Do volante aos assentos, passando pelo revestimento dos painéis de porta e tejadilho, durante o último século não havia um automóvel de luxo, ou mesmo de gama alta, que não oferecesse um habitáculo todo forrado a pele. De preferência, peles extraídas de vacas criadas em regiões que não usem arame farpado, para evitar perfurações do couro, ou até animais que pastem em climas frios, para que a ausência de mosquitos reduza as imperfeições da pele.

As peles são aproveitadas desde sempre de animais abatidos para o consumo de carne, pois de outra forma seriam consideradas desperdício e iriam parar ao lixo. Contudo, há grandes diferenças entre as múltiplas peles, dependendo sobretudo da alimentação dos animais, do clima e da forma como são mantidos e limitados ao espaço que lhes é reservado.

Próximo Bentley eléctrico chega em Setembro e tem uma pontinha de Porsche

As melhores peles do mercado são comercializadas pela Connolly Vaumol, empresa fundada em 1920 que, por sua vez, deriva da Connolly Leather, no mercado desde 1878 e que desde sempre equipa a fina flor da indústria automóvel, quando o luxo é requisito obrigatório, tendo como clientes construtores como a Bentley, a Rolls-Royce, a Aston Martin e a Jaguar. Curiosamente, este especialista em couro abastece os melhores fabricantes do mercado ainda muito antes do tempo dos automóveis, ou seja, quando os veículos, mesmo os mais luxuosos, eram puxados por cavalos, as refinadas carruagens.

Se os automóveis têm evoluído ao longo dos anos, a indústria dos fabricantes de pele não lhes fica atrás, tendo aperfeiçoado um método para tingir a pele em 1927 que permitiu uma maior quantidade de cores, mantendo sempre a elasticidade e a agradabilidade ao tacto. Outra evolução surgiu pela mão da Vaumol, que desenvolveu um processo de tingir a pele com cores em duas camadas, que consiste na aplicação de uma base em celulose, seguida de um acabamento pulverizado, que permite à pele realçar o grão natural do couro. E a versão mais refinada da Vaumol, denominada Luxan, inclui uma camada superficial, vulgarmente denominada pátina, que é esfregada manualmente para optimizar a cor, conferindo-lhe profundidade e requinte.

Bentley troca a pele Connolly por lã Merino

Apesar de ser habitual a Bentley recorrer a peles da Connolly, este construtor britânico surpreendeu ao equipar o seu próximo modelo de luxo e o seu primeiro carro a bateria, o Torcal, com um novo tipo de material para revestir o interior, mais sustentável, um pouco à semelhança da mecânica que é 100% eléctrica, num SUV com cerca de 5 metros de comprimento que será revelado a 23 de Setembro.

Como seria de esperar, a Bentley não escolheu uma lã qualquer para revestir o habitáculo da sua próxima criação, tendo optado por lã Merino. Trata-se de um material que, tradicionalmente, é áspero e grosso, mas que neste caso é excepcionalmente fino, o que o torna macio, além de gerar uma fibra respirável e, obviamente, sustentável.

Esta não é a primeira vez que a lã é utilizada a bordo de um automóvel moderno, sendo que este material sempre foi considerado pouco robusto ou durável. Funciona bem em meias, camisolas ou gorros mas, se usado num assento, onde o condutor e os passageiros se esfregam com alguma pressão, que depende proporcionalmente do seu peso, pode ser uma limitação importante.

Para contornar este problema, a Bentley trabalhou com a Fox Brothers, uma empresa britânica especializada na produção dos mais variados tecidos desde o século XVIII. Daí que a Bentley tenha conseguido criar a primeira lã de ovelhas capaz de agradar aos utilizadores de automóveis, sendo simultaneamente macia e agradável ao tacto, mas igualmente robusta e resistente, sendo mesmo certificada pelo Responsible Wool Standard.