Um filme de animação chinês de baixo orçamento, muito gozado pelos seus gráficos rudimentares, tornou-se um fenómeno viral. Os espectadores enchem as salas de cinema só para verem até que ponto é mau.
Na primeira semana após a estreia nos cinemas da China, no início de agosto, o filme de animação “Niu Lai“, que significa algo como “Aí vem a vaca“, arrecadou apenas cerca de 7.000 yuan (cerca de 855 euros).
Depois, as receitas dispararam.
Segundo a plataforma de venda de bilhetes Maoyan, as receitas do filme nas bilheteiras chinesas já tinham chegado esta semana aos 33,06 milhões de yuan — cerca de 4,4 milhões de euros.
O filme, feito por uma mãe e pelo filho, acompanha a viagem de um vitelo chamado Niu Lai. Os dois cineastas trabalharam durante cinco anos na película, fotograma a fotograma, e compuseram músicas originais.
Caelan Moriarty, músico norte-americano que trabalha na China, disse à AFP que o filme “é tão mau que se torna bom”.
“Gosto do quão mau é, mas nota-se que puseram algum coração naquilo, por isso não dá para odiar“, disse o jovem de 25 anos.
“A inteligência artificial poderia ter feito este filme em dez segundos ou até menos”, nota Moriarty, mas o facto de “não terem usado IA, de terem levado o seu tempo” impressionou-o.
“Não é perfeito. Mas é precisamente por não ser perfeito que é bom, mostra como é humano… e acho que é por isso que está a tornar-se viral.”
Com personagens 3D rígidas e diálogos pouco naturais, o filme acompanha a relação de Niu Lai com a mãe. O estilo pouco polido rapidamente se tornou viral nas redes sociais, com os fãs a adotarem as imperfeições como parte do seu encanto.
A estudante Stella Xing, que viu o filme em Pequim depois de encontrar memes na Internet, disse à AFP que “apesar de ser bastante tosco, há imensos pormenores engraçados, como a maneira de Niu Lai andar, por exemplo”.
“É hilariante e faz mesmo as pessoas quererem vir vê-lo”, acrescentou.
“Parte do seu encanto”
Nos cinemas de Pequim, faixas desenhadas à mão com vacas de aparência humana e sobrancelhas contrastavam fortemente com os cartazes lustrosos que promoviam o mais recente filme de Christopher Nolan, “The Odyssey”.
Quase não houve qualquer campanha de marketing convencional para promover o filme.
À medida que “Niu Lai” conquistava a Internet, com direto a gerador de memes e tudo, vendedores em plataformas online como a Taobao apressaram-se a produzir artigos com a vaca amarela, entre os quais T-shirts, figuras e até boxers.
Um vendedor contou à AFP que começou a vender porta-chaves de “Niu Lai” quando o filme se tornou um sucesso.
O filme oferece “algo diferente das produções polidas e sofisticadas a que estamos habituados”, diz Pan Wang, professora associada da University of New South Wales, na Austrália.
“É um pouco como comer cereais refinados todos os dias e, de repente, provar cereais integrais para variar. O próprio contraste sabe a algo refrescante”, acrescentou Wang. “A rudeza, o absurdo e a imperfeição tornam-se parte do seu encanto.”
Os filmes de animação têm feito grande sucesso na segunda maior economia do mundo.
O muito mais polido êxito de bilheteira chinês “Ne Zha 2” ultrapassou no ano passado “Inside Out 2”, da Disney, tornando-se o filme de animação com maior receita de bilheteira de sempre.