“Não podemos receber os corpos sem saber quem são estas pessoas, isso, em primeiro lugar. Em segundo lugar, pedimos que nos devolvessem os vivos e agora falam dos mortos. Nós não fazemos distinção entre vivos e mortos”, declarou o ministro da Justiça do país africano

O ministro da Justiça marroquino, Abdellatif Ouahbi, condicionou a aceitação, por parte de Marrocos, dos corpos dos seus nacionais falecidos durante a última crise migratória em Ceuta a dois requisitos: a entrega a Rabat dos relatórios forenses e a repatriação dos menores marroquinos que se encontram na cidade espanhola.

“Não podemos receber os corpos sem saber quem são estas pessoas, isso, em primeiro lugar. Em segundo lugar, pedimos que nos devolvessem os vivos e agora falam dos mortos. Nós não fazemos distinção entre vivos e mortos”, declarou Ouahbi numa entrevista ao canal saudita Al Arabiya.

O ministro da Justiça sublinhou que Marrocos desconhece quantos corpos de marroquinos existem em Ceuta, uma vez que as autoridades espanholas não lhe forneceram os seus relatórios forenses. “Queremos os seus processos para determinar se são marroquinos, da África Subsariana ou de outros países árabes”, precisou.

Quando questionado sobre o motivo pelo qual o seu país não criou um mecanismo para recolher amostras de ADN das famílias dos desaparecidos durante a última onda migratória, Ouahbi rejeitou a proposta e reiterou que cabe à Espanha entregar os registos médicos e as fotografias dos falecidos. “Eles (a Espanha) têm de provar que são marroquinos”, acrescentou.

Ouahbi insistiu que Marrocos “não permitirá a entrada de nenhum cadáver sem que se encontre uma solução global através de um procedimento e de um quadro acordados. Tudo deve ser feito no contexto de um acordo entre nós e os espanhóis”, afirmou.

O ministro reconheceu que os governos de ambos os países ainda não chegaram a um acordo sobre estas questões pendentes, embora tenha manifestado a sua confiança de que se chegue a um entendimento “em breve”.

As autoridades de Ceuta começaram esta sexta-feira a enterrar os mais de 80 corpos de migrantes que faleceram durante a onda migratória do final de julho e que permanecem na morgue provisória da cidade autónoma. No âmbito do dispositivo extraordinário posto em prática para fazer face à acumulação de corpos, já foram enterrados 18.

Quanto à facilidade com que dezenas de milhares de migrantes conseguiram entrar em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho, Ouahbi explicou que a decisão das forças de segurança marroquinas de não confrontar os migrantes visava evitar vítimas.

Descreveu a gestão da crise por parte de Marrocos como “inteligente” e recordou que a constituição marroquina garante a liberdade de circulação. “Há migrantes que se perguntam: ‘Por que razão Marrocos nos impede de passar se Ceuta é uma cidade marroquina?'”, citou.

Durante a atual crise migratória, Ouahbi tornou-se o rosto visível do Governo marroquino. Em vários encontros com a imprensa, explicou a posição do seu executivo e, em algumas ocasiões, reiterou a tese de Marrocos de que Ceuta e Melilha são “cidades marroquinas ocupadas”. A última vez que o fez foi esta sexta-feira.

Nesse mesmo dia, o governo espanhol transmitiu a Marrocos a sua “rejeição categórica” às pretensões de Rabat sobre as cidades autónomas de Ceuta e Melilha que, recorde-se, fazem parte da “integridade territorial” e da “soberania” de Espanha e são parte integrante do território da UE