A Reflect Orbital espera, no futuro, vender «luz solar a pedido», fornecendo energia solar após o pôr-do-sol e antes do nascer do sol a clientes pagantes. O conceito assenta numa constelação de satélites equipados com espelhos.
Mike Carmon Meteored Estados Unidos 23/08/2026 07:14 5 min
E se o céu noturno estivesse sempre iluminado pela lua? A Reflect Orbital, uma startup tecnológica da Califórnia, obteve a aprovação da Comissão Federal de Comunicações (FCC) para lançar um protótipo de satélite capaz de transmitir radiação solar à Terra, sempre que necessário. A solução assenta numa constelação de satélites em órbita, equipados com espelhos gigantes concebidos para refletir a luz solar para painéis solares gigantes instalados na Terra.
A Reflect Orbital pretende lançar uma rede de até 50.000 satélites equipados com espelhos até 2035, a fim de aproveitar melhor a radiação solar e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
Brighter than the Moon: the impact of orbital mirrors
Reflect Orbital plans to launch giant mirrors into orbit to reflect sunlight onto Earth at night. New modeling reveals that such illumination would drastically increase light pollution.
A single 54-meter satellite beaming pic.twitter.com/zJxIEChpil
— Black Hole (@konstructivizm) August 15, 2026
“O problema é que a energia solar não está disponível quando realmente precisamos dela”, afirmou Ben Nowack, diretor executivo da Reflect Orbital, na Conferência Internacional sobre Energia Espacial de 2024, realizada em Londres.
A nave espacial de teste, cujo lançamento está previsto para 2026, a Earendil-1, irá desdobrar um espelho com 18 metros 18 metros na órbita terrestre baixa. Irá projetar um feixe de luz solar refletida com cerca de 4,83 quilômetros de largura para a superfície da Terra. A Reflect Orbital compara o aumento da radiação solar noturna a um “brilho suave semelhante ao da lua”.
A reação: investigação e preocupações ambientais
A aprovação concedida pela FCC à Reflect Orbital, em julho, para o lançamento do Earendil-1 foi alvo de uma onda de críticas por parte de astrônomos e especialistas em vida selvagem. A Sociedade Astronômica Americana (AAS) enviou uma carta à FCC a opor-se à concessão da licença.
By 2035, Reflect Orbital aims to launch up to 50,000 satellites equipped with mirrors to provide sunlight to Earth-based solar panels. Critics are concerned about impacts on wildlife, astronomy research and human health. https://t.co/LO6AuZp2RY
— Smithsonian Magazine (@SmithsonianMag) August 13, 2026
A AAS referiu preocupações relativamente ao aumento da poluição luminosa, ao risco de danos oculares para os astrônomos amadores e às distrações para os pilotos. Salientou ainda que os observatórios financiados pelo governo federal poderiam estar a desperdiçar recursos públicos, caso esses telescópios se tornassem ineficazes devido ao aumento da poluição luminosa.
Algumas pessoas podem querer transformar a noite em dia, mas outras não. — Stacy McGaugh, presidente do departamento de astronomia da Universidade Case Western Reserve
Os especialistas em vida selvagem também manifestaram preocupações. A DarkSky International, que também se opõe à proposta da FCC, alertou que a luz artificial poderia introduzir um novo e poderoso fator de stress nos ecossistemas noturnos. Estudos anteriores demonstraram que mesmo níveis baixos de luz artificial introduzidos durante a noite perturbam os padrões de navegação, migração, alimentação e reprodução em centenas de espécies.
Novo estudo regista um brilho semelhante ao da lua cheia
O novo artigo, atualmente publicado no arXiv (um arquivo de pré-impressões de artigos académicos de acesso aberto), detalha um estudo realizado em colaboração entre a Academia Eslovaca de Ciências e o Departamento de Ciências Astrofísicas de Princeton. O estudo modelou o brilho do céu para observadores tanto dentro como fora da área iluminada.
Astrônomos alertam: “O espaço está se esgotando, milhões de satélites ameaçam apagar as estrelas”
Os resultados preliminares comparam o brilho ao da lua cheia. E, uma vez que os satélites se deslocam rapidamente no céu, o estudo afirma que seria necessária uma constelação de milhares de satélites para garantir uma iluminação constante. É de salientar que o estudo ainda não foi submetido a uma revisão por pares completa.