The Metropolitan Museum of Art / Robert Lehman Collection

“Souvenir de Nápoles“, aguarela de artista desconhecido, c.1821
Vulcões situados até no outro lado do mundo tiveram o poder de mergulhar a Europa medieval na escuridão, destruindo colheitas e vidas. É uma realidade que hoje não deve ser ignorada.
Quando as pessoas pensam em erupções vulcânicas, imaginam fluxos mortíferos de lava e quedas de cinzas sufocantes.
O destino dos habitantes de Pompeia após a erupção do Vesúvio, no ano 79 d.C., continua a impressionar ainda hoje.
Mas as erupções vulcânicas têm consequências muito mais vastas do que muitas vezes se pensa, como mostram vários relatos históricos, escreve o professor de História Alex Brown, da Durham University, num artigo no The Conversation.
As grandes erupções vulcânicas libertam gases e partículas de cinza para a atmosfera. Embora a própria cinza assente ao fim de algumas semanas, os aerossóis espalham-se pelo planeta e podem permanecer suspensos na atmosfera durante anos.
Os testemunhos de gelo, longas amostras cilíndricas retiradas de glaciares, revelam estas camadas de sedimentos do passado ao longo de centenas de milhares de anos.
O estudo dos registos históricos mostra que as erupções vulcânicas podem provocar alterações climáticas e uma rápida propagação de doenças como a peste. Podem também afetar sistemas meteorológicos muito para além das proximidades do próprio vulcão.
“O pior ano para estar vivo”
Uma enorme erupção vulcânica em 536 levou historiadores a descrever esse ano como “o pior ano para estar vivo”.
A localização exata da erupção é desconhecida, embora possa ter ocorrido na Islândia. A Europa, o Médio Oriente e partes da Ásia mergulharam na escuridão durante 18 meses. As temperaturas no verão caíram entre 1,5 °C e 2,5 °C, dando início a uma das décadas mais frias dos últimos dois milénios.
Procópio, historiador bizantino que viveu em Roma, escreveu que “o Sol emitia a sua luz sem brilho, como a Lua, durante todo este ano, e parecia extraordinariamente semelhante ao Sol durante um eclipse”.
Em Constantinopla, João Lido, administrador e escritor bizantino, relatou que “o Sol se tornou ténue durante quase um ano inteiro”.
Outro escritor da época, que se pensa ter sido João de Éfeso, observou que “o Sol estava escuro e a sua escuridão durou dezoito meses; todos os dias brilhava durante cerca de quatro horas, e mesmo essa luz era apenas uma sombra débil”.
Seguiram-se quebras nas colheitas. Os Anais de Ulster e de Inisfallen, duas crónicas da época, registaram uma “falta de pão” na Irlanda em 536.
À erupção de 536 seguiram-se outras duas, em 540 e 547. Estas foram, por sua vez, seguidas por um período prolongado de arrefecimento conhecido como Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia.
Os investigadores sugeriram que este período frio contribuiu para o aparecimento da peste de Justiniano, entre 541 e 549, um dos piores surtos de peste bubónica da História. Em parte, isso terá sido provocado por migrações, falta de alimentos e importações de cereais que transportavam ratos e pulgas infetados.
“Não houve verão durante o verão”
A erupção do Samalas, na Indonésia, em 1257, foi uma das mais importantes dos últimos dois milénios. Produziu nos testemunhos de gelo depósitos de enxofre com o dobro do volume dos deixados pela erupção do Tambora, em 1815, famosa por ter provocado o “ano sem verão” de 1816.
O norte da Europa já atravessava dificuldades devido às chuvas intensas e ao mau tempo. A erupção agravou ainda mais a situação, provocando quebras generalizadas nas colheitas e fome em 1258.
Jean d’Essey, bispo de Coutances, na Normandia, relatou que “não houve verão durante o verão. O tempo estava muito chuvoso e frio na altura das colheitas, nem a colheita dos campos nem a das uvas foi boa”.
O monge e cronista Richer de Senones, em França, escreveu na época que o calor do Sol quase não conseguia chegar à Terra. Observou que “uma camada de nuvens tão espessa cobriu o céu durante todo aquele verão que quase ninguém conseguia perceber se era verão ou outono”.
Os efeitos estão particularmente bem documentados em Inglaterra.
Ao resumir o ano de 1257, o monge beneditino inglês Matthew Paris descreveu-o como um “ano estéril e miserável”. Acrescentou que “uma grande multidão de pessoas morreu de fome”. Paris acreditava que a situação tinha provocado “doenças crónicas”, que mal deixavam “respirar quem já estava doente”.
Escreveu ainda que Inglaterra sofreu um frio particularmente intenso em abril, maio e junho, que impediu o crescimento das culturas: “devido à escassez de trigo, morreu um enorme número de pobres; e encontravam-se cadáveres por toda a parte, inchados e lívidos em pocilgas, em montes de estrume e nas ruas enlameadas.”
O elevado número de mortes na Inglaterra medieval ultrapassou a capacidade dos coroners, os funcionários encarregados de investigar mortes.
Em princípio, deveriam realizar uma investigação para determinar a causa da morte de cada pessoa. Mas havia tantos pobres “a morrer de fome” que os funcionários não conseguiam acudir a todos.
Em abril, o rei Henrique III ordenou que essas investigações fossem suspensas nos casos em que não houvesse suspeitas de crime.
Os Anais de Burton, também da época, registaram um grande número de vagabundos que morreram “de fome e inanição” devido à “escassez daqueles tempos”. Muitos deslocavam-se para vilas e cidades na esperança de receber esmolas. Londres atraiu muitos desses pobres desesperados, agravando a situação.
As Chronicles of the Mayors and Sheriffs of London registaram que “nesse ano, houve uma quebra nas colheitas, de que resultou uma fome tão grave que as pessoas das aldeias acorreram à cidade em busca de comida; e ali, à medida que a fome se agravava, morreram muitos milhares de pessoas; muitos milhares mais teriam morrido de fome se não tivesse chegado naquele momento cereal da Alemanha.”
Os Anais de Tewkesbury, uma crónica da época escrita pelos monges da Abadia de Tewkesbury, estimaram em 20.000 o número de mortos pela fome.
Morte e valas comuns
A mortalidade atingiu tal escala que Paris relatou que, “quando eram encontrados vários cadáveres, abriam-se nos cemitérios grandes e espaçosas covas e nelas eram colocados muitos corpos em conjunto”.
Essas “grandes e espaçosas covas” foram entretanto encontradas no hospital de St Mary Spital, em Londres. O sítio arqueológico de Spitalfields contém cerca de 2.300 esqueletos da década de 1250, associados tanto à seca de 1252 como à fome de 1257-58.
As erupções vulcânicas têm consequências globais e afetam vidas muito para além das suas proximidades.
Vulcões situados até no outro lado do mundo tiveram o poder de mergulhar a Europa medieval na escuridão, destruindo colheitas e vidas. É uma realidade que hoje não deve ser ignorada, conclui Alex Brown.