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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como se explicam as inúmeras avarias nas escadas rolantes e nos elevadores do metro de Lisboa? Chegar e sair da teia subterrânea de Lisboa tornou-se num exercício desgastante para vários passageiros. No Metropolitano da capital portuguesa, encontra-se por várias vezes a frase “fora de serviço”. E se procurar uma alternativa no elevador, aí as avarias ainda são mais recorrentes. A solução é a velhinha escada, mas isto pode ser um problema para idosos e para pessoas com mobilidade reduzida. O Observador foi recolher dados e encontrámos escadas rolantes avariadas há mais de três anos e meio e, nos elevadores, chegaram a estar parados 30% dos equipamentos. Em fevereiro deste ano, contabilizavam-se 40 escadas rolantes avariadas e 38 elevadores parados nas estações do metro de Lisboa. A situação tem vindo a melhorar, mas ainda há problemas por resolver e alguns estão a tornar-se crónicos. Nesta altura, a gestão do metro procura diferentes soluções para resolver os problemas e está a estudar formas de prevenir as avarias no futuro. Recebemos a Ana Suspiro, jornalista do Observador, que fez uma vasta investigação sobre as acessibilidades no Metropolitano da capital portuguesa. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia, de segunda-feira, 24 de agosto. Olá, Ana.

Olá, Miguel.

Subiste muitas escadas a pé nestas últimas semanas, nessa investigação às acessibilidades do metro de Lisboa.

Subi algumas, mas eu, fora da minha vida profissional, sou uma utilizadora regular do metro, portanto, é uma experiência que eu já tinha vivido.

Pois, e que é quase necessária para andar de metro em Lisboa, até porque o que vamos falar aqui mostra que, de facto, há grandes problemas nas acessibilidades ao Metropolitano. Vamos falar aqui do que o Observador encontrou. Há dados desde o início do ano, e os dados do início do ano mostram esse cenário mais preocupante. Desde então, tem existido uma melhoria. Nós já vamos falar dessa melhoria, mas há de facto muitos problemas. Para começar, vamos a números. Estamos a falar de uma vasta rede de escadas rolantes, tapetes e também elevadores.

Sim, estamos a falar daquela que provavelmente será, não temos a certeza, mas uma das maiores redes portuguesas em Portugal deste tipo de equipamentos. São 234 escadas, 10 tapetes e 133 elevadores. Estão distribuídos por 46 estações, portanto, há estações do metro que não têm nenhum equipamento. São poucas, algumas na linha azul, mas existem. E depois estamos a falar de equipamentos que atravessam várias gerações, várias gerações de modelos, têm várias idades, têm vários fabricantes. Portanto, é difícil tu fazeres a gestão de um equipamento tão diverso.

Sim.

E eu gostava também de dizer aqui uma coisa, isto que acontece no metro, também acontece nos comboios suburbanos. Talvez até seja pior, mas é mais difícil nós conseguirmos os dados. E no metro foi possível, e eles colaboraram conosco e deram-nos a informação.

Sim, portanto, temos idades diferentes, modelos diferentes, fabricantes diferentes, tudo isto acaba por complicar ainda mais as soluções, mas de facto tornou-se comum encontrar equipamentos avariados. Quando é que o problema começou a tornar-se gritante?

Olha, eu acho que todos nos apercebemos disso no dia a dia, mas eu só fiquei com essa noção quando a atual presidente do Conselho de Administração do Metro, a Cristina Vaz Tomé, foi ao Parlamento e foi questionada sobre este tema no início do ano, e ela deu números que me surpreenderam. Portanto, ela disse que havia, até mais ou menos 2020, 2019, percentagens de avarias na casa dos 5%.

Sim.

E depois, a partir dessa altura, coincide um pouco também com a pandemia, mas a seguir, a partir de 2021, 2022, as taxas começam a crescer, duplicam e chegam quase praticamente a triplicar e atingem valores 20%. Portanto, há, de facto, um agravamento consistente ao longo dos anos até chegarmos a 2026.

E foi aí que chegou esta pior fase, podemos dizer assim. Quantos equipamentos é que estavam avariados? Quantos é que foram identificados neste primeiro trimestre de 2026?

O pico foi fevereiro. Dos dados que o Metropolitano nos forneceu, foi o pior mês. Havia 30% dos elevadores avariados e 17% das escadas rolantes paradas. Nós estamos a falar em toda a rede do metro, de 40 escadas e 38 elevadores. E muitos destes equipamentos estavam parados há mais de um ano.

Pois. Portanto, estamos a falar de praticamente um em cada quatro, no caso dos elevadores, e um em cada cinco, no caso das escadas, parados nesse período, fevereiro, março.

É, porque tu tinhas dois sinais de agravamento do problema.

Sim.

Tinhas o número de equipamentos avariados e depois tinhas o longo período de tempo em que eles estavam avariados. Havia essa dupla situação.

Nós já voltamos a esta conversa com a Ana Suspiro, fazemos apenas uma curta pausa. Estamos de regresso à História do Dia. Ana, nós estávamos aqui a fazer a contagem das avarias no início deste ano, que foi em parte o pior período O que explica este volume de avarias todas ao mesmo tempo, desta dimensão?

Nós não conseguimos encontrar uma explicação, mas temos aqui algumas situações que nos ajudam a perceber o que pode ter acontecido. Obviamente que existe a decadência normal destes equipamentos, que são extremamente utilizados, são usados 18 horas por dia de forma intensiva, mas o que nós verificamos coincidiu com o período em que o Metropolitano de Lisboa fez um contrato único de manutenção com uma empresa, que era um contrato anual, que foi prolongado durante mais ou menos cinco anos. Aquilo entrou em vigor salvo erro em 2021 e terminou precisamente no final de 2025. Era uma espécie de contrato chave na mão. E durante esse período, de facto, nós assistimos a um agravamento do problema de avarias.

