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“Enquanto estou aqui atendendo a um paciente por vez, o Drauzio [Varella] está lá melhorando a vida de um milhão de pessoas em cada fala dele.” A opinião é de André Zimerman, 33 anos, cardiologista nascido e criado em Porto Alegre, primeiro de três filhos de uma família em que ser médico é algo quase hereditário. O avô, pediatra, psiquiatra e psicanalista. O pai, eletrofisiologista. Um tio neurocirurgião, uma tia psiquiatra. 

Zimerman se formou em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2016, com um ano de intercâmbio na Universidade de Columbia, em Nova York, pelo programa Ciência sem Fronteiras. Fez residência em medicina interna e em cardiologia no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, doutorado na própria UFRGS e, entre 2022 e 2024, cursou o pós-doutorado que mudou a escala do seu trabalho: uma bolsa oferecida pela Fundação Lemann no TIMI Study Group, o grupo de ensaios clínicos do Brigham and Women’s Hospital, ligado à Harvard Medical School, que desenha estudos com milhares de pacientes em dezenas de países ao mesmo tempo. Hoje, ele é professor do programa de pós-graduação em cardiologia da UFRGS, professor da Faculdade de Medicina Moinhos de Vento e chefe da MOVE, a organização de pesquisa acadêmica do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

O que trouxe Zimerman ao Trip FM é uma droga chamada olezarsen. Ela pertence a uma família nova de medicamentos que não age sobre a proteína pronta, e sim sobre o recado que manda produzi-la, o RNA mensageiro. No caso, o recado que fabrica uma proteína ligada aos triglicerídeos. O resultado é uma queda de cerca de 60% nos níveis desse indicador, contra os 20% ou 30% que os remédios disponíveis conseguem entregar. Em maio de 2026, no congresso da Sociedade Europeia de Aterosclerose, em Atenas, Zimerman apresentou em nome do TIMI a análise que olhou especificamente para os pacientes com triglicerídeos acima de 880 mg/dL, a faixa em que o risco de pancreatite deixa de ser teórico. Nesse grupo, a droga reduziu em 85% os episódios de pancreatite aguda. Em 24 de junho de 2026 o FDA, a agência reguladora norte-americana, aprovou o olezarsen para hipertrigliceridemia grave. É o primeiro e por enquanto único remédio do mundo cuja bula atesta, com todas as letras, a capacidade efetiva de reduzir o risco de pancreatite aguda.

Nada disso, como se verá, impede que a entrevista desemboque em temas polêmicos como os “ brindes” da indústria farmacêutica, energéticos com vodka e planilhas do sono. A seguir, os melhores momentos da entrevista do cardiologista gaúcho ao Trip FM. 

Trip FM: Você trabalha num campo que deveria interessar a todo mundo que está vivo. Basta ter um coração. Antes de chegar na ciência, quero começar pela sua origem. Me fale sobre a sua chegada ao planeta.

André Zimerman: Vim ao mundo em 1992, o primeiro de três filhos. Minha família é uma família de médicos. Meu avô é médico, meu pai, alguns tios, então naturalmente me direcionei para esse lado. A família da minha mãe tem uma veia mais criativa, minha mãe é arquiteta, tem alguns músicos na família. Foi uma junção de ciência e arte.

Quando eu completei um ano, meu pai foi fazer um pós-doutorado nos Estados Unidos. Vivi lá até os meus três, com meu pai trabalhando num hospital acadêmico de excelência na Carolina do Norte, e isso acabou moldando a nossa família de certa forma, nessa convivência entre a cultura gaúcha e a americana. Depois voltamos e nunca mais saí daqui. Estudei em Porto Alegre, jogava bola, tocava música, ia ver jogo do Grêmio numa época melhor do que a de hoje em dia.

Aos 17 fiz vestibular e entrei na faculdade de medicina. Dentro da faculdade acabei me direcionando para o lado da pesquisa. Fui um dos escolhidos para o projeto Ciência sem Fronteiras e passei um ano na Universidade de Columbia, em Nova York. Voltei para a Federal com uma visão completamente diferente. Aí veio residência de medicina interna, residência de cardiologia, doutorado, o pós-doutorado fora, sempre com foco em prevenção cardiovascular e pesquisa clínica. 

