estas cidades, caso queiram atingir o objetivo declarado pelo Kremlin de ocupar toda a região. A geografia em seu redor não ajuda os atacantes, com uma complexa rede de rios, bosques e terrenos montanhosos que favorece os defensores.

Ao longo dos últimos quatro anos, a Rússia conduziu uma lenta guerra de atrito que lhe permitiu aos poucos aproximar-se desta linha defensiva. E o custo dessa campanha está-se a fazer sentir, com as forças russas a sofrerem consistentemente mais de mil baixas por dia. Esse esforço intensifica-se durante o verão, quando as forças russas tentam aproveitar as boas condições climatéricas para avançar o mais possível. Isso fez com que o número de baixas disparasse para 48.860 no mês de julho, de acordo com o think tank Instituto para o Estudo da Guerra (ISW na sigla em inglês).

Mas, apesar das perdas, a Rússia continua a exercer uma pressão significativa. Relatos da linha da frente dão conta de constantes infiltrações da infantaria russa, nalguns casos vestidos à civil. O resultado é um combate urbano casa a casa, com cada ruína e cada edifício a servir de fortaleza a pequenos grupos de soldados. Sempre sob o olhar atento de drones e com um ruído constante dos drones kamikaze, a qualquer momento prontos para encontrar a próxima vítima.

Neste vídeo, é possível ver um soldado russo vestido de civil a atirar o que parece ser um saco do lixo para dentro de um edifício, mas que na verdade é um saco com explosivos.

Ao mesmo tempo, é nesta zona que a Rússia concentra a sua maior presença aérea. Imagens partilhadas nas redes sociais mostram uma cidade reduzida a escombros, constantemente atingida pelas poderosas bombas KAB. Estes explosivos são bombas antigas reconvertidas com um kit de GPS que permite tornar simples explosivos em mísseis de precisão, com elevada capacidade destrutiva. Alguns bloggers miltiares afirma que as “preparações” para as operações terrestres já começaram, com a força aérea russa a bombardear todas as possíveis posições defensivas que conseguem encontrar.

Apesar de ainda manter uma vantagem sobre o adversário na guerra de drones, a Ucrânia continua a sofrer de um problema agudo de falta de soldados e uma situação logística cada vez mais difícil, com os drones russos a conseguir atingir as ligações à cidade. Por esse motivo, uma das primeiras reuniões do novo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas ucranianas, Mykhailo Drapatyi, com Zelensky focou-se precisamente na defesa de Kostiantynivka e Sloviansk bem como na resolução dos problemas de pessoal.

Uma das primeiras medidas do novo líder das forças armadas ucranianas foi anular uma decisão polémica do seu antecessor. Apesar da escassez de recursos humanos, a liderança anterior insistia na criação de novas unidades e dava prioridade à reposição de unidades de assalto. Mykhailo Drapatyi suspendeu esta medida. Críticos apontavam que esses meios deveriam ter sido usados para reforçar o contingente. Isso permitiria repor a força de brigadas mais desgastadas que defendem a linha da frente.

A situação no interior da cidade é extremamente complexa para as forças ucranianas. Todas as unidades têm de deslocar-se a pé para as suas posições e até os drones terrestres têm dificuldade em aceder à cidade, uma vez que as duas estradas que dão acesso à cidade estão debaixo de fogo russo. A pressão é constante, com as forças russas a atacar de ambos os lados.

Existem também relatos de que as forças russas estão a utilizar cada vez mais drones FPV com terminais de bloqueio de pixels. Estes equipamentos permitem aos operadores atingir alvos com precisão, mesmo que o sinal de vídeo seja alvo de interferência.

Ao mesmo tempo, as forças russas continuam a avançar em direção a Sloviansk, mais a norte, no entanto, o terreno em redor da cidade faz com que a probabilidade de penetração na cidade seja reduzida. De acordo com o analista francês Clément Molin, é provável que uma batalha urbana comece na localidade de Mykolaivka, a este da cidade, alertando que o exército russo deverá conseguir ter posições de artilharia e hubs de drones capazes de atingir posições nos dois principais centros dessa linha de fortificações: Kramatorsk e Sloviansk.

Mas, mais a sul, a Rússia está a levar a cabo uma ofensiva para conseguir flanquear a fortaleza ucraniana. As forças russas estão a focar esforços na conquista das localidades em torno de Dobropillia, na região ocidental de Donetsk, vindos de Pokrovsk. Um sucesso russo nesta região poderia ter consequências trágicas para a defesa da principal linha defensiva ucraniana, uma vez que daria uma rota às forças russas para atacar as posições ucranianas de múltiplas direções, cortando-lhes a retaguarda.  

