O objetivo da Casa Branca é, também, desincentivar os investidores a instigarem algum movimento especulativo contra a dívida norte-americana, sob pena de poderem ser apanhados em contrapé e sofrerem grandes prejuízos. Isto porque, ao apostarem negativamente nos preços dos títulos, esses investidores serão penalizados se as recompras feitas pelo Tesouro fizerem subir esses mesmos preços.

Enquanto o Departamento do Tesouro tenta suster a pressão, os olhos viram-se para o novo presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, que na próxima semana vai fazer um discurso na cimeira anual do banco central dos EUA em Jackson Hole, no Wyoming.

O responsável tem evitado dar pistas claras sobre a evolução da política monetária nos EUA, nos próximos tempos, e analistas como os da TD Securities admitem que as tensões no mercado de dívida podem agravar-se se Warsh não sinalizar de forma contundente que está disponível para subir os juros para controlar a inflação – o que, a acontecer, iria contrariar o desejo da administração Trump: juros mais baixos.

Reserva Federal. Mesmo “escaldado” com Powell, Trump volta a nomear um republicano que pensa pela própria cabeça: Kevin Warsh

A vaga negativa nas obrigações soberanas está longe de ser um exclusivo dos EUA – é geral. Na Alemanha, a referência a 10 anos chegou a superar os 3,25%, com a maior economia europeia a financiar-se ao custo mais elevado desde 2011, o ano em que se agravou a crise das dívidas soberanas europeias. Japão, França e Reino Unido também estão a registar subidas significativas nos custos de financiamento.

O sell-off [venda intensa] a que estamos a assistir é global, não é um problema europeu isolado e resulta de uma combinação de fatores”, explica Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa. Ao Observador, o especialista salienta que “o fator mais imediato é o regresso das preocupações com a inflação, sobretudo devido à subida do preço do petróleo e ao agravamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente”.

Com o petróleo novamente perto dos 95 dólares, “aumenta o risco de um novo choque energético” e voltam a “reacender-se os receios de inflação persistente” – o que penaliza os preços das obrigações porque estes títulos, tipicamente, garantem aos investidores um rendimento fixo. Por isso, num cenário de inflação mais elevada, os investidores tendem a exigir uma rentabilidade maior para compensar ou mitigar a perda “real”.

Portugal não está imune a esta subida generalizada das taxas” nas obrigações, acrescenta o diretor de investimentos do Banco Carregosa. A taxa de juro da dívida a 10 anos, no mercado onde os investidores trocam entre si títulos já emitidos pela República, superou nos últimos dias os 3,6%, aproximando-se de níveis que já não se veem desde 2017, acima de 4%.

Taxas de juro da dívida portuguesa a 10 anos voltaram aos 3,6%, valor onde estiveram algumas vezes nos últimos anos mas que não superam desde 2017. FONTE: TradingEconomics

O especialista salienta, no entanto, que se trata disso mesmo – “uma subida generalizada das taxas” – e não “um aumento significativo do prémio de risco específico de Portugal”. Filipe Silva nota que, “na realidade, apesar de a taxa portuguesa estar a subir, o spread face à Alemanha mantém-se estável” – isto é, não há alterações no diferencial entre os juros de Portugal e da Alemanha, referência de segurança entre os emitentes soberanos europeus.

“Isto é particularmente importante, porque significa que não estamos perante uma crise de confiança na dívida portuguesa”, salienta Filipe Silva. Por comparação, os investidores estão a pedir mais de 4% para emprestar a Itália e França e quase 3,7% a Espanha, um indicador de que todos estes emitentes estão a ser vistos como mais arriscados pelos investidores em dívida pública.

Outros bancos de investimento, como o alemão Commerzbank, também têm destacado que Portugal é, até certo ponto, uma espécie de oásis no contexto europeu, neste momento. “O encargo com pagamentos de juros de dívida deverá subir muito acentuadamente em França (…) e Itália”, destaca o economista Vincent Stamer, numa nota recente do Commerzbank.

A única exceção é Portugal que, ao contrário da maioria dos outros países da zona euro, tem vindo a reduzir de forma drástica o seu endividamento e está a beneficiar de ter tido melhorias significativas no rating”, refere o especialista, referindo-se à notação atribuída pelas agências de risco de crédito. A dívida pública portuguesa baixou para menos de 90% do Produto Interno Bruto e o Governo quer fechar o ano com esse rácio nos 87,5%.