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Trip FM: Aparentemente vocês encontraram um caminho eficaz para baixar o triglicérides, que é algo bastante difícil. Muita gente chega a fazer dieta de monge e nem assim consegue baixar. O que é ter triglicérides muito alto, que impacto isso traz para o organismo e que caminho vocês encontraram?

André Zimerman: O triglicerídeo é uma gordura que circula no sangue e costuma ser um marcador de doença metabólica. Sedentarismo, sobrepeso, diabetes, esse costuma ser o perfil de quem tende a ter triglicerídeo elevado. Em casos extremos pode ser genético e chegar a níveis altíssimos, mas não é o mais habitual. O triglicerídeo alto se associa a dois problemas. O primeiro é doença cardiovascular, infarto, AVC, mais chance de óbito. O segundo é pancreatite. E aqui não estamos falando do triglicerídeo moderadamente elevado, na faixa de 200 ou 300. Estamos falando de 800, 1.000, 2.000. Esses são os níveis que causam pancreatite.

O desafio é que não tem muita coisa que abaixe bem o triglicerídeo. Para quem é sedentário e está com sobrepeso, mudança de hábito vai baixar alguma coisa, na faixa de 10% a 20%. As medicações aprovadas hoje, como os fibratos e as estatinas, baixam mais ou menos 30%. Não tínhamos nada que reduzisse de forma substancial.

Essa pesquisa foi feita com uma droga chamada olezarsen, que baixa o triglicerídeo na faixa dos 60%. Muito mais do que aquilo que a  gente tem disponível. E é uma história bem bacana. Começou lá atrás, com a descoberta de pessoas que tinham mutações nessa via. Viu-se que essas pessoas tinham triglicerídeos lá embaixo, menos doença cardiovascular e menos pancreatite. Aí veio o pensamento: será que não consigo criar uma medicação que simule essa mutação que aquela pessoa específica teve naturalmente?

Trip FM: E aí entra essa história do RNA mensageiro. O que é isso exatamente?

André Zimerman: Imagina que eu queira que você faça um bolo para mim. Eu escrevo a receita, mando um mensageiro, ele te entrega o papel, você lê e produz o bolo. O nosso corpo faz exatamente a mesma coisa. Se ele quer produzir uma proteína, alguém pega a receita, entrega ao mensageiro, ele entrega e a proteína é produzida. Em outras palavras, o DNA tem a receita, o RNA mensageiro é o mensageiro que a entrega no lugar certo, e no fim sai a proteína.

O que a gente está fazendo agora são tratamentos que atuam exatamente nesse mensageiro. São super específicos, agem ali e impedem que a proteína seja formada. Atuam num nível muito mais precoce, logo que aquilo saiu do núcleo da célula.

A nova era de tratamentos da cardiologia está sendo assim, mais potente, mais direcionada e, por isso mesmo, menos frequente. Aplicação uma vez por mês, a cada dois meses, três, seis, ou até uma vez por ano. Não precisa mais tomar comprimido todo santo dia. No nosso caso, a partir do estudo daquela mutação que baixava o triglicerídeo, se desenvolveu uma droga que ataca o mensageiro daquela proteína.

Trip FM: Vi que essa pesquisa foi liderada por você. Como se deu esse processo?

André Zimerman: Isso fez parte de um programa maior, que não foi liderado por mim. Foi durante o meu pós-doutorado em Harvard, eles estavam desenvolvendo esse programa, e dentro dele havia uma série de estudos. Tinha estudo em pessoas com síndrome genética, com níveis de  triglicerídeos de 2.000 ou 3.000. Tinha programa com triglicerídeo mais baixo, para ver se a medicação reduzia a placa coronária. E tinha um programa voltado à prevenção de pancreatite.

A análise que liderei fez parte deste último, dentro de um universo de milhares de pacientes testados. Ela olhou para as pessoas com triglicérides acima de 880, que é o nível que traz risco de pancreatite, para avaliar o quanto a droga reduziria os níveis e o risco.

