A tradição de fechar a bolsa ao final da tarde tem os dias contados, mas a promessa de mais flexibilidade traz também novos riscos para quem investe, sobretudo para os pequenos investidores.
- Pressionadas pelo avanço implacável das corretoras digitais e das criptomoedas, as bolsas tradicionais sacrificam agora as pausas para garantir um mercado sempre aberto.
- Abolir o período de descanso submete os pequenos aforradores a mercados muito finos onde os algoritmos reinam e ditam a subida drástica do risco e da volatilidade.
- Numa atitude que contrasta com a euforia norte-americana, a Euronext escolhe a vigilância prudente em vez de atirar os aforradores europeus para um vazio noturno.
Comprar ações às 3 horas da manhã deixou de ser um exercício teórico para se tornar um cenário em fase avançada de preparação nas principais bolsas mundiais. Depois de décadas com horários curtos e regras bem definidas, os operadores de mercado começam a testar um novo modelo em que o fecho das bolsas deixa de ser a norma e passa a ser cada vez mais residual.
A mudança está a avançar mais rápido do que a generalidade dos investidores esperava há cinco anos, e essa aceleração levanta questões sobre liquidez, proteção dos pequenos investidores e o papel dos sistemas automáticos de negociação num mercado sem pausas fixas.
A Bolsa de Londres, que ainda hoje fecha às 16h30, anunciou há dias a LSE 24, uma plataforma paralela para negociação noturna, com arranque previsto para 2027, que irá funcionar das 17h00 às 07h50 de Londres, com uma pausa de meia hora para “arrumar a casa”.
Os produtos cotados em bolsa (Exchange-Traded Product ou apenas ETP) serão os primeiros instrumentos a ser negociados na nova plataforma da bolsa londrina, devido à forte procura mundial por este tipo de produto, mas Julia Hoggett, presidente executiva do grupo, admite que, “a prazo”, os mesmos valores negociados no mercado principal possam acabar ali também.
Será possível comprar uma ação às 3 horas da manhã, mas o sistema que garante a segurança dessa transação ainda está, em boa parte, a funcionar em modo reduzido, alerta a Blarckrock.
A Bolsa de Londres não está sozinha nesta corrida contra o tempo. Pelo contrário, junta-se a um pelotão cada vez mais nutrido:
- A Bolsa de Nova Iorque (NYSE) quer expandir a sua plataforma Arca para uma negociação praticamente contínua, com uma proposta aprovada pelo regulador do mercado de capitais norte-americano (SEC) em fevereiro.
- A Nasdaq confirmou junto dos reguladores norte-americanos a intenção de avançar de forma gradual para um modelo de negociação continuada, cinco dias por semana. O primeiro passo desta estratégia arranca já a 6 de dezembro com uma nova sessão de negociação noturna, das 21h às 04h.
- E a A Cboe Global Markets (antiga Chicago Board Options Exchange e maior bolsa de opções dos EUA) já anunciou planos semelhantes para a sua plataforma EDGX, depois de a bolsa de Chicago, ter já avançado com um modelo de negociação 24 horas por dia, sete dias por semana, dedicado a derivados de criptoativos.
O horário limitado das bolsas não resulta de um capricho institucional, mas de uma necessidade operacional concreta: garantir tempo para liquidar, compensar e processar transações antes de o dia seguinte trazer nova avalanche de ordens.
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A Bolsa de Nova Iorque, fundada com sessões de cerca de 5 horas por dia no século XIX, só adotou a negociação contínua em 1871, mantendo ainda assim limites horários bem definidos. Nos EUA chegou a haver sessões ao sábado até 1952, o que mostra que o calendário bolsista sempre foi ajustável, mas nunca ilimitado.
A lógica que sustentou esse desenho tinha três objetivos: proteger a integridade do preço, dar tempo às empresas para divulgar resultados antes da abertura e permitir que os sistemas de compensação confirmassem que o dinheiro e os títulos realmente mudavam de mãos. Essa arquitetura mantém-se praticamente intacta, e é precisamente nesse ponto que a expansão para negociação de 24 horas encontra o seu maior obstáculo técnico.
Um relatório da Blackrock sobre este tema refere que a infraestrutura que sustenta as bolsas — os sistemas de reporte de transações, as câmaras de compensação, os fornecedores de dados consolidados — continua a operar dentro de janelas horárias fixas, deixando um “fosso” noturno em que a transparência e a garantia de liquidação não existem da mesma forma que durante o dia. Isto significa que é possível comprar uma ação às 3 horas da manhã, mas o sistema que garante a segurança dessa transação ainda está, em boa parte, a funcionar em modo reduzido.
