O ECO/eRadar selecionou cinco companhias que, pelos projetos em mãos ou setores onde atuam, considerou que se deve estar atento ao seu percurso e planos futuros. Conheça melhor porquê.

São empresas de drones, tecnológicas ou futuras produtoras de veículos de rodas blindados ou de veículos autónomos terrestres. Atuam na defesa, setor que em Portugal, reúne 440 empresas, que geram um volume de negócios anual a rondar os 8,68 mil milhões de euros em vendas somadas, das quais 3,47 mil milhões vendas para fins de Defesa, com os restantes 5,20 mil milhões receitas para fins civis, segundo dados da idD Portugal Defence.

O ECO/eRadar selecionou cinco companhias, de diversos setores e níveis de maturidade distintos, que, pelos projetos em mãos ou setores onde atuam, considerou que se deve estar atento ao seu percurso e planos futuros. Conheça melhor porquê.

Tekever: unicórnio a querer voar mais alto









Ricardo Mendes, CEO e cofundador da Tekever







É o sétimo unicórnio nacional, o único no setor da defesa e se avançare fechar com sucesso —, a ronda de 500 milhões de euros recentemente noticiada pela Bloomberg a fabricante de drones nacional — “computadores com asas” como lhe chama o cofundador e CEO Ricardo Mendes — vai voar ainda mais alto: chuta de uma avaliação de 1,2 mil milhões para 5,5 mil milhões de euros.


Estónia quer comprar drones da Tekever


Se os drones são o setor campeão nacional da indústria de defesa — representando cerca de 20% das exportações da indústria —, a Tekever é, muito possivelmente, a medalhista das empresas de drones em Portugal. A companhia tem vindo a implementar um plano de expansão em vários mercados e realizado operações de aquisição, como é o caso da startup portuguesa Cloudsweep. E será para alimentar esse crescimento que a empresa portuguesa estará a sondar novos e atuais investidores para uma futura injeção de capital.

Para já são conhecidos planos de investimento no Reino Unido — mais de 400 milhões de euros a cinco anos e vários e avultados contratos fechados, na ordem de 400 milhões a 10 anos, com o Ministério da Defesa Britânico — em França (200 milhões) com a abertura de unidades de produção em Swindon e Cahors, respetivamente. Na Europa está ainda presente na Ucrânia, com um hub de I&D, e na Estónia, onde abriu escritório e, a avançar com sucesso um processo de aquisição pública, poderá vir a fornecer drones às Forças Armadas do país Báltico.


Força Aérea fecha com Tekever para vigilância marítima


 

Nos Estados Unidos, a companhia também deu este ano passos no sentido de consolidar a sua presença num dos maiores mercados de defesa a nível mundial, com a abertura de um “hub estratégico” na Carolina do Norte. Na América do Norte, em junho Tekever assegurou um novo contrato com a canadiana Phoenix Heli-Flight para a prestação de serviços de deteção de incêndios florestais no Canadá, dando continuidade a uma colaboração entre as empresas que data de 2023.


Tekever é a empresa “que está a desenvolver drones” para o SAFE


Com um total de 1.300 pessoas, a maioria em Portugal, a Tekever tem várias unidades no país, tendo instalado em Peniche um centro para treino e teste de voo de drones. A empresa tem igualmente vindo a fechar alguns contratos com a Força Aérea e com a Polícia Marítima para a venda de drones para fins de vigilância marítima.

Área onde a empresa há muito atua. Em 2024, fechou um contrato de cerca de cinco milhões de euros com o Governo espanhol para a entrega, entre 2024 e 2025, de drones para patrulhar fronteiras terrestres e marítimas. E em novembro do ano passado, um contrato no valor de 30 milhões com Agência Europeia de Segurança Marítima (EMSA) para vigiar as águas europeias através de drones. O contrato, válido por dois anos, pode ser prolongado até quatro anos.

Em Portugal, a empresa está ainda ligada ao consórcio que, no âmbito do programa de empréstimo europeu SAFE, vai fornecer drones às Forças Armadas nacionais.

Beyond Vision: de Alverca à Jordânia









Dário Pedro, cofundador e CEO da Beyond Vision na unidade de produção em Alverca.

Hugo Amaral/ECO





Com uma unidade de produção em Alverca, onde tem vindo a investir na sua expansão — de 2.000 para 4.000 metros quadrados — para ganhar maior capacidade de produção, a fabricante de drones tem vindo a voar para vários mercados internacionais.

