Vasco Célio / Lusa

Enfermeira com uma vacina na mão

A eficácia das vacinas não é igual em todas as pessoas. A Inteligência Artificial pode ajudar, ao prever quem responderá melhor a uma dose antes da toma. Vêm aí vacinas personalizadas?

Um novo estudo sugere que uma análise ao sangue feita antes da vacinação, combinada com inteligência artificial (IA), poderá ajudar a prever quem terá uma resposta imunitária mais forte à vacina contra a COVID-19.

A investigação, publicada na Cell Press Blue esta quinta-feira, consiste numa análise de amostras de sangue de mais de quatro mil pessoas. Identificou padrões de anticorpos já existentes no organismo que parecem estar relacionados com a resposta posterior à vacina contra a COVID-19.

Os resultados do estudo sugerem que algumas pessoas poderão ter um sistema imunitário mais preparado para reagir do que outras. Determinados biomarcadores (sinais biológicos que podemos medir no corpo), quando analisados através de IA, permitem antecipar quem tem maior probabilidade de responder bem a uma vacina, mesmo antes de a receber, garante Joshua LaBaer, responsável pelo estudo, em comunicado.

Os investigadores mediram anticorpos capazes de reconhecer 185 antigénios, incluindo componentes de vírus e bactérias comuns, bem como marcadores associados a doenças autoimunes. Depois, compararam os padrões encontrados antes e depois da vacinação contra a covid.

Níveis elevados de vários anticorpos já presentes antes da vacina foram associados a respostas mais fortes. Entre eles, anticorpos relacionados com microrganismos como a bactéria Staphylococcus aureus, o vírus sincicial respiratório (VSR) e o respirovírus humano 3.

Os especialistas chamam-lhes anticorpos “sentinela”. Isto não significa que sejam diretamente responsáveis por combater o alvo da vacina, mas poderão funcionar como indicadores do estado de preparação da parte do sistema imunitário responsável pela produção de anticorpos.

Normalmente, a resposta a uma vacina é avaliada depois da administração, através da medição dos anticorpos produzidos contra o agente que se pretende combater. Mas neste estudo, os investigadores inverteram a típica abordagem e tentaram perceber se o perfil imunitário existente antes da vacinação permitia antecipar o resultado.

São vários os fatores que influenciam a eficácia de uma vacina: a idade, o sexo biológico, a genética, infeções anteriores, doenças existentes ou a toma de medicamentos imunossupressores. Mas mesmo assim estes fatores não explicam tudo.

No estudo em questão, os grupos imunossuprimidos apresentaram, em geral, maior probabilidade de ter uma resposta fraca, mas algumas pessoas imunossuprimidas responderam muito bem.

A equipa treinou um modelo de aprendizagem profunda capaz de analisar simultaneamente todo o conjunto de anticorpos, em vez de procurar só um marcador isolado. Esta IA conseguiu assim distinguir os participantes com respostas mais fortes à vacina daqueles que reagiram pior à vacina.

Os investigadores consideram que esta abordagem poderá vir a permitir uma vacinação mais personalizada e adequada às necessidades de cada um. No futuro, uma espécie de “impressão digital” de anticorpos poderá ajudar a identificar quem realmente precisa de mais doses, de maior acompanhamento ou de outras formas de proteção contra a doença.

Embora o trabalho se tenha centrado na vacina contra a covid-19, os autores sublinham que o método poderá eventualmente ser aplicado a outras vacinas.


Tomás Guimarães, ZAP //