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O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e o Presidente do EUA, Donald Trump, em Singapura, 2018.
O Presidente dos EUA anunciou redução dos exercícios militares com a Coreia do Sul, apesar da crescente beligerância do regime de Kim Jong-un.
A decisão do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de limitar a participação norte-americana nos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul gerou preocupação entre a população e os especialistas, que receiam um agravamento da situação de segurança no Nordeste Asiático.
Os exercícios, denominados Ulchi Freedom Shield (Escudo da Liberdade Ulchi), começaram esta segunda-feira e vão prolongar-se durante 11 dias. No domingo, Trump tinha anunciado nas redes sociais que ordenara ao Pentágono uma redução “substancial” do envolvimento dos EUA nos exercícios, por considerá-los “dispendiosos”.
Norte tem sido “respeitador”
Segundo Trump, a participação norte-americana enviaria à Coreia do Norte um “sinal totalmente inadequado e hostil”. O Presidente norte-americano argumenta que o regime de Kim Jong-un tem sido “não ameaçador e respeitador” em relação ao seu Governo.
Este raciocínio parece ignorar a recente série de testes de mísseis realizados pela Coreia do Norte, bem como a ameaça de aumentar o seu nível de dissuasão nuclear em resposta às manobras, que a imprensa estatal classificou como um “ensaio para uma guerra de invasão”.
Trump também sugeriu que a sua decisão foi influenciada, em parte, pela recusa do Governo sul-coreano em ajudar no processo de “desnuclearização” do Irão.
Na segunda-feira, o líder norte-americano voltou a dizer, aos jornalistas, na Casa Branca, que decidiu limitar o alcance e a dimensão da participação norte-americana nos exercícios. Segundo o Presidente dos EUA, o líder norte-coreano respondeu positivamente à sua proposta de retomar o diálogo.
As consequências
A redução dos exercícios anuais ocorre numa altura em que Kim Jong-un se sente fortalecido por uma aliança cada vez mais estreita com a Rússia. Ao mesmo tempo, Pyongyang tem vindo a desmantelar importantes pilares das relações intercoreanas. Nos últimos anos, o regime abandonou oficialmente o objetivo histórico de reunificar a Península Coreana e alterou a Constituição para designar a Coreia do Sul como o seu principal inimigo.
Para Leif-Eric Easley, professor de Estudos Internacionais da Universidade Feminina Ewha, em Seul, reduzir os exercícios militares com o argumento de cortar despesas não faz sentido. “A poupança obtida é marginal, enquanto os benefícios diplomáticos para as relações com a Coreia do Norte são duvidosos”, afirma.
Ainda segundo o académico, Kim não demonstrou “qualquer interesse” nas propostas de Washington e Seul para discutir uma eventual eliminação do arsenal nuclear norte-coreano.
“As recentes publicações de Trump sobre Kim Jong-un sugerem disponibilidade para retomar o diálogo, mas a Coreia do Norte está ocupada a lucrar com a guerra da Rússia contra a Ucrânia, enquanto moderniza as suas próprias Forças Armadas”, observa.
Easley considera que a redução dos exercícios conjuntos de defesa pode prejudicar a coordenação da aliança entre os EUA e a Coreia do Sul e revelar-se contraproducente, uma vez que atrasaria o reforço das capacidades defensivas sul-coreanas e poderia ainda incentivar conflitos na Ásia.
Alianças dos EUA na Ásia postas à prova
A preocupação na Coreia do Sul foi evidente nas capas dos jornais. O Chosun Ilbo, por exemplo, destacou a importância dos exercícios conjuntos para proteger o país de um vizinho agressivo e imprevisível, alertando que Trump estaria a colocar em risco os fundamentos da aliança bilateral.
David Silbey, professor de História Militar e Política de Defesa da Universidade Cornell, observou que a decisão surge numa altura em que as Forças Armadas norte-americanas estão sobrecarregadas. A Marinha dos EUA já estará a redirecionar recursos do Pacífico para o Médio Oriente devido à guerra contra o Irão.
