A crítica feita em 2024 à inação do Governo é, em parte, explicada pela crise política em que o país estava mergulhado depois de as eleições, já na reta final do mandato, terem sido adiadas. Dois anos depois, Mogadíscio procura fazer reformas, mas estas desenrolam-se timidamente e com poucos resultados visíveis. Entretanto, surgiram novos desafios na área da política externa.

Por um lado, a suspensão dos programas de ajuda internacional dos Estados Unidos pela administração Trump e a redução do financiamento da ONU contribuíram para o aprofundamento da crise económica. “Os especialistas há muito que argumentam que a supressão sustentável requere investimento em terra — nos meios de susbsistência, na governação, nas instituições locais. Se isso for apagado, a dissuação no mar torna-se mais difícil de manter”, escreve Christian Bueger, professor de Relações Internacionais na Universidade de Copenhaga, especializado em segurança marítima.

Por outro lado, ainda que com um peso significativamente menor, surge ainda o facto de, pela primeira vez, o estado da Somalilândia ter sido reconhecido internacionalmente como um Estado independente por Israel. A decisão de Telavive foi criticada por Mogadíscio e por vários países da região, que a veem como uma violação da soberania da Somália.

Por último, a redução do número de incidentes de pirataria, devido ao sucesso das missões internacionais, levou a um desinvestimento crescente nessas mesmas missões. “As estruturas colapsaram parcialmente devido à falta de manutenção e atenção”, alertava Christian Bueger ainda em 2024. Surgiu, assim, uma tempestade perfeita que permitiu a um “vulcão”, até aqui inativo, entrar novamente em erupção.