Em julho foi anunciado mais um país na rota de voo: Jordânia. A entrada no mercado do Médio Oriente surge através de uma parceria com a Aero Voo Portugal (AVP) para sua representação comercial no país, que tem vindo a investir na modernização das suas capacidades militares, na vigilância de fronteiras e na proteção de infraestruturas críticas, áreas onde a Beyond Vision pretende posicionar as suas soluções.

Em junho tinha sido a vez do Canadá, após ter fechado uma parceria com a Arcanus Aerial Systems, empresa do setor de defesa com sede em Toronto, para a produção, comercialização e prestação de apoio às principais plataformas da fabricante nacional de drones nesse país da América do Norte, bem como “em vendas de exportação financiadas pelo Canadá”.


Fomos a Alverca ver construir os drones da Beyond Vision


O acordo para produção e venda no Canadá irá acelerar a nossa posição no continente norte-americano”, adianta Dário Pedro, cofundador e CEO da Beyond Vision, ao ECO/eRadar. Como este acordo, o Canadá junta-se aos Estados Unidos, mercado onde a fabricante de drone tinha fechado um acordo de pelo menos 15 milhões para a entrega de 300 drones para situações de emergência.

Os primeiros drones estavam previstos começarem a ser entregues em 2026. Sendo que, admitia a empresa, o contrato poderia estender-se em volume, feita a avaliação das provas de conceito. Nos planos da companhia está ainda a abertura de uma fábrica nos Estados Unidos em 2027 para continuar a fornecer estes equipamentos, um investimento de aproximadamente 50 milhões de euros.

A companhia, que marca igualmente presença no Oeiras Innovation Valleyonde o objetivo é criar um cluster de indústria de drones, tal como avançou o ECO/eRadar — tinha como objetivos para 2026 alcançar entre 30 a 40 milhões de euros em vendas, na sua maioria na Europa, e crescer a equipa dos atuais 100 para 250.

UAVision: testar tecnologia made in Portugal no OPEX da EDA





Bateu mais de 140 candidaturas provenientes de toda a Europa e foi uma das cinco empresas de drones de ataque (loitering munitions) a ser selecionada para testar a sua tecnologia no OPEX26, o exercício operacional da Agência Europeia de Defesa (EDA), que vai decorrer no Campo Militar de Santa Margarida, em Portugal.

A empresa nacional junta-se à alemã Helsing, à neerlandesa Destinus, à eslovena C-Astral e à grega Spirit Aeronautical Systems no “Sentinel Strike Challenge”. A competição promovida pela EDA pretende avaliar drones de ataque em cenários operacionais realistas, colocando todos os sistemas a operar nas mesmas condições, permitindo às Forças Armadas europeias comparar o seu desempenho. Por agora, cada empresa recebe um prémio de 30 mil euros. Em setembro, vai disputar um prémio global de 1,8 milhões de euros, atribuído após a campanha de ensaios em Portugal.


UAVision escolhida pela EDA para testar drones no OPEX


“Nesta fase, o impacto é sobretudo estratégico e reputacional, embora não excluamos algum efeito nas vendas já este ano, uma vez que muitas decisões de compra acontecem no final do ano”, diz Nuno Simões, CEO da UAVision, ao ECO/eRadar.

A empresa vê no atual contexto geopolítico uma oportunidade para acelerar a internacionalização. A UAVision já desenvolve atividade na Europa, Médio Oriente, África e Ásia, mas considera que o mercado europeu será o principal motor de crescimento nos próximos anos.

A expansão da empresa passa igualmente pelo Oeiras Valley Innovation Lab. “A UAVision já integra o Oeiras Valley Innovation Lab, onde irá instalar uma área de cerca de 2.500 metros quadrados dedicada ao desenvolvimento de sistemas não tripulados, incluindo soluções aéreas, terrestres e subaquáticas, bem como tecnologias Counter UAV”, adianta Nuno Simões.

Critical Software: dos caças Gripen… às fragatas FREMM EVO?





Conhecida por desenvolver tecnologia com aplicação ao setor automóvel — há anos que tem uma parceria com o grupo BMW no hub Critical TechWorks — ou aeronáutico, tendo arrancado este ano com a joint-venture com a Airbus, dando origem ao Critical Flytech, a Critical Software tem vindo também a trabalhar no setor de defesa.

É a tecnologia de IA da empresa portuguesa que está por trás do simulador para treino de pilotos dos caças Gripen que está a ser desenvolvido. A Critical Software é uma das companhias nacionais com as quais a sueca Saab começou a trabalhar no âmbito dos caças que quer vender à Força Aérea Nacional.