A fragmentação da liquidez aumenta a volatilidade, expondo os pequenos investidores a decisões precipitadas por notícias noturnas, precisamente num momento em que dispõem de menos mecanismos de proteção.
O modelo de sessões limitadas não é uma particularidade anglo-saxónica. A Bolsa de Lisboa, integrada na Euronext em 2022, começou a funcionar oficialmente em 1769, no Torreão Nascente da Praça do Comércio, num edifício erguido de propósito depois do terramoto de 1755 — quase um quarto de século antes da fundação da Bolsa de Nova Iorque. Há ainda registos de negociações informais de títulos e obrigações do Tesouro na antiga Rua Nova de Lisboa que remontam ao século XIII.
Mesmo essa bolsa setecentista, com negociação feita em papel, operava com sessões limitadas a um horário fixo, pela mesma razão que levaria mais tarde Londres e Nova Iorque a adotar o mesmo modelo: garantir tempo, entre o fecho e a abertura do dia seguinte, para confirmar preços e liquidar operações sem sobressaltos.
Atualmente, a Euronext Lisboa mantém uma sessão contínua entre as 8h00 e as 16h30, precedida por um leilão de abertura a partir das 7h00 e seguida de cinco minutos adicionais para negociação ao preço de fecho — um desenho semelhante ao de outras praças europeias. É um horário modesto quando comparado com os planos anunciados por Londres ou Nova Iorque, mas que continua a seguir a lógica original de dar tempo à liquidação, à divulgação de informação e à reflexão antes de o preço de uma ação determinar o valor de uma poupança.
Regulada desde 1801 e com origens que remontam a 1698, a Bolsa de Londres prepara-se para testar a negociação quase contínua. A LSE 24 deverá entrar em fase de testes com clientes ainda em 2026, com acesso inicial a produtos cotados que replicam índices do Reino Unido e dos EUA, mas a intenção é alargar a negociação contínua a outros ativos.
A armadilha noturna das bolsas que nunca dormem
A lista de bolsas que avançam para regimes de negociação alargada cresce a grande velocidade a cada trimestre. Além da NYSE, da Nasdaq e da Cboe, há já plataformas alternativas em funcionamento, como a Blue Ocean ATS, que opera entre as 20h00 e as 4h00 de Nova Iorque e tem vindo a ganhar popularidade, como mostram, por exemplo, os 3,27 mil milhões de dólares de volume numa única sessão na noite das últimas eleições presidenciais norte-americanas, com forte participação de investidores asiáticos.
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Esse detalhe — o investidor asiático que procura negociar ações norte-americanas dentro do seu próprio horário de trabalho — é apontado como um dos principais fatores que legitimam o movimento de expansão horária. Para Giovanni Andrea Incarnato, responsável global de consultoria para serviços financeiros da EY, em declarações ao jornal italiano Il Sole 24 Ore, esta corrida representa “uma resposta estratégica à pressão competitiva das plataformas cripto e dos corretores digitais”, que há anos oferecem acesso contínuo aos mercados, criando um risco de desintermediação dos fluxos de retalho para espaços abertos sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia.
A par do investidor internacional, a expansão horária abre também a porta a um participante tecnicamente mais complexo, que são os sistemas de negociação algorítmica, que operam sem pausas e reagem a alterações de preço em frações de segundo. É nesse ponto que a análise técnica da Blackrock identifica como sendo o principal fator de risco associado à negociação noturna.
Estratégias de longo prazo e assentes em análise fundamental dispensam mercados abertos 24 horas, uma vez que as decisões não exigem alterações tomadas à pressa durante a madrugada.
O estudo da Blackrock revela que, nos ETF da iShares mais negociados, os spreads entre a cotação de compra e venda ficam, em média, quase dez vezes mais largos durante a sessão noturna do que em horário normal, chegando a ser onze vezes mais amplos em produtos como o iShares Semiconductor ETF. Este dado reflete uma realidade estrutural: como à noite há muito menos participantes ativos no mercado, qualquer ordem, mesmo de pequena dimensão, pode alterar o preço de forma desproporcional.
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Os analistas descrevem esta condição como um “mercado fino”, em que a menor liquidez torna os preços mais vulneráveis a oscilações abruptas. É precisamente nesse contexto que os sistemas de negociação algorítmica de alta frequência, hoje responsáveis por uma fatia muito significativa do volume negociado globalmente, passam a representar um risco adicional.