Hoje não existe nenhuma medicação aprovada para essa população com o objetivo de reduzir o risco de pancreatite. Temos remédios que reduzem o triglicerídeo na faixa de 20% e 30%, e nenhum que tenha comprovadamente reduzido a pancreatite. Esse programa foi o primeiro a mostrar que baixar triglicerídeos de fato diminui a chance de ter pancreatite. Nos pacientes de risco mais alto, com níveis acima de 880 e um episódio prévio de pancreatite, bastaria tratar quatro pessoas por um ano para evitar um caso. É um benefício muito grande. Com base nessas análises, a medicação foi aprovada pelo FDA americano, e a gente espera que nos próximos meses ou anos ela chegue ao Brasil.

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Trip FM: Dá pra fazer alguma projeção mais objetiva sobre a disponibilidade desse remédio chegar nas farmácias brasileiras?

André Zimerman: Ainda não se sabe. Nos Estados Unidos já está aprovado. Na Europa, o remédio já existe para a síndrome genética, e o pedido de ampliação para os casos de triglicerídeo muito alto está em análise. A partir daí começa a se pensar em vir para o Brasil, e aí entra toda a estratégia da própria empresa. O antecessor dessa droga se chama volanesorsen e já existe no Brasil, aprovado pela Anvisa em 2021, mas só para as pessoas com uma síndrome genética rara chamada quilomicronemia familiar. São pacientes com triglicérides altíssimas e muita pancreatite, e para elas já existe essa opção hoje. Para a população muito mais numerosa, que não tem 3.000 de triglicerídeo e sim 600, 800 ou 900, a expectativa é que em alguns meses ou anos a gente tenha o olezarsen.

Trip FM: A pergunta que todo mundo se faz quando aparece uma coisa com esse potencial são os tais efeitos colaterais. A pesquisa já detectou alguma coisa nesse sentido ou isso ainda demanda muito tempo?

André Zimerman: Interessante a pergunta, porque esse programa inclui milhares de pessoas. Em conversa com as agências regulatórias, entendeu-se que seria preciso um número muito grande de participantes para olhar não só a eficácia como também a segurança. Alguns dos estudos foram conduzidos especificamente com esse objetivo, e há estudos ainda em andamento. Pelo que vimos nos dados publicados, a medicação é bem segura. Todos esses remédios baseados em RNA tendem a ser muito seguros porque ficam pouquíssimo tempo no organismo. 

O que a gente costuma ver é reação local, um pouco de vermelhidão no lugar da injeção, às vezes um sintoma gripal na hora da aplicação. O nosso estudo previa aplicação mensal. Já a inclisirana, aprovada no Brasil para reduzir colesterol, é aplicada a cada seis meses depois das duas primeiras doses. E a droga sai do organismo em um ou dois dias. São medicações que estão mudando a forma de tratamento. Hoje ainda vivemos sob a lógica de tomar comprimidos todos os dias, mas é bem possível que nos próximos anos isso vire outra coisa: a pessoa vai à farmácia no dia do aniversário, toma quatro injeções e volta no ano seguinte.

Trip FM: Vou mudar de campo, mas continuo na sua especialidade. Uma coisa sobre a qual se fala pouco: os energéticos. Um tipo de bebida com marketing poderosíssimo, principalmente a marca líder, quase sempre associada a esportes radicais. Uma pessoa que conheço , um executivo, vida super regrada, que quase morreu depois de tomar dois copos de energético com vodka durante uma festa de casamento. O que se sabe sobre os efeitos menos divulgados, principalmente das combinações de energéticos com álcool?

