Graham Beards / Wikipedia

A Candida albicans é uma levedura geralmente inofensiva que vive à superfície e no interior do nosso organismo, quase sempre sem ser notada
Infeções fúngicas mortais e resistentes a medicamentos estão a espalhar-se. Cientistas descobriram um possível tratamento.
Uma equipa de cientistas descobriu que um antibiótico bacteriano pouco conhecido consegue desarmar fungos responsáveis por infeções potencialmente fatais.
Esta é uma descoberta bem-vinda, numa altura em que os fungos resistentes a medicamentos estão a tornar-se uma preocupação cada vez mais séria para a saúde pública mundial, diz o Science Alert.
Os resultados do estudo foram apresentados num artigo publicado na quarta-feira na Current Biology.
“As infeções fúngicas matam cerca de dois milhões de pessoas em todo o mundo todos os anos, mas as opções de tratamento continuam a ser limitadas”, explica Ana Traven, bióloga molecular da Monash University, na Austrália, que liderou o estudo.
“A medicina moderna, desde a cirurgia e o tratamento do cancro aos transplantes de órgãos e aos cuidados intensivos, depende da nossa capacidade de prevenir e tratar estas infeções potencialmente fatais”, acrescenta a investigadora.
Traven e os colegas descobriram que um antibiótico já existente, mas pouco conhecido, pode ajudar.
“Não há vacinas contra infeções fúngicas e alguns dos medicamentos antifúngicos que temos podem ser altamente tóxicos, o que mostra a necessidade urgente de novas formas de prevenir e tratar estas doenças”, diz Traven.
A Candida albicans é uma levedura geralmente inofensiva que vive à superfície e no interior do nosso organismo, quase sempre sem ser notada. Em ocasiões muito raras, pode tornar-se patogénica.
A infeção ocorre habitualmente apenas em pessoas com fatores de risco; já estão doentes ou imunocomprometidas, ou foram submetidas a uma cirurgia.
A C. albicans pode alternar entre uma forma arredondada de levedura, que a ajuda a disseminar-se, e uma forma filamentosa, constituída por hifas, que lhe permite invadir tecidos. Nessa forma, liberta uma toxina chamada candidalisina, que danifica as nossas células.
Se a C. albicans atingir à corrente sanguínea, a infeção pode causar risco de vida.
No novo estudo, um antibiótico recentemente descoberto chamado gladiolina induziu os fungos na sua forma de hifas invasivas a regressar à forma de levedura.
Descoberta pela primeira vez em 2017, a gladiolina é produzida pela bactéria Burkholderia gladioli, que, tal como a Candida, pode também causar complicações em pessoas hospitalizadas.
Bactérias e fungos nem sempre coexistem pacificamente: muitas vezes competem pelos mesmos recursos. Assim, as melhores armas químicas contra um micróbio podem muitas vezes ser encontradas nos genes do seu “rival”.
Os autores do estudo extraíram a gladiolina de bactérias cultivadas em laboratório, originalmente obtidas do pulmão de um doente com fibrose quística.
A gladiolina já tinha mostrado atividade promissora contra as bactérias que causam tuberculose.
Além disso, um estudo de 2024 mostrou que a gladiolina pode aumentar a ação de um medicamento antifúngico chamado anfotericina B.
O novo estudo mostra como este subproduto bacteriano afeta a C. albicans: aumenta a atividade de duas proteínas fundamentais, Tye7 e Gal4, e leva o metabolismo da glicose do fungo ao limite.
Graças à gladiolina, no momento em que a C. albicans esgota a glicose, regressa à sua forma de levedura, menos invasiva.
Quando os investigadores adicionaram anfotericina B, os dois compostos tiveram um efeito sinérgico e suprimiram os biofilmes de C. albicans com maior eficácia do que qualquer dos tratamentos isoladamente.
“Os nossos resultados sugerem que a gladiolina poderá ajudar os medicamentos existentes a matar agentes patogénicos fúngicos perigosos, o que pode permitir o uso de doses mais baixas e menos tóxicas de antifúngicos”, conclui Greg Challis, também biólogo molecular da Monash e co-autor do estudo.