Uma família que seguia para o Porto Moniz ficou no meio da derrocada que, na passada quinta-feira, atingiu a Via Expresso, na zona do Seixal, tendo vivido momentos de extrema aflição. O carro onde seguiam Laura, o companheiro e os dois filhos estava parado no trânsito quando começaram a ouvir as pedras e os troncos a cair pela encosta.
A derrocada ocorreu na tarde de 20 de agosto, junto ao túnel da Ladeira da Vinha, e atingiu pelo menos três viaturas. A via esteve encerrada durante várias horas, tendo a circulação sido retomada no início da noite, depois de uma vistoria realizada por uma equipa de rocheiros da Direção Regional de Estradas.
Inicialmente, houve indicação de vários feridos, mas, segundo informação posteriormente transmitida ao JM pelo presidente da Câmara Municipal do Porto Moniz, apenas um homem ficou ferido, tendo sido assistido no Centro de Saúde do Porto Moniz e posteriormente encaminhado para o hospital.
No meio da ocorrência estava também a família de Laura e Márcio, que, através das redes sociais, divulgam o trabalho desenvolvido na área das limpezas de alojamento local, através do projeto Helplimpeza Madeira. Naquele dia, os quatro seguiam para o Porto Moniz para realizar um serviço.
A madeirense contou, num vídeo publicado nas redes sociais, os momentos vividos durante a fuga à derrocada. “Realmente pensámos que íamos morrer”, começa por dizer.
Segundo o relato, a família esteve cerca de cinco minutos parada no interior de um túnel, devido ao trânsito. Quando saíram, Laura começou a ouvir um ruído que inicialmente associou ao mar. “Eu comecei a ouvir um som muito estranho”, recorda. A janela estava aberta e a música tocava em volume baixo. Por isso, pensou que o barulho pudesse ser provocado pelo embate do mar nas rochas. Até que voltou a olhar para o exterior e reparou na reação do companheiro.
“Vejo-o meter primeira no carro e puxar o carro para a frente. E ele disse: ‘Temos que fugir porque vem aí uma derrocada’.”
Com o trânsito parado, prossegue, Márcio tentou fazer uma inversão de marcha para retirar a família da zona. Foi então que Laura percebeu que as pedras e os troncos estavam a cair cada vez mais perto. “As rochas estavam a rolar. Quando olho e vejo as rochas e troncos a cair lá em baixo, o som aproximava-se cada vez mais da gente. E a derrocada vinha ao nosso encontro.”
A manobra revelou-se difícil e o carro chegou a ficar preso. Enquanto Márcio tentava avançar e recuar para conseguir sair do local, começaram a ouvir-se pedras a bater no veículo. “Começámos a sentir as pedras a cair no telhado do nosso carro”, relata Laura, que não chegou sequer a pensar em fechar as janelas que estavam abertas.
Dentro do carro, os filhos gritavam e Laura pedia ao companheiro para fugir. “Só gritavam ‘o pai que fuja, o pai que fuja, salve a gente’.”
O medo estampado no olhar do companheiro fez aumentar o nervosismo, mas o condutor acabou por conseguir sair do local e a família passou entre dois veículos que estavam parados. Laura conta que, depois desse momento, perdeu a memória de parte do sucedido. “Não me lembro de mais nada, porque eu desmaiei.”
De acordo com Márcio e os filhos, Laura terá desmaiado cerca de cinco vezes. “Eu lembro-me que acordava, gritava e apagava novamente. Não tinha força no corpo, nada.”
Já depois de se afastarem da zona da derrocada, algumas das pessoas que também tinham conseguido fugir pararam para ajudar. Entre elas estava, segundo Laura, uma enfermeira, que a ajudou a controlar a respiração e recomendou que fosse levada ao Centro de Saúde de São Vicente.
Recebeu assistência nas urgências, onde, segundo o seu relato, foi medicada para as enxaquecas e para a ansiedade. A tensão arterial também estava elevada. O episódio motivou ainda um agradecimento à equipa que a recebeu. “A equipa das urgências de São Vicente foi fantástica, tiveram imensa calma comigo.”
Apesar de garantir que a família está bem, Laura admite que o episódio deixou marcas. “Eu pude viver o desespero de uma mãe e de um pai. Ouvir dois filhos, homens, chorando e gritando em desespero. E praticamente a gente não podia fazer muito.”
A própria diz continuar a sentir ansiedade quando atravessa zonas onde existem pedras junto à estrada. “Eu peço ao Márcio sempre para acelerar o carro nessas partes. Porque ainda me traz aquela ansiedade, aquele medo.”
No relato, Laura revela ainda que, nesse dia, mais duas familiares tinham ponderado acompanhá-los, mas acabaram por ficar em casa. “Por algum motivo eu disse-lhes que era melhor não virem”, conta.
Apesar do impacto da experiência, a família está bem e Laura diz querer continuar a vida normalmente.