Tinha uma pedra no meio do caminho. Mas a artista Denise Milan não queria desviar dessa pedra e seguir o caminho. A pedra é o caminho. Em sua nova mostra, “Elementares”, no Museu de Arte Sacra de São Paulo, as pedras são também a origem.

As paredes de uma das três salas da exposição são tomadas de impressões nas quais pequenas rochas se tornam bidimensionais e são expandidas para uma tela de 1,5 metro de altura.

O resultado são imagens que remetem à concepção. Em várias cores e minérios, cada uma das imagens das pedras consiste num núcleo, envolto por uma série de camadas de outros elementos. Em “Elementar IV”, o núcleo, rosa-coral e parecido com um cavalo-marinho, é envolto por camadas de tons acobreados e cinza-grafite, até chegar à camada mais superficial, de um lilás espinhoso. Outras dessas imagens parecem mais humanas, remetendo a figuras de fetos ou de santos.

Milan prefere o scanner à fotografia para registrar esses minérios, porque, assim, a intervenção humana se torna mínima. Para ela, os minerais devem ser tanto matéria-prima quanto narradores de uma história própria.

Pode parecer que a mostra, ancorada numa compreensão profunda das propriedades da matéria, destoe do resto do acervo do museu, um antigo mosteiro colonial construído no século 18. Mas a proposta de Milan é que há algo de sacro na natureza em si.

“A sacralidade da natureza pertence a todo mundo. Não é a minha religião, a tua religião, a religião dele. Os elementais trazem um chão que unifica, que é comum a todos os seres humanos“, afirma a artista.

Esse princípio fica evidente na obra “Cosmos”. Reservada do espectador numa sala fechada, a pedra de cerca de 30 centímetros de comprimento é visível por meio de uma lente, que amplifica seus detalhes, mesmo à distância.

O geodo de ametista tem duas camadas, uma externa de basalto e a interna, de ametista. A camada cinzenta superficial é fina, como se fosse uma casaca de ovo. O interior da pedra é povoado pelas formações pontiagudas de ametista, em tons de roxo mais claros, perto da casca, e mais escuros perto do centro.

O geodo é criado a partir de bolhas de ar que se formam no magma. Milan as define como “um lugar de conflitos”. O quartzo e o basalto tentam entrar nessa bolha. Quem entrar, sobrevive. “É o ‘ser ou não ser’, de Shakespeare”, diz Milan.


No caso de “Cosmos”, quem entrou na bolha de ar foi o quartzo. Mas, dentro dessa caverninha violeta, habitam pingos de basalto.

A interferência de Milan na pedra foi mínima. O trabalho artístico é o de encontrar a matéria e ser capaz de entender qual é a narrativa ali. Em “Cosmos”, Milan aponta para os registros das tentativas do quartzo de adentrar a bolha de ar.

Na base da pedra, dois dedinhos de casca cinza se sobressaem, como se rumassem em direção ao coração do minério. São, segundo a artista, movimentos ousados, que conferem personalidade a essa pedra.

A carreira de Milan é calcada nos pedregulhos desde os anos 1980. Em 1986, Milan expôs “Luzes” no Museu de Arte Moderna, o MAM, em São Paulo, uma série de obras com objetos como televisões, ventiladores e lâmpadas e luzes incandescentes.

Depois dessa mostra, durante uma visita a seu ateliê, alguém propôs que ela trabalhasse com cristais. Eles eram, afinal, grandes condutores de luz. “Eu mesma não conseguia mexer nos cristais porque eles eram tão perfeitos que eu não tinha por onde entrar”, diz.

Assim como o pingo de basalto achou uma forma de habitar a caverna de ametista, Milan encontrou seu caminho das pedras. Sem desafiar a perfeição que tanto a atraiu para os cristais, ela entendeu que sua interferência seria, antes de mais nada, o olhar.

O marco inaugural de seu trabalho com cristais é 1988, quando expôs “Garden of Lights” no MoMA PS1, em Nova York, a convite de Laurie Anderson. Posicionados numa sala escura, Milan orquestrou seus cristais sobre estruturas luminosas de ferro.

Daí em diante, as pedras se tornaram a matéria primordial da artista. Numa de suas obras mais célebres, “Gruta de Maquiné”, exibida na 21ª Bienal de São Paulo, ela povoou uma fissura no chão com cristais e luzes.

Noutra, em 2006, exibiu seus “Entes Pétreos”, estruturas verticalizadas de ametista que remetem a pessoas.

O que rege o trabalho de Milan, e aparece escancarado em “Elementares”, é o que ela chama de drama da matéria. Mas o drama, ela diz, “não é a polaridade. O drama não se resolve pela oposição. Ele se resolve pela coexistência”. Como um pingo de basalto que habita um mundo de ametista.