Cortesia JR / DivulgaçãoAgnès Varda com seu autorretrato durante as filmagens de “Visages, villages” (2018).Cortesia JR / Divulgação

Antes de se tornar uma das grandes cineastas do século 20, Agnès Varda (1928-2019) já andava por aí com uma câmera nas mãos fotografando o que via. Em 1954, fez da própria casa, na Rue Daguerre, em Paris, uma pequena galeria. Expôs paisagens, nus, objetos cotidianos e até uma batata em forma de coração. Naquele mesmo ano, preparava La Pointe Courte (1954), seu primeiro longa-metragem.

A fotógrafa nunca desapareceu por completo quando Varda passou ao cinema. É esse olhar, menos conhecido do que seus filmes, que percorre Fotografia AGNÈS VARDA Cinema, exposição que abre em 12 de setembro, na Fundação Iberê, em Porto Alegre, com cerca de 200 imagens produzidas sobretudo nas décadas de 1950 e 1960.

Varda gostava de viajar e, principalmente, de gente. Na China de 1957, onde chegou como integrante de uma delegação francesa, fotografou um país em transformação sem se limitar aos sinais mais evidentes da política. Sua câmera encontrou trabalhadores, artistas, crianças e cenas da vida comum. 

Anos depois, foi a Cuba, entre o fim de 1962 e o início de 1963, e voltou com imagens de canaviais, danças, cerimônias religiosas e ruas. Em uma delas, Fidel Castro aparece diante de pedras que parecem lhe dar asas.

Dessas fotografias de Cuba nasceu o filme Saudações, Cubanos! (1963), feito a partir das imagens da viagem. É uma das tantas ocasiões em que fotografia e cinema se entrelaçam em sua obra.

Em 1968, na Califórnia, ela voltou a apontar a câmera para um momento de agitação. Enquanto Jacques Demy, seu marido, trabalhava em Hollywood, Varda se aproximou da contracultura e dos Panteras Negras, acompanhando em Oakland as mobilizações pela libertação de Huey Newton. A experiência resultou no curta Black Panthers (1968) e em fotografias que também integram a mostra.

Com curadoria de Rosalie Varda, cineasta e filha da artista, e João Fernandes, diretor artístico do Instituto Moreira Salles (IMS), a exposição foi concebida especialmente para o Brasil. O recorte privilegia questões que Varda perseguiu durante toda a vida – desigualdade, racismo, a experiência das mulheres –, mas sobretudo a maneira muito particular com que se aproximava delas, menos interessada em explicar o mundo do que em olhar com atenção para quem estava dentro dele.

Quem é Agnès Varda?

Nascida em Ixelles, na Bélgica, em 1928, Agnès Varda construiu uma das trajetórias mais livres do cinema francês. Vinha da fotografia e, quando realizou La Pointe Courte, em 1954, tinha pouca experiência cinematográfica. O longa, feito anos antes da explosão da Nouvelle Vague, já trazia certa mistura entre ficção e documentário, e o interesse pela vida cotidiana. 

Filmes como Cléo das 5 às 7 (1961), Os Renegados (1985) e As Praias de Agnès (2008) fizeram de Varda uma referência para diferentes gerações de cineastas. Ao longo de mais de seis décadas, passou da película às câmeras digitais e, já septuagenária, começou ainda uma nova carreira como artista visual.

Varda morreu em Paris, em 2019, aos 90 anos, depois de ter recebido algumas das principais homenagens do cinema mundial, entre elas a Palma de Ouro Honorária, em Cannes, e o Oscar Honorário pelo conjunto da obra. Até os últimos anos continuou filmando e inventando novas formas de trabalhar com as imagens com a mesma vivacidade da jovem fotógrafa dos anos 1950. 

Programe-se

  • O quê: Fotografia AGNÈS VARDA Cinema
  • Onde: Fundação Iberê (Avenida Padre Cacique, 2000)
  • Abertura: 12 de setembro, às 14h
  • Visita mediada com a curadoria: às 16h
  • Visitação: até 28 de fevereiro de 2027
  • Entrada gratuita no fim de semana de abertura

*Sob supervisão da jornalista Juliana Bublitz, titular deste espaço.

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