Neto do fundador, o CEO da Mota-Engil prepara mais um triénio aos comandos da empresa. Não quer ser “o terceiro a pedir” do ditado popular e promete deixar a construtora “maior e, sobretudo, melhor”.
- Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal
O último ano foi uma montanha russa para Carlos Mota Santos. Em 2025, viu a carteira de encomendas da Mota-Engil superar pela primeira vez os 16 mil milhões de euros e o valor da empresa subir 70%, em março deste ano apresentou um ambicioso plano estratégico até 2030 e celebrou em julho os 80 anos do grupo fundado pelo avô. Pelo meio, viveu “o dia mais difícil”: a perda, em novembro, do tio e gestor que entre 1995 e 2023 presidiu aos destinos da construtora e deixou os alicerces do que ela é hoje.
“Tínhamos uma relação pessoal muito próxima”, conta ao ECO Carlos Mota Santos, presidente executivo e chairman da Mota-Engil. Além de tio, António Mota era também o seu padrinho. Foi ele que o desafiou a assumir a liderança do grupo portuense, sucedendo a Gonçalo Moura Martins, que esteve dez anos como CEO.
A escolha não era óbvia, já que podia ter recaído no primo Manuel Mota, filho de António Mota e atual vice-CEO da construtora e presidente da Mota Gestão e Participações, o family office que gere os interesses financeiros da família, com destaque para a participação de 40,32% na Mota-Engil. Foi, ainda assim, uma escolha pacífica, longa e cuidadosamente planeada.
Ele próprio [António Mota] fazia questão de lembrar as coisas que correram menos bem, de forma a que essa história dos erros e dos insucessos se perpetuasse no futuro, para se retirarem lições e para que não se voltassem a repetir situações similares.
“Eu diria que começou a ficar mais claro ali durante o Covid, entre meados de 2020 e início de 2021”, conta Carlos Mota Santos, que entrou na comissão executiva do grupo em 2012, com apenas 33 anos. Chegou à liderança 11 anos depois, em fevereiro de 2023.
À relação pessoal, somou a relação profissional com António Mota, que foi desenvolvendo ao longo dos anos. “Se há pessoa que me marcou sob o ponto de vista profissional, e com quem aprendi muitas coisas, foi com ele”, diz. “Mas o que é bom é que acho que aprendi coisas boas, mas também aprendi com os erros“, partilha. “Ele próprio fazia questão de lembrar as coisas que correram menos bem, de forma a que essa história dos erros e dos insucessos se perpetuasse no futuro, para se retirarem lições e para que não se voltassem a repetir situações similares”.
Dá um exemplo, que ele próprio viveu: “A aventura da cotação da Mota-Engil África foi um caso de insucesso”. Depois de fazer a separação do negócio africano no final de 2013, o grupo tentou no ano seguinte dispersar o capital na Bolsa de Londres e atrair investidores para financiar a expansão naquele continente, intenção que caiu por terra devido à deterioração das condições de mercado. A alternativa passou por admitir a Mota-Engil África à negociação em Amesterdão, sem oferta de ações, concretizando a distribuição de 20% do capital aos acionistas da casa-mãe. A desvalorização dos títulos acabou por levar à decisão de retirar a Mota-Engil África de bolsa no ano seguinte. O que não impediu o grupo de se tornar na maior construtora não chinesa em África, continente de onde vieram 40% dos 5,3 mil milhões de euros de faturação em 2025.
Outro desaire foi a “impossibilidade de ter sucesso no mercado espanhol”. “É uma coisa que é a nossa obrigação vingar o meu tio do que foi o passado”, assume Carlos Mota Santos.
Outro desaire foi a “impossibilidade de ter sucesso no mercado espanhol”. “É uma coisa que é a nossa obrigação vingar o meu tio do que foi o passado”, assume Carlos Mota Santos.
O CEO da Mota-Engil garante que não foi por pressão da família que fez a licenciatura em Engenharia Civil. “Ao contrário da maioria dos miúdos que querem ser astronautas ou pilotos ou o que quer que seja, sempre quis ser engenheiro. E nesse sentido foi uma coisa absolutamente natural. E diante das engenharias, aquela que eu achava que tinha mais vocação, de facto, era a Engenharia Civil”, justifica.
Depois de estudar no Colégio da Paz e na Escola Secundária António Nobre, tirou o curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, cidade onde nasceu a 13 de maio de 1978 e vive com a mulher e os três filhos. “É uma cidade excelente para criar uma família, para ser criança, para ser jovem. É uma cidade cosmopolita, mas ao mesmo tempo pequena, pelo que tem condições singulares, que outras cidades em Portugal também terão, ser uma cidade internacional, mas ao mesmo tempo uma cidade quase de vizinhança e muito familiar”, elogia.
