MIT Press

Detalhe da capa de “Morbid: Debunking modern longevity science”, de Saul Newman

Os biogerontólogos estão a explorar o limite máximo da vida humana. Um estudo recente coloca-o perto dos dois séculos, mas o colunista Graham Lawton encontra razões para ser cético.

Há alguns anos, Graham Lawton, colunista da New Scientist, escreveu uma história memorável e bastante polémica sobre Jeanne Calment, que era então, e continua a ser, a detentora oficial do recorde mundial de longevidade.

Nasceu em 1875 e morreu em 1997, aos 122 anos e 164 dias. Pelo menos, essa é a versão oficial dos acontecimentos.

Segundo alguns céticos, a mulher que morreu como Jeanne Calment era, na verdade, a sua filha Yvonne, que teria assumido fraudulentamente a identidade da mãe quando Jeanne morreu, em 1934.

Yvonne era 23 anos mais nova. Ainda assim, uma bela idade, mas não suficiente para bater o recorde.

A questão continua por resolver e, por enquanto, Calment mantém-se como um dos dados mais importantes da biogerontologia. Quando perguntamos “quanto tempo pode viver uma pessoa?”, a resposta é “pelo menos 122 anos e 164 dias”, supondo que Jeanne Calment tenha realmente vivido tanto tempo.

A possibilidade de alguém viver mais tem intrigado os cientistas há muito. É uma questão importante na biogerontologia porque, se quisermos prolongar a vida, precisamos de saber qual é o objetivo. Mas é surpreendentemente difícil responder.

Calment é uma exceção: mais ninguém chegou aos 120 anos, o que é uma das razões para as suspeitas.

A segunda pessoa que mais viveu foi Kane Tanaka, que chegou aos 119 anos e 107 dias, e a pessoa mais velha do mundo atualmente, a britânica Ethel Caterham, celebrou precisamente esta sexta-feira, 21 de agosto, os seus 117 anos. À parte alguns dissidentes, porém, todos concordam que existe um limite natural.

Mas onde fica esse limite?

Há duas formas principais de tentar responder à questão. Uma é estudar dados demográficos de supercentenários cuja idade foi confirmada.

Uma análise muito citada chegou a uma estimativa de cerca de 115 anos, embora não tenha excluído a possibilidade de alguém viver até aos 125. Outro estudo concluiu que o recorde de Calment deverá provavelmente ser batido num futuro relativamente próximo.

Outra abordagem passa por modelos computacionais. Um desses modelos analisou variações de curto prazo na contagem de glóbulos vermelhos e brancos em adultos com 85 anos ou mais. Os investigadores converteram esses dados numa medida da capacidade de resistência a doenças terminais relacionadas com a idade.

A certa altura, essa capacidade desaparece por completo, marcando um ponto sem retorno. Os investigadores concluíram que esse momento varia de pessoa para pessoa, mas surge geralmente por volta dos 120 anos. Mesmo nos indivíduos mais resistentes, porém, existe um limite máximo absoluto de 150 anos.

Há uma grande diferença entre 125 e 150, e já lá iremos. Mas há algo que estes estudos não têm em conta: os futuros avanços da medicina, diz Lawton.

Segundo diz o biogerontólogo Richard Faragher, da University of Brighton, no Reino Unido, num artigo no The Conversation, na década de 1920 os cientistas acreditavam que era impossível viver para lá dos 105 anos.

Ao longo do século seguinte, porém, os avanços da medicina foram acrescentando anos à esperança de vida. Juntamente com uma melhor alimentação e saneamento, ajudaram também a empurrar o recorde de longevidade para cima.

O que acontece se essa tendência continuar?

Para tentar descobrir, uma equipa do Skolkovo Institute of Science and Technology e do Artificial Intelligence Research Institute, ambos em Moscovo, na Rússia, fez uma experiência mental.

Imaginemos, propuseram os investigadores, que conseguimos curar todas as causas do envelhecimento que, em teoria, podem ser tratadas.

A única que não conseguiríamos corrigir seriam os danos no ADN das nossas células, que se acumulam inexoravelmente à medida que envelhecemos. Nesse cenário, o limite máximo da vida humana dispara para os 194 anos, concluiu um estudo recentemente publicado na Nature.

Lawton arrisca-se a dizer que isso não vai acontecer durante a sua vida, e que vale também a pena lembrar que as causas do envelhecimento ainda não são totalmente compreendidas. Mesmo assim, a estimativa sugere que há bastante margem para melhorar.

Mas voltemos ao mundo real. Porque variam tanto as estimativas para a idade máxima?

Entra novamente Jeanne Calment.

Quando estava a preparar a sua história, Lawton falou com um investigador da longevidade chamado Saul Newman, então na Australian National University, em Camberra.

Newman tinha acabado de publicar um estudo que mostrava que um pequeno número de erros ou registos fraudulentos em documentos de papel, como certidões de nascimento, pode distorcer significativamente os dados sobre longevidade.

O investigador australiano confessou a Lawton que suspeita que a alegada fraude de identidade dos Calment era apenas a ponta do icebergue.

Newman, agora na University of Oxford, acaba de publicar um livro, intitulado Morbid: Debunking modern longevity science, que revela a dimensão chocante desses erros e fraudes.

Na Grécia, por exemplo, descobriu-se que cerca de 70% dos centenários alegadamente vivos já tinham morrido. Continuavam vivos no papel para que os familiares pudessem continuar a receber as suas pensões. No Japão foram encontrados níveis ainda mais elevados de fraude nas pensões.

Ao longo da história, as pessoas também inflacionaram a idade por muitas outras razões: para entrar no serviço militar, ou escapar-lhe, para casar ou para conseguir emprego. Os erros administrativos também são frequentes, sobretudo nos registos feitos na época em que nasceram os atuais centenários e supercentenários.

Esses erros acabam inevitavelmente por entrar nas estimativas do limite máximo da longevidade humana. Se os dados demográficos usados à partida estão cheios de idades inflacionadas, é provável que os resultados também estejam inflacionados.

Entra lixo, sai lixo.

As pessoas incluídas em estudos de modelação também têm uma idade atribuída, que pode muito bem estar errada. Quando a revista Nature perguntou a Newman em que ponto deixava isto o debate sobre a duração máxima da vida humana, respondeu: “numa confusão absoluta”.

Quando investigava a história de Calment, Lawton encontrou também um estudo de 2011 que concluiu que, em todo o mundo, não era possível verificar 98% das alegações de pessoas que teriam vivido mais de 115 anos.

O mesmo estudo concluiu ainda que, nos países com registos de nascimento rigorosos que remontam a mais de 150 anos, não há uma única pessoa que se tenha provado ter vivido para lá dos 115.

Essa, acredita Lawton, é a melhor estimativa que temos.