André Zimerman: Já começo com um aviso de que não é bem a minha área de expertise, então não vou conseguir aprofundar. Mas o que a gente sabe é que qualquer coisa em excesso faz mal, e com energético não é diferente. O energético tem cafeína e taurina em quantidade alta e, em excesso, pode causar arritmia e problemas cardíacos. Me lembro bem de um paciente que atendi ainda na época da faculdade, uma pessoa jovem que tomava uma quantidade cavalar de energético todos os dias por conta dos estudos e da academia, e acabou desenvolvendo um problema grave no coração. Em dose moderada, dificilmente vamos ver esse tipo de coisa. Agora, conforme a dose aumenta, não é inócuo. Sobre a combinação com álcool, se existe efeito sinérgico, não vou saber te dizer. Dependendo das bebidas, uma pode potencializar o efeito maléfico da outra. De todo modo, para qualquer bebida, energética ou alcoólica, a gente sabe que não existe dose segura. Aquela história de que um pouco de vinho faz bem caiu por terra. 

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Trip FM: Você citou a inclisirana, uma droga para baixar colesterol. Isso me leva à estatina, que há muito é assunto de fóruns de internet, de conversas de bar e até de almoços de família. Ao mesmo tempo em que é uma droga com efeito potente, ela gera muita polêmica. Fala-se por exemplo dos interesses  da indústria farmacêutica em relação a ela, que é uma das drogas mais vendidas do mundo. Por outro lado, já ouvi de um cardiologista , um decano colega seu, que, se dependesse dele, colocaríamos estatina “na caixa d’água da cidade”, por conta dos poderes “preventivos” da droga. Qual a sua opinião sobre a estatina ?

André Zimerman: Tem a questão do LDL e tem a questão da estatina. Vamos falar um pouco de cada. Na minha leitura, a controvérsia é muito maior do que deveria ser. Estatina é uma droga que, primariamente, serve para diminuir o LDL no sangue. Em última instância, ela aumenta os receptores de LDL. Aumentando o receptor, ela tira mais LDL da circulação. É isso que a estatina faz. E o que é o LDL? É uma partícula que carrega colesterol e que pode, de forma desavisada, entrar na parede dos nossos vasos. Quase como um adesivo ou um glitter, ele vai se grudando ali e formando uma placa. Quanto mais LDL circulando, maior a chance de isso acontecer. Ao longo de anos e décadas, a placa vai crescendo até causar uma obstrução, um infarto ou um AVC. A premissa é simples. Se eu tenho menos LDL circulando, tenho menos placa e menos chance de infarto e AVC. 

Isso importa por dois motivos. Primeiro, porque infarto e AVC são o que mais mata no Brasil e no mundo. Segundo, porque o LDL fisiológico, aquele que se encontra em outros mamíferos e em populações isoladas de caçadores e coletores, fica em torno de 50 a 70. O nosso fica em torno de 100 ou mais. Nós já vivemos com um nível de colesterol bem acima do que seria natural, e não é por acaso que a maior causa de morte no mundo são placas levando a infarto e AVC.

Com isso, criou-se um mercado enorme para qualquer droga que baixasse o LDL, porque é algo que afeta grande parte das pessoas. A primeira grande classe a surgir foi a das estatinas. Por um lado, foi muito positivo para pessoas de alto risco. A estatina diminui a incidência de infarto e AVC, diminui a chance de morrer. Por outro lado, nos anos 1990 e 2000 houve um boom enorme, com muita indústria farmacêutica em cima, e isso criou uma controvérsia desproporcional.

O que sabemos é que, em pessoas com LDL alto e com risco, a estatina reduz infarto, AVC e óbito. Aliás, não é só a estatina. Outros remédios que baixam o LDL fazem a mesma coisa. A estatina é a mais visada por ser a mais usada e a primeira que apareceu.

Ela tem efeitos colaterais, como qualquer remédio. Pode aumentar um pouquinho o açúcar no sangue, então quem já está no limiar do diabetes pode evoluir para o quadro. Pode dar dor muscular num percentual pequeno de pessoas. Pode aumentar um pouco as enzimas do fígado. No fim das contas, para quem tem risco e tem LDL alto, o benefício é tão maior do que o risco que isso nem chega a ser uma discussão em círculos especializados.

E olha, muito dessa ideia de “indústria da estatina” vem de outra época e se arrastou até agora. Estatina hoje é remédio genérico, custa centavos por dia. A indústria farmacêutica tem outros focos muito mais prioritários.

