Adrian Daly

Romito 1 e Romito 2, provavelmente mãe e filha, foram sepultadas juntas há cerca de 12.000 anos no sul de Itália
Um abraço com 12.000 anos, durante décadas interpretado como sendo o de um homem e uma mulher, conta afinal uma história diferente: uma análise genética revelou que se tratava afinal de duas mulheres, uma das quais com uma doença hereditária rara que continua a afetar famílias nos nossos dias.
Em 1963, uma equipa de arqueólogos que trabalhava na Gruta de Romito, na Calábria, no sul de Itália, descobriu uma sepultura paleolítica com dois indivíduos enterrados juntos há cerca de 12.000 anos, tão próximos que parecem estar abraçados.
Durante décadas, os cientistas consideraram que o mais pequeno dos esqueletos seria o de um jovem com uma forma de nanismo, devido à forma e às proporções dos ossos.
Essa interpretação foi agora contrariada.
Uma equipa liderada por Daniel Fernandes, da Universidade de Coimbra, em colaboração com Ron Pinhasi, da Universidade de Viena, Adrian Daly, do Centro Hospitalar Universitário de Liège, e Alfredo Coppa, da Universidade Sapienza de Roma, extraiu e sequenciou ADN antigo dos dois esqueletos.
Os resultados do estudo, publicados em janeiro no New England Journal of Medicine, mostraram que ambos os indivíduos eram do sexo feminino e que tinham uma relação de parentesco próxima, muito provavelmente mãe e filha.
A determinação do sexo a partir apenas da forma dos ossos sempre implicou alguma margem de erro, sobretudo em indivíduos que morreram jovens ou cujos esqueletos estão incompletos.
O esqueleto Romito 2, o mais pequeno, encontrava-se suficientemente perto dessa margem para que a interpretação original de “jovem do sexo masculino” fosse, na altura, razoável.
A análise de ADN não tem a mesma ambiguidade, e deu à equipa duas respostas de uma só vez: o sexo dos dois indivíduos e, através do padrão de marcadores genéticos partilhados, a relação familiar entre ambos.
O ADN identificou também algo que as proporções do esqueleto já sugeriam, mas que por si só não conseguiam confirmar: uma mutação no gene NPR2.
Na mais nova das mulheres, a mutação estava presente nas duas cópias do gene.
Trata-se de uma variante homozigótica que causa displasia acromesomélica de tipo Maroteaux, uma doença hereditária rara que provoca baixa estatura acentuada e membros mais curtos, principalmente nos antebraços e na parte inferior das pernas.
A mulher mais velha, a mãe, tinha uma cópia da mesma mutação. Esta forma heterozigótica está associada a uma forma mais ligeira de baixa estatura.
A displasia acromesomélica de tipo Maroteaux continua a ser um diagnóstico reconhecido pela genética clínica moderna e é causada por mutações que afetam o papel do gene NPR2 na regulação do crescimento ósseo.
As crianças que hoje nascem com esta doença são identificadas através de testes genéticos do mesmo tipo que permitiu encontrá-la num esqueleto com 12.000 anos.
A descoberta de Romito comprova que esta doença já existia há pelo menos 12.000 anos.
Mostra também que um portador do gene tem uma forma ligeira da malformação, enquanto um filho que herda as duas cópias desenvolve uma forma mais grave.
“Com a análise de ADN antigo, podemos agora identificar mutações específicas em indivíduos pré-históricos”, afirmou Pinhasi, em comunicado da Universidade de Viena.
Os padrões de desgaste e a análise da dieta do esqueleto da jovem indicam que viveu até ao final da adolescência. A sua alimentação e condição nutricional eram, de um modo geral, comparáveis às dos outros indivíduos encontrados na mesma gruta, sem sinais de privação crónica.
Segundo Alfredo Coppa, o grupo em que vivia terá provavelmente ajudado a jovem a deslocar-se e a obter alimentos numa vida exigente de caçadores-recoletores, em vez de a deixar sobreviver à margem da comunidade.
“Partimos do princípio de que os seus companheiros cuidavam bem dela; ajudavam-na a encontrar alimentos e apoiavam a sua mobilidade durante deslocações periódicas num ambiente duro e exigente”, afirmou.
Esta conclusão deve ser encarada com prudência e não como um facto estabelecido, mas é compatível com um conjunto pequeno, mas crescente, de indícios que sugerem que uma diferença física visível não implicava necessariamente a exclusão da vida quotidiana do grupo — pelo menos não em todos os casos que os arqueólogos conseguiram estudar de perto.
Entretanto, vale a pena perceber porque é que a interpretação original de “jovem do sexo masculino” se manteve durante tanto tempo, diz o Science Blog.
Determinar o sexo a partir de um esqueleto incompleto ou juvenil é bastante difícil, e a própria perturbação do crescimento teria alterado algumas das proporções em que os investigadores normalmente se baseiam para fazer essa avaliação.
O que aconteceu neste caso foi a aplicação de um método muito mais recente a uma descoberta antiga, que corrige dois factos específicos, o sexo e o parentesco do que até agora era tido como sendo um “casal abraçado”.
E o abraço, seja qual for o significado que teve para quem dispôs os corpos daquela forma, permanece exatamente como foi encontrado.