Erin Patterson cozinhou uma refeição que resultou na morte de três pessoas e foi condenada por isso. Agora vai começar tudo outra vez
Um dos casos de homicídio mais famosos da Austrália voltou a tribunal, onde um possível novo julgamento, ou uma pena de prisão ainda mais longa, aguarda a cozinheira amadora que usou cogumelos tóxicos para matar três convidados para o almoço.
Erin Patterson foi condenada no ano passado por ter adicionado deliberadamente cogumelos da espécie Amanita phalloides a um prato de bife Wellington para assassinar os avós dos seus filhos e a mulher do pastor local. Foi ainda considerada culpada de tentativa de homicídio por quase ter matado o pastor com a mesma refeição.
O seu julgamento, que durou 10 semanas, decorreu numa pequena cidade rural de Victoria, que foi inundada por equipas de comunicação social e curiosos que faziam fila durante horas todos os dias para conseguir um lugar na galeria pública.
O intenso interesse no caso é uma das razões pelas quais os seus advogados estão a pressionar para um novo julgamento – a cidade estava tão cheia que, a dada altura, os jurados partilharam um hotel com a equipa de acusação e um informador.
Esta semana, durante a mesma audiência de recurso, os procuradores planeiam apresentar um argumento separado de que a sua pena de 33 anos de prisão, sem direito a liberdade condicional, não é suficiente.
Patterson não esteve presente no tribunal para acompanhar o processo, mas ouviu os argumentos através de uma videoconferência a partir de uma prisão de segurança máxima.
O que aconteceu
Patterson convidou os pais do ex-marido e dois amigos idosos destes para almoçar em julho de 2024. Poucas horas após a refeição, começaram a sentir dores de estômago e, em poucos dias, três dos quatro estavam mortos.
O caso gerou manchetes internacionais, podcasts, livros e documentários.
Patterson foi acusada de procurar deliberadamente os cogumelos mais tóxicos do mundo, os chapéu da morte, depois de possivelmente ter visto a sua localização publicada no iNaturalist, um site civil de ciência. Depois comprou um desidratador para secar os cogumelos antes de os utilizar na refeição fatal.
Patterson foi acusada de fingir comer a mesma porção e de simular estar doente numa elaborada farsa para sugerir que também tinha sido envenenada. A acusação alegou que a mulher preparou uma porção separada da refeição e serviu apenas as porções envenenadas aos seus convidados.
O motivo não foi um ponto central do julgamento, mas as provas apresentadas pela acusação sugeriram que a relação com os sogros se tinha deteriorado.
Patterson manteve a sua inocência, alegando que não sabia que os cogumelos que adicionou à refeição eram tóxicos e que não tinha motivos para matar os seus convidados.
Porque é que os advogados querem um novo julgamento?
Os advogados de Patterson têm sete pontos de recurso – a começar pela forma como os membros do júri foram mantidos em isolamento, o que, segundo eles, foi “catastrófico” para o caso.
Referem-se à utilização de um pequeno hotel na cidade de Morwell, onde decorreu o julgamento. Embora não haja provas de que os hóspedes tenham interagido, os advogados afirmam que a possibilidade de interações “não pode ser descartada”.
Um dos juízes salientou que os membros do júri estavam separados dos outros hóspedes, comiam e dormiam num piso diferente do hotel – mas os advogados de Patterson afirmam que o facto de estarem no mesmo edifício “comprometeu fatalmente a integridade dos vereditos” – apontando para a necessidade não só de que a justiça seja feita, mas também de que ela “seja vista a ser feita”.
Os outros seis pontos incluem a forma como Patterson foi interrogada durante vários dias, o que os seus advogados consideraram “injusto e opressivo”. Os seus advogados alegam que algumas provas apresentadas eram irrelevantes e prejudicaram o caso.
A defesa entende que o testemunho sobre o site iNaturalist era irrelevante, porque não havia provas de que ela tivesse visto as publicações que expunham a localização dos chapéus da morte. E afirma ainda que o uso das suas publicações no Facebook sobre os sogros foi injusto, porque foram usadas para sugerir que ela tinha um motivo.
A assassina condenada Erin Patterson, à direita, chega ao Supremo Tribunal de Victoria para a leitura da sentença em Melbourne, Austrália, na segunda-feira, 8 de setembro de 2025 (Jason South/The Age, Pool Photo via AP)
Por que razão os procuradores estão a recorrer?
Patterson foi condenada a três penas de prisão perpétua por três homicídios e a 25 anos de prisão pela tentativa de homicídio da única sobrevivente.
O juiz Christopher Beale ordenou que cumprisse um período mínimo de 33 anos de prisão sem direito a liberdade condicional, alegando ter tido em conta a notoriedade de Patterson e a probabilidade de esta passar muitos anos em regime de solitária.
No entanto, os procuradores argumentam que a justiça apenas presumiu que Patterson seria mantida em regime de solitária e que, por isso, deveria ser presa sem possibilidade de liberdade condicional.
Se o tribunal de recurso concordar, Patterson será apenas a segunda mulher a receber uma pena de prisão perpétua na Austrália, depois de Katherine Knight, que assassinou o seu companheiro e cozinhou partes do seu corpo.
O tribunal de recurso irá provavelmente divulgar a sua decisão numa data ainda a anunciar.