Hoje temos várias opções para baixar o LDL: estatina, ezetimiba, ácido bempedoico, evolocumabe, inclisirana. No fim das contas, o nosso foco nunca foi prescrever estatina, o nosso foco é baixar o LDL. Para quem tem resistência ou de fato tem efeito colateral, existem tantas outras opções que a gente normalmente consegue controlar o risco independentemente da estatina.

Trip FM: Anos atrás entrevistamos uma jornalista, a Ana Michelle Soares, que tinha um câncer terminal aos 30 e poucos anos e resolveu relatar seus últimos anos de vida. Ela tinha uma gratidão gigantesca por alguns médicos e enfermeiros, e uma queixa séria em relação a outros. Em resumo, ela falava de uma soberba na categoria médica, de insensibilidade, de falta de respeito e de cuidado em todos os sentidos,  gente que imagina caminhar dois metros acima do resto da  humanidade. Como isso bate para você?

André Zimerman: Tem várias camadas aqui. A primeira é que existem coisas que a faculdade não ensina. Ela te ensina muito sobre a parte técnica e pouco sobre o humano. Essa parte humana vem de berço, de criação, de exemplo, de modelo, da percepção da própria pessoa. A segunda camada são as pressões em cima do médico. Uma coisa é o médico de consultório. Outra coisa é quem está numa emergência com alguém chamando com urgência, casos graves  que precisam ser atendidos a cada 10 minutos.

A terceira é que, para quem lida com casos graves, de emergência ou com pacientes terminais, existe uma carga emocional forte, principalmente do lado do paciente. E ser maltratado por um médico é diferente de ser maltratado por um atendente de loja, porque o assunto é muito mais sensível. 

Como você deve ter percebido, eu gosto de gente. Tenho um modelo de prática no consultório em que fico duas horas conversando com meus pacientes. Levo um calhamaço de folhas de papel, escrevo, desenho, explico tudo, nem olho para o computador, porque é assim que gosto de atender. A gente sabe que pequenas atitudes, sentar do lado da pessoa, olhar no olho, conversar, mesmo que por 30 segundos, já fazem uma diferença enorme.

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Trip FM: E a questão da influência, do médico que vira produtor de conteúdo? Dá para o médico exercer a profissão com dignidade virando um superstar? Já conversei sobre isso com o Dráuzio Varella, que mesmo sendo referência para todos nós, às vezes ainda  é criticado por produzir  conteúdo em grandes veículos.

André Zimerman: Vou te dizer que dá, sim. O Drauzio é um ótimo exemplo. Ele coloca informação de altíssima qualidade na rede e no mundo e nem por isso é um médico pior. Enquanto eu estou aqui atendendo um paciente de cada vez, ele está lá melhorando a vida de um milhão de pessoas em cada mensagem, às vezes com um vídeo que a gente pode achar simples e que provavelmente tem um impacto na saúde do Brasil infinitamente maior do que a consulta que faço. Dito isso, é sempre mais fácil criar controvérsia, porque na rede social eu preciso de engajamento. É mais fácil conseguir isso com notícia sensacionalista, é muito mais fácil se eu flertar com fake news. Esse é um desafio grande para quem quer fazer divulgação científica séria. Na ciência, a resposta é com frequência “não sei”, “preciso de mais estudos”. Isso não gera engajamento. O que gera é dizer “estão querendo te matar”, “veja o que estão escondendo de você”.

Trip FM: Outro tema importante que gera discussão. Vou me permitir chamar, entre aspas, de uma espécie de corrupção velada dos profissionais de medicina pela indústria farmacêutica. Em forma de congressos, viagens de luxo, patrocínios de eventos, brindes de alto valor. Não estou demonizando a indústria, porque sem ela provavelmente estaríamos quase  todos mortos ou doentes. Mas me parece importante falar sobre  essa indústria paralela à farmacêutica,  da viagem, do simpósio, do brinde. Estou exagerando?