“A redução do compromisso com os exercícios na Coreia do Sul provavelmente reflete uma redução que já seria inevitável”, afirma.
Silbey acrescenta que a oferta de negociações a Kim Jong-un reforça a perceção de um abandono gradual dos aliados norte-americanos na região, algo que está a ser acompanhado atentamente por Taiwan, Japão e Filipinas.
A China também acompanha os acontecimentos de perto, embora na posição de adversária estratégica dos Estados Unidos.
Segundo a Associated Press, Trump tomou a decisão sem consultar previamente o Governo sul-coreano, e ainda não é claro que partes específicas dos exercícios serão reduzidas.
Ainda assim, o gabinete do Presidente sul-coreano Lee Jae Myung declarou que continuará a cooperar estreitamente com Washington para manter uma sólida postura conjunta de defesa. Durante uma reunião ministerial na terça-feira, Lee elogiou a aliança com os Estados Unidos e defendeu o reforço das capacidades militares sul-coreanas.
“À medida que reforçarmos as nossas próprias capacidades, também crescerão o nosso valor e a nossa importância enquanto aliados”, declarou.
Vitória para Kim Jong-un?
Nos Estados Unidos, a decisão de Trump foi criticada por aliados e opositores, que consideram que a aliança com Seul sai enfraquecida e que os adversários dos EUA são beneficiados.
“Kim Jong-un conquistou uma vitória propagandística, enquanto a Coreia do Sul, um dos nossos aliados mais fortes, foi castigada sem qualquer motivo para além do ego de Trump”, criticou o senador democrata Jack Reed, o membro democrata mais graduado do Comité das Forças Armadas do Senado.
Já o senador republicano Thom Tillis observou que a redução dos exercícios poderá inclusivamente beneficiar a Rússia, ao permitir que a Coreia do Norte desloque mais tropas para apoiar a guerra na Ucrânia.
Kim Sang-woo, antigo político de esquerda e atual membro da Fundação para a Paz Kim Dae-jung, diz que a decisão de Trump de favorecer Pyongyang em detrimento de Seul deixou muitos sul-coreanos preocupados.
“As pessoas estão alarmadas”, afirma. “Trump já tinha ameaçado retirar tropas norte-americanas durante o seu primeiro mandato, caso a Coreia do Sul não aumentasse a sua contribuição financeira para as manter no país. Também impôs tarifas enormes às nossas exportações para os EUA e agora aproxima-se de Pyongyang de uma forma que mostra que quer estabelecer uma nova relação e assinar um tratado de paz que encerraria formalmente a Guerra da Coreia.”
Poucas hipóteses de mudança em Pyongyang
Apesar das preocupações, Kim Sang-woo acredita que Trump continua a contar com o apoio do Presidente sul-coreano Lee Jae Myung.
“Não creio que o Governo de Lee esteja preocupado ou desiludido com este plano. A sua política sempre foi tentar restabelecer relações amistosas com o Norte, mesmo que o Norte não tenha demonstrado qualquer intenção de corresponder.”
Na segunda-feira, o gabinete de Lee divulgou uma nota em que se mostrava otimista em relação a um possível diálogo significativo entre Trump e Kim Jong-un, na expectativa de promover a paz regional.
No entanto, Kim Sang-woo afirma que não há sinais de que Pyongyang esteja disposta a abandonar a sua postura hostil em relação aos EUA ou à Coreia do Sul.
Recorda que, durante as negociações entre Trump e Kim no Vietname, em 2019, a Coreia do Norte se encontrava numa posição muito mais frágil.
Hoje, porém, a situação é diferente. “Kim forjou uma aliança sólida com a Rússia, que lhe está a proporcionar tecnologia militar, abastecimento energético e apoio económico. Entretanto, a China também estende a mão a Pyongyang, porque não quer perder influência.”
“Neste momento, Kim está numa posição muito confortável. Poder-se-ia até argumentar que já não precisa dos Estados Unidos”, acrescenta.
Ainda assim, afirma que, para a maioria dos sul-coreanos, a questão é muito mais fundamental: “Simplesmente não confiamos na Coreia do Norte.”