Foi um anúncio discreto. Uma semana antes, a Sony adiantava que teria de apagar 550 filmes das bibliotecas digitais dos utilizadores de consolas PlayStation, devido ao fim de um contrato de licença. Numa nova decisão polémica, a Sony diz ter decidido acabar com a produção física de videojogos — os jogadores deixarão, por isso, de ser donos do jogo, passando apenas a ser donos de uma licença para o jogar. No domingo, uma iniciativa criada por alguns jogadores, chamada “PlayStation Blackout”, deu início a uma semana de boicote para demonstrar o descontentamento da comunidade em relação aos planos da Sony.

Parte da experiência de ter uma PlayStation sempre passou por procurar os melhores negócios — seja a caçar promoções em lojas físicas, seja a comprar e vender títulos em segunda mão. Mas a mudança não se fica por aqui. Trocar jogos entre amigos vai também deixar de ser uma opção.

Agora, a pergunta que se impõe: o que é que isto significa na prática para os consumidores? Se a liberdade de escolha costuma beneficiar o cliente, os jogadores da consola ficarão sem essa alternativa a partir de 2028. Embora a Sony tenha promoções frequentes na sua loja virtual, a tendência geral dita que os títulos do catálogo mais antigo permaneçam à venda pelo preço original durante períodos muito mais longos do que nas superfícies comerciais.

Mas há uma mudança ainda maior em causa: o próprio conceito de propriedade. A nova natureza do modelo de consumo nestes produtos é detalhada nos termos e condições da marca — os mesmos que vários utilizadores do Reddit afirmam ter recebido por e-mail, acompanhados das cópias completas do regulamento.

Tem de ser um utilizador final para poder efetuar compras na PlayStation Store. Os revendedores, tal como por nós definidos a nosso exclusivo critério, estão proibidos. Ao encomendar ou adquirir um produto na PlayStation Store, está a adquirir uma licença pessoal para utilizar esse produto para fins privados e não comerciais. Essa licença não é transferível, a menos que as leis locais aplicáveis determinem o contrário. Isto significa que pode utilizar o produto das formas descritas na licença, mas não é proprietário do produto”, consta do ponto 8.4 dos termos.

As reações à notícia não tardaram e surgiram em várias frentes. Por um lado, jogadores insatisfeitos têm multiplicado publicações e vídeos de protesto em redes sociais como o TikTok e o YouTube. Por outro, marcas globais como a KFC e a Domino’s aproveitaram o momento para lançar anúncios irónicos, declarando a intenção de passar a disponibilizar os seus produtos exclusivamente para download. A resposta da Sony: silêncio.

Quanto à justificação oficial apresentada pela empresa, fala-se numa “evolução natural”.

Esta é uma evolução natural para a Sony Interactive Entertainment se adaptar às tendências dos consumidores, uma vez que a preferência geral pelos meios digitais ultrapassa significativamente a dos discos físicos. Esta transição permitir-nos-á alinhar-nos mais estreitamente com a forma como a maior parte da nossa comunidade prefere aceder aos jogos e jogá-los atualmente”, explica a empresa em comunicado.

Mas o outro motivo não é difícil de imaginar: custos. As vendas digitais já representam cerca de 80% dos jogos transacionados na plataforma PlayStation, segundo dados da Statista. O abandono do suporte físico reduz custos de produção, logística e distribuição e, como a Sony detém o controlo exclusivo da PlayStation Store, passa também a definir os seus próprios preços sem concorrência direta do retalho tradicional. Mais: abre caminho para consolas futuras que, sem necessidade de ter leitores de discos incluídos, se tornam mais baratas de produzir.

Este tema cruza-se, aliás, com outros processos que a empresa enfrenta. A iniciativa “Stop Killing Games”, que combate o encerramento de servidores sem alternativas para os utilizadores, aliou-se a uma ação judicial na Holanda movida pela associação de consumidores Stichting Massaschade & Consument. De acordo com o site Tech Insider, o processo, que decorre desde 2025 e representa 1,7 milhões de jogadores locais, acusa a Sony de abuso de posição dominante e monopólio na PlayStation Store.

Longe parecem ter ficado os tempos em que a postura da empresa era outra. Em 2013, quando a Microsoft tentou fazer do Xbox One a primeira consola focada no ecossistema digital — aplicando restrições à partilha e revenda de jogos —, a Sony aproveitou o momento para ironizar a decisão da concorrência. Foi por isso que lançou um vídeo de apenas 20 segundos a demonstrar como era simples o processo de emprestar um jogo, em disco, na PlayStation 4.

[O espião português suspeito de vender segredos à Rússia voa para Roma e as autoridades estão determinadas a apanhá-lo em flagrante a passar informações a um agente de Moscovo. “A vida dupla do espião traidor” é o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pelo ator Ivo Canelas, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo.]