A Coreia do Sul encontra-se assim numa posição desconfortável, acolhendo favoravelmente qualquer redução das tensões na península, mas mantendo reservas sobre um eventual enfraquecimento da cooperação militar com Washington.
O receio em Seul é que uma diplomacia excessivamente centrada na relação entre Trump e Kim possa relegar para segundo plano as preocupações de segurança do aliado sul-coreano.
“Esperamos que esta decisão do presidente Trump conduza ao estabelecimento de um regime de paz estável na Península Coreana, através da construção de confiança e da retoma do diálogo entre a Coreia do Norte e os EUA“, disse o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung.
O mesmo responsável tem defendido a necessidade de Seul reforçar as suas capacidades de defesa e ganhar maior autonomia estratégica (numa altura que os EUA pressionam os aliados a assumirem maiores responsabilidades na sua própria defesa).
Novo contexto internacional
Mas o maior obstáculo à estratégia de Trump poderá ser a transformação radical do contexto internacional desde o fracasso da cimeira de Hanói, em 2019. Nessa altura, a Coreia do Norte continuava sujeita a um isolamento significativo e procurava formas de aliviar a pressão económica das sanções. Hoje, a situação é diferente.
A guerra na Ucrânia aproximou Pyongyang e Moscovo de uma forma sem precedentes desde o fim da Guerra Fria.
As tropas norte-coreanas combatem ao lado das forças russas e a Coreia do Norte forneceu armamento, munições e mísseis utilizados pela Rússia na guerra contra a Ucrânia.
Ainda na sexta-feira (21 de agosto), Kiev denunciou a entrega de Pyongyang a Moscovo de novos mísseis balísticos, além do envio de mais pessoal militar para apoiar o esforço de guerra russo.
Em paralelo, a cooperação económica e política entre os dois países aprofundou-se, reduzindo a dependência norte-coreana de qualquer eventual abertura aos EUA.
E isso leva os especialistas a duvidar da viabilidade de uma nova ronda diplomática nos moldes imaginados por Trump, já que muitos dos incentivos que levaram Kim às cimeiras de 2018 e 2019 desapareceram. Com o apoio da Rússia e relações estáveis com a China, o líder norte-coreano dispõe hoje de alternativas que não tinha há poucos anos.
Neste sentido, Trump parece estar a tentar recuperar um modelo diplomático concebido antes da invasão russa da Ucrânia, enquanto Kim opera num ambiente geopolítico profundamente alterado pelo seu alinhamento estratégico com Moscovo.
Uma eventual reaproximação pode abrir canais de diálogo e reduzir o risco de escalada na Península Coreana, onde esta semana a Coreia do Norte voltou a demonstrar a sua capacidade militar com o lançamento de mais de uma dezena de mísseis balísticos de curto alcance, numa altura em que decorria o exercício militar conjunto entre os EUA e a Coreia do Sul.
Mas também levanta questões para Seul, que teme ver os seus interesses subordinados a uma negociação bilateral em que não está envolvida, e para Kiev, que acompanha com atenção qualquer iniciativa envolvendo um dos mais importantes parceiros militares do Kremlin.