André Zimerman: Isso tem um grande fundo de verdade. Foi uma conversa forte anos atrás. Há 10 anos ou mais, era mais comum. A questão das viagens e dos brindes era, para algumas pessoas, uma relação muito mais comercial do que acadêmica. Hoje muita coisa mudou, graças à questão de compliance. As indústrias nem conseguem mais fazer esse tipo de coisa. Mesmo que o médico quisesse, a indústria não consegue mais. Coisas que aconteciam lá atrás, como mandar passagem para o médico e para a família, hoje estão absolutamente fora de cogitação. A ponto de, com frequência, não se permitir fazer congresso em cidade turística justamente por causa disso. Algumas cidades que costumavam receber congressos estão sofrendo porque a indústria diz que não vai patrocinar nada ali, para não confundir ciência com turismo. O pêndulo foi para o outro lado, e acho isso favorável. 

Trip FM: Estamos numa onda forte de longevidade. Dentro desse campo que às vezes confunde hype com ciência,  existem academias, clínicas, drogas e também os instrumentos de medição,  anéis e relógios que se propõe a registrar e “controlar” inúmeros indicadores de saúde. As pessoas estão fazendo planilha para meditar, cruzando o treino no pedal com a noite de sono. Como você enxerga essa tendência que pode virar obsessão pelo registro e controle?

André Zimerman: A longevidade é a base de toda a minha profissão. Quando digo para você dormir sete horas, não estou falando de relógio nem de dispositivo. Estou dizendo que quero te ajudar a viver mais e melhor. Hoje existe um foco em coisas super específicas, algumas que funcionam e outras que não. O problema é que com frequência as pessoas pulam para o avançado e esquecem da base. E a base é exercício físico, dieta adequada, controle de peso, controle de colesterol, controle de pressão arterial, não fumar e ter um sono adequado. A longevidade são essas sete ou oito coisas básicas. Não adianta comprar um dispositivo avançado e tomar uma medicação se essas coisas não estiverem em dia.

A partir daí, se a pessoa quer fazer planilha para ter um condicionamento melhor, vai ajudar a estimular, está ótimo. Como bom pesquisador, sou viciado em tabela, não tenho nada contra. O meu receio é quando entra em terreno de remédio experimental para longevidade, de soro fluorescente, coisas que saem do campo da ciência e viram um negócio de terapias que nunca comprovaram mudar nada. 

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Trip FM: Em 2004 a Trip lançou uma espécie de ideário, dez ou doze pontos que a gente achava importantes e pouco tratados pela mídia. Um deles era o sono. Riram da gente na época. Hoje pega bem falar que se interessa por sono e a atenção geral se voltou para o assunto. Mas esse tema é algo mais complexo do que o número de horas dormidas, tem a questão do ritmo circadiano individual, a idade e outros aspectos de cada pessoa. O que a pesquisa de ponta realmente sabe? Quem dorme seis horas e acorda bem está pior ou melhor?

André Zimerman: O sono sempre foi negligenciado, apesar de a gente passar um terço da vida dormindo. Isso mudou muito na medicina. A ponto de a American Heart Association, que sempre trouxe sete pontos fundamentais para uma vida saudável, os Life’s Simple 7, ter mudado a lista em 2022 para Life’s Essential 8, incluindo o sono. Ter um sono bom é um dos pilares da saúde física e cardiovascular. Os estudos apontam algo em torno de sete a nove horas como ideal para adultos. Acontece que, na nossa vida ocidental, a média fica bem abaixo disso. A gente dorme cinco ou seis horas durante a semana e dorme mal. Dormir mal deixa a gente desconcentrado ao longo do dia, pode aumentar a pressão arterial, a resposta adrenérgica, a frequência cardíaca. Tem repercussão múltipla em como vamos funcionar. A Trip foi visionária ao incluir o sono ali. Inclusive o Nobel de Medicina de 2017 foi para as descobertas sobre o ritmo circadiano, que é o relógio que governa o sono.

Trip FM é o talk show criado pela Trip. Nele, desde 1984, Paulo Lima já recebeu mais de mil personalidades, em entrevistas descontraídas e reveladoras.