“[Dobropillia] está protegida por várias linhas defensivas e por pequenas localidades que conduzem a Barvinkove, o centro logístico que atualmente serve de apoio a toda a região do Donbass. (…) A batalha por Dobropillia também poderá começar em breve.”, explica Molin, que admite que “a queda de Kostiantynivka” poderá estar “concluída no outono”, o que poderá dar lugar à batalha de Oleksievo-Druzhkivka.

Só que a guerra mudou e hoje as semelhanças com a forma de combater no início da invasão, em fevereiro de 2022, são cada vez mais escassas. Nos terrenos à volta destas regiões surgiram vastos complexos defensivos, com fossos antitanque, arame farpado e postes de bloqueio. Estas áreas têm antenas espalhadas para detetar drones e equipamentos tecnológicos para os neutralizar. As autoestradas estão cobertas por túneis com redes anti-drone.

“Se um caracol tivesse saído de Donetsk no início da guerra, neste momento, já teria chegado a Kiev. E no entanto, não há nenhuma expectativa de que o exército chegue lá”, afirmou Francisco Pereira Coutinho, especialista em Relações Internacionais. 

A conquista de Kostiantynivka poderia ser um sério problema para as forças ucranianas, colocando a batalha pelo núcleo central destas cidades cada vez mais próxima. Este mês, o Kremlin definiu que o objetivo de recrutamento para este ano é de 409 mil soldados. No entanto, multiplicam-se os relatos de que o Kremlin está a adotar medidas cada vez mais agressivas para atingir as quotas. 

Isto levou ao crescimento de casos de homens “apanhados” no meio da rua e de jovens estudantes a receber incentivos financeiros para entrar em unidades de drones, de acordo com o Financial Times. A situação é particularmente grave em algumas regiões mais remotas da Rússia, como Penza. “Ano após ano e de mês para mês, torna-se mais difícil ao exército russo encontrar pessoas”, afirma ao jornal britânico Grigory Sverdlin, diretor da associação de caridade Get Lost, que ajuda soldados russos a desertar. 

O presidente ucraniano afirmou, na passada terça-feira, ter recebido documentos internos russos que provam que a Rússia vai avançar com uma nova ronda de mobilização logo após as eleições legislativas de setembro. Volodymyr Zelensky disse que a Ucrânia se está a preparar para “dificultar o mais possível” a implementação dos planos russos tendo aprovado “ações dos serviços secretos e das forças especiais”. A acontecer, seria a primeira grande mobilização militar desde setembro de 2022, quando a Rússia se viu obrigada a recrutar 300 mil militares, devido à contraofensiva ucraniana. 

“Temos de perceber o que é que Vladimir Putin vai querer fazer a seguir. Será que vai avançar com uma mobilização? É que os diminutos ganhos russos que aconteceram este ano foram feitos com um custo humano enorme. A Rússia está a perder mais homens do que consegue recrutar. Agora precisamos de saber se Putin vai fazer um ‘all-in’”, afirmou Francisco Pereira Coutinho.

Mas as alternativas russas começam a escassear. Nos primeiros anos do conflito, a política de recrutamento assente em elevados salários e generosos bónus de assinatura de contrato foi suficiente para atingir a quota de recrutamento de 30 mil soldados por mês. Só que esse modelo começou a falhar no final de 2025, com o número de contratos a cair 10% em comparação com o ano anterior. Nos primeiros meses de 2026, o número de novos contratos caiu 20%. Apesar de ter planos para recrutar 100 mil soldados, apenas 71.200 recrutas assinaram contrato.

Esta é uma realidade que o Kremlin não pode tolerar durante muito tempo se pretender manter o objetivo de conquistar o cinturão de fortalezas do Donbass. De acordo com o CSIS, o exército russo sofreu 1.4 milhões de baixas, dos quais 450 mil são mortos. Segundo as estimativas ucranianas, o número de baixas russas de 2026 supera o número de recrutamentos, com 222.500 baixas e apenas 221 mil soldados recrutados. 

“Se a Rússia recorrer a uma mobilização militar, isso é sinal de que o regime está debaixo de uma tremenda tensão e que está politicamente encurralado”, afirma Max Bergmann, um analista do Center for Strategic and Internacional Studies (CSIS), em declarações ao Kyiv Independent, acrescentando que esta decisão é “um grande risco para Putin” e pode colocar em causa todo o regime.

Para o Centro para o Combate de Desinformação, uma organização voluntária ucraniana, o número de mobilizados russos pode atingir 500 mil pessoas. O grupo sugere que o regime já colocou em andamento preparativos para a medida, com um aumento significativo de empregos relacionados com registos militares e posições administrativas de recrutamento. 

“Dada a intensidade dos combates e a resistência ucraniana, a guerra pelo Donbass poderá prolongar-se até 2027 e talvez até mais além. Esta batalha continua a ser fundamental para o conflito, embora também tenhamos de estar atentos a outras frentes — em particular à frente sul e às zonas fronteiriças”, conclui Clément Molin.