Estudos sobre negociação algorítmica, como o paper escrito por Didier Sornette e Susanne von der Becke, indicam que estes sistemas tendem a melhorar a liquidez e a formação de preços em condições normais de mercado. No entanto, a mesma velocidade de reação que gera eficiência num dia normal pode amplificar significativamente episódios de instabilidade quando a liquidez escasseia, como aconteceu no “Flash Crash” de 2010, quando a retirada súbita de participantes algorítmicos criou um vazio de liquidez quase instantâneo.
Numa sessão noturna, com menos participantes ativos e menos fornecedores de liquidez em funcionamento, esse tipo de vazio tende a deixar de ser uma exceção pontual e a tornar-se uma característica recorrente. A fragmentação da liquidez tende a aumentar a volatilidade, expondo os pequenos investidores menos estruturados a decisões tomadas em resposta a notícias noturnas, precisamente num momento em que dispõem de menos mecanismos de proteção.
Notificações de madrugada são isco para capturar investidores incautos
Os analistas da Blackrock chamam ainda a atenção para uma limitação técnica adicional: as redes de segurança do mercado, como os travões automáticos que suspendem a negociação quando uma ação ou o mercado como um todo regista uma queda desordenada, foram concebidas para sessões com um princípio e um fim bem definidos.
Num regime de 24 horas, ainda está por definir como estes mecanismos deveriam funcionar de forma coordenada e permanentemente ativa. Esta lacuna alimenta uma distinção que tem vindo a ganhar espaço no debate sobre o tema: a diferença entre a lógica de investimento tradicional, orientada para o longo prazo, e comportamentos de negociação de curto prazo associados a uma procura constante por oscilações de preço.
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Um investidor com uma estratégia assente em horizontes longos e em análise fundamental não depende, em princípio, de um mercado aberto 24 horas por dia, uma vez que essas decisões não se alteram de forma significativa entre as 3h47 da madrugada e as 11h da manhã seguinte.
Há dados que sustentam esta distinção. Um estudo académico de Hugo Ljungkvist e Marcus Moore, da Universidade de Umeå, sobre gamificação e comportamento de investidores concluiu que interfaces desenhadas para recompensar a negociação frequente — notificações, elementos visuais de celebração, tabelas de classificação — alteram efetivamente o comportamento dos investidores de retalho, conduzindo-os a realizar mais transações e a tomar mais risco do que aquele que declarariam preferir se questionados diretamente.
A Comissão de Valores Mobiliários do Ontário, num relatório dedicado ao tema, reconhece que a gamificação tem “casos de uso positivos”, mas identifica riscos claros de indução a comportamentos prejudiciais quando a fricção da decisão é artificialmente reduzida.
O horário das bolsas nunca foi um detalhe menor, mas a peça que garantiu tempo para confirmar preços, liquidar operações e evitar que o pânico se instalasse antes de haver dados suficientes para o justificar.
A Robinhood, plataforma pioneira na negociação quase contínua, foi acusada judicialmente de utilizar técnicas que aproximavam a experiência de investimento de uma lógica de jogo, sem as barreiras que tradicionalmente obrigavam à reflexão antes de cada decisão de compra ou venda.
Os mercados que já funcionam em regime de negociação contínua ou quase contínua oferecem um retrato do que pode acontecer nas bolsas tradicionais. Nos contratos por diferença (CFD) — instrumentos negociados fora de bolsa usados para especular sobre moedas, índices, matérias-primas, ações ou criptoativos sem deter o ativo subjacente — os dados são desfavoráveis à maioria dos investidores de retalho.
A Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) apurou que entre 74% e 89% das contas de retalho perdiam dinheiro nestes instrumentos. No universo dos criptoativos, onde a negociação decorre de forma ininterrupta e à escala global, o padrão repete-se.
Quando a memecoin ligada a Donald Trump ($TRUMP) perdeu valor, quase um milhão de carteiras digitais acumularam perdas superiores a 3,8 mil milhões de dólares, com cerca de dois em cada três compradores a perderem dinheiro. Este tipo de resultado é consistente com o que analistas e investigadores identificam como um efeito estrutural de dar acesso permanente a instrumentos voláteis a investidores particulares expostos, sem interrupção, à tentação de reagir a cada oscilação de preço, incluindo durante a madrugada.
Entre a pressão competitiva das bolsas de Londres e Nova Iorque, e a proteção dos pequenos investidores, Stéphane Boujnah, CEO da Euronext, assume uma posição intermédia, notando que a gestora pan-europeia acompanha de perto a corrida à negociação contínua, admite avançar se o mercado o exigir, mas lembra que não se trata de “um ginásio que pode ficar aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana”, mas um sistema “bem mais complexo”.