Portista “ferrenho, mas não doente”
É sócio do Futebol Clube do Porto desde os cinco anos — quando os pais o inscreveram na natação –, os filhos, desde que nasceram. “Somos fervorosos adeptos, não ao ponto de sermos doentes, mas de facto somos bastante portistas, ferrenhos”, assume. Ao contrário dos filhos, presença assídua no Estádio do Dragão, Carlos Mota Santos vai “menos do que gostaria”. “Durante a semana é quase impossível e, de facto, no último ano, como o Porto jogava na Liga Europa, os jogos da Liga Portuguesa eram todos no domingo à noite, que era sempre uma chatice”, lamenta.
Foi enquanto tirava o curso que começou a fazer os primeiros estágios na Mota & Companhia, durante as férias, em obras. “Tinha muito contacto e vivia muito intensamente a empresa”. Entrou em 2002, em pleno processo de integração com a Engil, depois de António Mota ter conseguido fazer vingar a OPA hostil sobre a concorrente. E foi lá que Carlos Mota Santos começou. “Eu vivi aquele processo e quando entrei, em vez de ir para aquilo que era a Mota & Companhia, fui para a Engil. Foi interessante porque conheci uma realidade diferente da que conhecia quando estava na universidade”, recorda.

No grupo foi engenheiro de obra, apanhando nos primeiros anos o boom das concessões rodoviárias. Viveu a internacionalização para a Polónia, país de onde a Mota-Engil acabaria por sair em 2024. Da área de produção, acabaria por passar para o controlo de gestão, depois de concluir o MBA na Universidade do Porto, em 2008. Quatro anos depois estava sentado no conselho de administração, onde se destacou pela expansão do negócio na América Latina, onde a Mota-Engil é a segunda maior construtora.
Foi já como administrador executivo que viveu um dos principais marcos da empresa nos últimos anos: a entrada da China Communications Construction Company no capital, com a aquisição em 2020 e 2021 de um total de 32,41% da Mota-Engil, posição que este ano baixou para 31%. O CEO afirma que o gigante estatal chinês trouxe “capacidade acrescida sob o ponto de vista não só operacional, mas também do ponto de vista financeiro”, com o acesso mais facilitado à banca comercial asiática. “Isso é importante para nós darmos alguns saltos em termos de dimensão dos contratos a que estávamos a concorrer e que vieram a ser adjudicados”, destaca.
Outra vantagem foi “a abertura de um mercado de procurement [gestão de compras] gigante, que é o mercado chinês, com o qual começámos a ter um maior e melhor conhecimento e linhas de crédito associadas para comprar nesse mercado”, destaca Carlos Mota Santos. Condições que permitiram ter “mais e melhor soluções” para concorrer e ganhar projetos em África e na América Latina.
Cinco anos depois, a importância relativa da CCCC é menor. “Hoje diria que o efeito é muito menos evidente, mais diluído, porque ao longo do tempo fomos ganhando esta dimensão, esta escala“. A relação com o acionista chinês é boa, assegura: “Não são acionistas passivos, mas são acionistas que têm uma plena confiança e delegam totalmente a gestão do grupo na comissão executiva que é liderada por mim”.
Sou bastante pragmático, bastante simples, bastante próximo e bastante sincero. Às vezes até tenho alguns dissabores, porque digo sempre aquilo que penso. Mas este é o meu estilo, e é um estilo que é muito próprio da família Mota, e que tem muito da cultura do que é a Mota-Engil.
Carlos Mota Santos
Carlos Mota Santos descreve o seu estilo de liderança como “bastante pragmático, bastante simples, bastante próximo e bastante sincero”. “Às vezes até tenho alguns dissabores, porque digo sempre aquilo que penso, o que pode causar dissabores como processos promovidos nos Estados Unidos”, diz numa referência ao processo judicial por difamação movido pela gestora de ativos Muddy Waters contra si e a Mota-Engil. Em dezembro de 2024, numa entrevista ao Expresso, acusou o fundo que aposta na desvalorização das ações da empresa de “manipulação de mercado”. O caso parece estar a correr de feição. O tribunal texano, no qual a ação foi colocada, deverá declarar-se incompetente para julgar a matéria, como noticiou o ECO.
“Este é o meu estilo, e este é um estilo que é muito próprio, diria, da família Mota, e que tem muito da cultura do que é a Mota-Engil”, considera. Ainda que a empresa tenha o Estado como cliente em várias obras públicas, não se coíbe de criticar os governos, sobretudo a sua indecisão. “Os decisores políticos ficam com medo – e também são cada vez menos competentes”, disparou numa conferência do ECO em 2024.