A tecnológica portuguesa faz ainda parte do consórcio europeu de Defesa que está a desenvolver o projeto BEAST (Boosting European Advanced Missile System Technology) financiado em 35 milhões pelo Fundo Europeu de Defesa, onde está a desenvolver uma plataforma que vai ajudar o sistema de mísseis europeu a ser mais “mais inteligente e eficaz”. O projeto BEAST tem entrega prevista para 2028.


Compra das fragatas deixa indústria na incerteza do retorno


A Critical Software, que tem vindo a trabalhar com o Exército Português, com a Força Aérea e Marinha Portuguesa em vários projetos, poderá ser uma das empresas nacionais envolvidas no maior investimento recente de compra de equipamentos de defesa nacional: as novas fragatas.

A compra das fragatas FREMM EVO — um investimento de 3,9 mil milhões de euros a ser feito através do programa de empréstimo SAFE — à italiana Fincantieri deverá ter um retorno “assinalável” para a economia nacional, garante o Ministério da Defesa o que para se concretizar passará pelo envolvimento de empresas nacionais no projeto.

O mesmo ainda está numa fase preliminar — em julho foi assinado com Itália “executive arrangement“, diz Nuno Melo, não havendo ainda um contrato fechado para a compra destes navios —, mas a fazer fé nas palavras da Defesa “será assinalável o retorno para a economia nacional, com a construção de uma doca flutuante, sistemas de combate e software operacional, simuladores e sistemas integrados de comunicações, a cargo de empresas portuguesas que mercê da sua experiência e capacidade asseguram um baixo risco perante os constrangimentos SAFE na execução do âmbito respetivo”, adiantou fonte oficial do Ministério da Defesa, ao ECO/eRadar.

E, apesar de não haver uma confirmação oficial, a informação recolhida pelo ECO/eRadar aponta que a Critical é uma das empresas nacionais que poderão estar envolvidas neste processo.

Sobre o tema, a empresa foi parca em detalhes. “Estamos com a indústria nacional, através da IdD [Portugal Defence], a apresentar as nossas competências e temos a expectativa de sermos incluídos”, disse apenas João Carreira, CEO da Critical Software, quando contactado pelo ECO/eRadar.

Jacinto: um “passo natural” para o setor da defesa

 









Espaço onde irão ser construídas a unidade de produção da Jacinto Defense.







Fabricante de veículos especiais para combate a incêndios, proteção civil, emergência e aplicações especiais, a Jacinto deu agora um passo de três milhões de euros para dar corpo à Jacinto Defense. É este o montante que a empresa de Esmoriz (distrito de Aveiro) se prepara para investir numa unidade de produção dedicada a equipamentos para o setor defesa.

“São instalações completamente novas dedicadas à defesa, com cerca de 4.000 metros quadrados. Para produção de veículos para a defesa com proteção balística e industrialização de UGV”, revelou Jacinto Reis, co-CEO da Jacinto, ao ECO/eRadar. Trata-se, diz o gestor, de “um projeto de longo prazo”, sendo que “a primeira fase das instalações industriais deverá estar pronta a laborar no final do primeiro trimestre de 2027”.

O setor de defesa é “um passo natural” para a companhia que já vinha atuando neste segmento. Hoje a defesa representa “uma parcela limitada da faturação global”, mas “é uma área com elevado potencial de crescimento, sobretudo devido ao atual contexto geopolítico internacional e ao reforço dos investimentos em defesa por parte de diversos países”, considera o coCEO.


Jacinto investe três milhões em produção para defesa


“Atualmente, trabalhamos em várias geografias onde a Jacinto possui presença consolidada, nomeadamente na Europa, América Latina e África, desenvolvendo contactos e projetos com entidades militares, forças de segurança e organismos governamentais”, adianta sem mais detalhes sobre as geografias em que atuam neste segmento.

“O foco da Jacinto Defense é claramente internacional. Portugal continuará a ser um mercado estratégico, mas a dimensão do setor exige uma abordagem global. Pretendemos consolidar a nossa presença nos mercados onde o Grupo Jacinto já desenvolve atividade e expandir para novas geografias”, adianta Jacinto Reis quando questionado sobre mercados-alvo. Portugal e restante Europa, países da NATO, América Latina; países de Língua Oficial Portuguesa e África são os alvos prioritários.

“A nossa estratégia passa por crescer de forma sustentada através de parceiros locais, distribuidores especializados e alianças industriais”, diz.

O objetivo é, globalmente o grupo, fechar o ano com 40 milhões de euros de faturação.