Ricardo Castelo/ECO
Corrida atlântica que as bolsas europeias não podem perder
Nem todos os efeitos da negociação contínua são apontados como negativos. Investidores institucionais globais, fundos que gerem risco através de diferentes fusos horários e emitentes de ETF que replicam índices internacionais beneficiam de poder ajustar posições em tempo real quando ocorre um choque geopolítico ou uma decisão de política monetária do outro lado do mundo.
É esse um dos motivos que explica por que razão a LSE optou por começar cautelosamente pelos produtos indexados mais líquidos, evitando numa primeira fase as ações individuais mais obscuras.
Este fenómeno é descrito por especialistas do setor como “negociação agêntica”, sistemas de inteligência artificial que operam sem supervisão contínua e que, precisamente por isso, requerem mercados permanentemente disponíveis, uma vez que não têm horário de almoço nem necessitam de dormir.
Este argumento aplica-se, sobretudo, a sistemas automatizados e a grandes instituições com departamentos dedicados à gestão de risco, um perfil bem distinto do pequeno investidor que decide comprar mais um lote de ações de empresas como a Nvidia ou a Coca-Cola antes de se deitar, convencido de estar a aproveitar uma oportunidade, quando na prática está a negociar contra um spread significativamente mais largo e contra sistemas que reagem em milissegundos.
À medida que mais bolsas tradicionais se aproximam do modelo de negociação contínua ganham relevância os desafios já identificados, com destaque para a liquidez reduzida em determinados períodos e spreads mais alargados.
Há também um argumento de natureza estrutural associado a este debate. Se os EUA avançam isoladamente para um regime quase permanente de negociação e a Europa mantém uma postura mais cautelosa, o capital e a atenção dos investidores tendem a deslocar-se para onde a liquidez e a flexibilidade horária já existem. Isso poderia, a prazo, reduzir ainda mais a atratividade das bolsas europeias, já afetadas por um número limitado de novas cotações e por menor disponibilidade de capital de risco.
É perante esta ameaça competitiva que a Euronext, a gestora pan-europeia que integra a Bolsa de Lisboa, se tem posicionado, adotando uma observação atenta, mas sem fechar a porta à inevitabilidade do mercado. Numa recente entrevista à CNBC, Stéphane Boujnah, presidente executivo da Euronext, admitiu ser “um pouco mais cauteloso” face à negociação de 24 horas, sublinhando que a operadora está a monitorizar de perto os desenvolvimentos internacionais, e que está a trabalhar em “algumas ideias” para ativos digitais.
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Contudo, essa cautela estratégica europeia não deve ser confundida com resistência à mudança. Ao ECO, a Euronext refere que a operadora pan-europeia “já oferece horários de negociação alargados em várias classes de ativos, incluindo a negociação de ações até às 20h30 [sessão de negociação prolongada Trading After Hours] e também no mercado de matérias-primas agrícolas desde abril de 2026.” Mas a ideia será ir mais longe.
Em maio, Stéphane Boujnah referiu que a Euronext “estará pronta” para avançar caso a procura por negociação ininterrupta efetivamente cresça e se consolide, mas alertou que a negociação totalmente contínua enfrentaria limitações práticas, principalmente no processamento das transações, alertando que a ausência de um horário de negociação “não é um ginásio que pode ficar aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana. É um pouco mais complexo”.
É esse equilíbrio entre proteger o investidor de retalho e evitar perder relevância face à concorrência internacional e às plataformas de criptoativos que explica a opção da LSE lançar a LSE 24 como uma plataforma separada do mercado principal, restrita inicialmente a produtos indexados e operando através de cotações solicitadas a corretores, em vez de um livro de ordens central aberto a qualquer tipo de ordem.
À medida que mais bolsas tradicionais se aproximam do modelo de negociação contínua utilizado no mercado cambial e nas plataformas de criptoativos, ganham também relevância os desafios já identificados nesses mercados: liquidez reduzida em determinados períodos, spreads mais alargados e um maior grau de exposição para investidores de retalho que operam sem o mesmo enquadramento de gestão de risco disponível às instituições financeiras.
Da Praça do Comércio às plataformas digitais que hoje negoceiam ao longo da noite, a história das bolsas mostra que o horário nunca foi um detalhe menor, mas a peça que garantiu tempo para confirmar preços, liquidar operações e evitar que o pânico se instalasse antes de haver dados suficientes para o justificar.
É essa peça que está agora a ser reescrita, num movimento liderado pela concorrência das plataformas de criptoativos e pela pressão de reguladores e investidores institucionais. O desafio que se segue, segundo os especialistas, será garantir que a rapidez do novo modelo não avança mais depressa do que a capacidade dos mercados para proteger quem neles investe.