OISST NOAA / WWA

Anomalias (i.e., desvios da normalidade) das temperaturas da superfície do mar em julho de 2026 na Europa em relação à média climatológica de julho de 1990-2020
As alterações climáticas elevaram até 2 °C a temperatura dos mares europeus e multiplicaram a área atingida por ondas de calor marinhas. O impacto já se sente nos ecossistemas, nas pescas e no risco de tempestades mais severas.
Não foram apenas as temperaturas do ar que atingiram valores recorde este verão em muitos países europeus. Também os mares em redor do continente estão, em muitas zonas, especialmente quentes.
Este calor, nalguns locais mais de 6 °C acima das temperaturas habituais, deve-se em grande parte às alterações climáticas, escreve uma equipa internacional de cientistas do World Weather Attribution (WWA) num estudo, divulgado esta quarta-feira.
Segundo o documento, as temperaturas estão acima da média de 1990 a 2020 em quase todas as costas europeias, por vezes de forma acentuada.
As regiões mais afetadas são o Mediterrâneo Ocidental e, no Atlântico, o Golfo da Biscaia e a Península Ibérica.
Para determinar a influência do aquecimento global, a equipa comparou a evolução das temperaturas da superfície do mar em julho com modelos climáticos.
As alterações climáticas, causadas sobretudo pela queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão, terão provocado um aquecimento de cerca de 2 °C no Mediterrâneo, de 1,4 °C na região do Golfo da Biscaia e da costa ocidental da Península Ibérica e de cerca de 1,3 °C na zona em redor da Irlanda e na costa oeste britânica.
Este ano, 90% das zonas costeiras do Golfo da Biscaia e da Península Ibérica terão registado ondas de calor, e no Mediterrâneo Ocidental a proporção terá sido de 80%, conclui o relatório do WWA.
Sem o aquecimento global provocado pelo ser humano, atualmente cerca de 1,4 °C acima do nível pré-industrial, os cálculos apontam para cerca de 40% em ambas as regiões.
Também no Mediterrâneo Oriental e nas zonas costeiras em redor da Irlanda haveria muito menos áreas afetadas pelo calor.
O calor dos oceanos pode prejudicar os ecossistemas e as cadeias alimentares marinhas e, em alguns casos, reduzir também as populações de mamíferos marinhos e aves marinhas.
Desde 2025, por exemplo, pescadores do sudoeste de Inglaterra têm relatado um aumento acentuado de polvos-comuns (Octopus vulgaris), uma espécie que normalmente vive nas águas mais quentes ao largo do Norte de África.
“As consequências para a vida marinha abaixo da superfície são mais graves”
As temperaturas elevadas da água podem ainda favorecer a formação de tempestades fortes, refere o relatório. A equipa dá como exemplo as graves inundações que atingiram a região espanhola de Valência no outono de 2024.
“Água mais quente para nadar pode parecer tentadora para quem vai à praia em países mais frios como o meu”, diz a coautora Claire Bergin, bióloga da Maynooth University, na Irlanda. “Mas as consequências para a vida marinha abaixo da superfície são mais graves”.
As temperaturas dos oceanos também estão em níveis recorde globalmente.
“Com cada tonelada adicional de carbono que emitimos, estamos a empurrar as temperaturas e os ecossistemas das costas europeias para território desconhecido”, diz o coautor Thomas Frölicher, da Universidade de Berna.
A climatologista Friederike Otto, do Imperial College London, acrescenta que não é possível sair desta situação apenas através da adaptação.
“Os ecossistemas têm valor por si próprios, mas muitas pessoas e setores da economia dependem também de que o mar não aqueça tão depressa como está a acontecer atualmente”, diz Otto.
Segundo dados preliminares da agência norte-americana NOAA, a temperatura média global do mar no domingo passado foi de 21,16 °C.
Para essa data, o valor está 0,75 °C acima da média de 1991 a 2020 e 0,92 °C acima da média de 1982 a 2010.
O valor refere-se à temperatura entre os paralelos 60 Norte e 60 Sul, deixando de fora as regiões polares.