Carlos Mota Santos no Capital Markets Day da Mota-Engil, onde foi apresentado o plano estratégico FOCUS 2030.11 março, 2026
A insatisfação permanece. “Os governos não são eleitos para gerir, são eleitos para decidir, para fazer política, para implementar reformas. Para gerir, seria um gestor de condomínio”, atira. E lembra que no plano estratégico elaborado com o Boston Consulting Group, em 2007, já lá estava vencer o concurso para a construção das linhas ferroviárias de Alta Velocidade e o novo aeroporto de Lisboa. A indecisão governamental leva a que as metas se repitam, 19 anos depois, na estratégia apresentada este ano, e com a qual o grupo pretende aumentar o volume de negócios dos 5,3 mil milhões para os 9 mil milhões de euros até 2030.
E como decide o CEO da Mota-Engil? “Decidir sozinho nunca, só mesmo se tiver que ser. Agora, os consensos são importantes até o limite de passarem a ser um problema. Não é necessário haver consenso, é necessário haver discussão, mas depois, no fim do dia, tem que se tomar uma decisão. E se a decisão tiver que ser exclusivamente minha, será exclusivamente minha. Ou seja, é preferível uma má decisão do que decisão nenhuma“, responde.
O mais difícil foi a morte do engenheiro Mota. Teve um impacto obviamente pessoal, mas foi também o momento a partir do qual eu me apercebi, que nós nos apercebemos, que já não há ninguém a quem ligar se tivermos uma dúvida. Passamos a ser nós a receber os telefonemas das dúvidas.
Carlos Mota Santos
Carlos Mota Santos diz que não alteraria nada do que decidiu desde que assumiu o leme da construtora em 2023 — “os resultados estão a provar que temos um caminho certo”. Nestes dois anos e meio, “o mais difícil foi a morte do engenheiro Mota”. “Teve um impacto obviamente pessoal, mas foi também o momento a partir do qual eu me apercebi, que nós nos apercebemos, que já não há ninguém a quem ligar se tivermos uma dúvida. Passamos a ser nós a receber os telefonemas das dúvidas”.
No próximo ano, vai ser eleito para um novo mandato de três anos — “a não ser que aconteça alguma desgraça, que espero que não”. A sucessão ainda não é tema, até porque a quarta geração da família ainda é bastante nova. “Há dois em idade universitária”, diz. Um deles é o filho mais velho, que vai entrar em Engenharia Civil em setembro. Mas há “um cuidado, que foi firmado este ano, novamente, com uma coisa chamada protocolo familiar“. “Temos um cuidado especial com a formação da quarta geração e com a integração na empresa, caso seja vontade deles, claro, mas também caso tenham essa capacidade de integração”, explica.
No discurso que proferiu no evento dos 80 anos da Mota-Engil, no início de julho, Carlos Mota Santos elogiou perante a ilustre plateia, onde estava o Presidente da República, os legados de Manuel António da Mota, que fundou a Mota & Companhia em 1946, e de António Mota, o “líder histórico” a “quem a Mota-Engil deve, em grande parte, aquilo que hoje é”. O sucessor quer deixar também uma marca.
Desde miúdo que ouvi um ditado que me irritava profundamente, que era ‘o primeiro a pé, o segundo a cavalo e o terceiro a pedir’. Eu como sou o terceiro, sempre disse que a pedir não vou andar. Vou não só montar o cavalo, mas vou fazer com que o cavalo evolua e contribuir para que sejamos um grupo muito mais forte, muito maior e muito mais rentável.
Carlos Mota Santos
“Desde miúdo que ouvi um ditado que me irritava profundamente, que era ‘o primeiro a pé, o segundo a cavalo e o terceiro a pedir’. Eu como sou o terceiro, sempre disse que a pedir não vou andar. Vou não só montar o cavalo, mas vou fazer com que o cavalo evolua e contribuir para que sejamos um grupo muito mais forte, muito maior e muito mais rentável”, disse numa entrevista este ano à revista da Ordem dos Engenheiros.
“É a nossa obrigação e a nossa missão entregar um testemunho a uma quarta geração de uma empresa que seja maior e, sobretudo, melhor do que a terceira recebeu da segunda”, afirma ao ECO. A Mota-Engil “é um projeto inacabado”, que “tem a ambição dos 100 anos, mas que tem de ir além dos 100 anos”. “Temos que entregá-lo em condições da próxima geração a tornar ainda melhor e ser mais um orgulho para nós, acionistas, mas também para a economia nacional”, assume o CEO.