Portanto, era só uma empresa a tratar das avarias todas.

Exatamente. Há também outros sinais que nós podemos aqui apontar. Sobretudo na fase final de vigência deste contrato, nós tivemos uma administração do Metropolitano reduzida, primeiro a três pessoas, portanto, de cinco para três, e depois a duas pessoas durante vários meses, o que significa que o acompanhamento desta situação, se calhar, também não foi aquele que teria sido em circunstâncias normais.

A situação tem vindo a melhorar, principalmente desde esse período mais gritante, fevereiro, início de março. Por quê? O que mudou? Foi a questão dos contratos? Foi também a direção?

Foi tudo. Portanto, há aqui uma coincidência. O tal contrato com o fornecedor termina. Também há uma nova administração do Metro, que está consciente do problema, obviamente que fez este levantamento. Mudou muitas coisas. Começou logo por escolher vários fornecedores, em vez de um só.

Abrir um contrato para cada uma das avarias?

Exato. Ou seja, fizeram vários contratos para vários equipamentos.

Certo.

De curta duração, um ano, enquanto estão a tentar perceber qual é a melhor solução para resolver os problemas de manutenção. E por quê? Porque já em 2024, a anterior administração do Metro tinha reconhecido que havia um problema. E fez um comunicado a explicar algumas das coisas que eu acabei aqui de dizer, sobretudo a dificuldade de encontrar fornecedores, peças, e estavam a trabalhar num projeto-piloto. Só que os projetos-piloto demoram o seu tempo a produzir resultados. Portanto, o que esta administração do Metro fez: vamos aqui ganhar algum tempo para decidir o que é que vamos fazer, vamos ter vários fornecedores com contratos de um ano e vamos fiscalizar de forma muito próxima o que está a acontecer em termos de avarias e o que está a ser feito para reparar essas avarias. Passaram a estar em cima do acontecimento e a ter, inclusive, um membro da administração regularmente a olhar para os mapas para ver quantos elevadores, onde é que os elevadores e as escadas estão avariadas, há quanto tempo, o que é que está a ser feito para ser reparado. Há um acompanhamento muito maior.

Eu ia, de facto, a esse ponto, que era o que está o Metro a fazer para continuar a corrigir esta situação, para prevenir avarias no futuro. Até já estavas a falar aí de alguns projetos-piloto que possam mudar a forma como tudo isto é feito.

Exatamente. Há um projeto-piloto para duas estações, que entrou em vigor este ano, que está a funcionar. Tu vais perceber por que são estas duas estações, acho eu, é a Baixa-Chiado e o Aeroporto. A Baixa-Chiado é aquele lance interminável de escadas. Quer o Aeroporto, quer a Baixa-Chiado têm o quê? Muitas pessoas, muitos passageiros e, do ponto de vista reputacional, são sensíveis para a rede do metro, porque têm muitos turistas.

Claro.

Então escolheram essas duas, que estão introduzidas neste projeto-piloto, que foi contratado com uma empresa, que tem uma monitorização muito mais atenta do que se está a passar. Inclusive, têm piquetes de vigilância disponíveis durante 24 horas. Não estou a dizer que eles estão lá 24 horas, mas se houver um problema, eles estão disponíveis para atuar e resolver as avarias.

Ainda antes de terminar, há aqui um caso que é do Cais do Sodré, onde há uma escada rolante avariada desde 2019, e aqui nem é propriamente uma questão de contratos, é mais um impasse que temos entre as entidades.

É, de facto, um bom exemplo, que se calhar ajuda a explicar outros casos que nós nos deparamos com outros equipamentos de outros operadores. Há umas escadas rolantes no Cais do Sodré que estão paradas desde 2019, porque aparentemente há uma divergência entre a IP, Infraestruturas Portugal, que gere a estação de comboios, e o metro, de quem é a responsabilidade pelas escadas. E como te disse, se este trabalho tivesse sido feito nas estações suburbanas de comboios, acho que os resultados ainda seriam mais complicados, pelo menos em termos de tempo, de equipamentos parados.

Certo, mas aqui temos um caso já com muitos meses de paragem. Para terminar, Ana, para resolver esta situação, para além de encontrar estas soluções alternativas e criar aqui diferentes contratos para diferentes empresas, procurar projetos-piloto, soluções diferentes, no final do dia, vai ser sempre preciso gastar mais dinheiro, certo?

É esse o resultado do que temos visto até agora. Portanto, este projeto-piloto que te falei para duas estações, está previsto custar este ano 1,2 milhões de euros. Este valor é superior àquilo que o Metro pagou, por exemplo, no ano passado, àquele fornecedor único de manutenção, que fazia a manutenção da rede toda. Portanto, para duas estações. E corresponde mais ou menos a todos os custos que o metro teve que suportar no ano passado com a manutenção e reparação destes equipamentos em toda a rede. E são duas estações. Obviamente que a empresa vai ter que olhar para os dois lados da equação e ver custo, benefício e até onde é que pode, e se faz sentido implementar uma coisa tão completa em todas as estações da rede. Se calhar não faz sentido, mas o metro quer, de facto, introduzir um novo modelo de manutenção já mais definitivo a partir do próximo ano.

Obrigado, Ana.

Obrigada eu, Miguel.

Ana Suspiro é jornalista do Observador. Assina um especial interativo em observador.pt sobre este tema, juntamente com o Miguel Farias Cabral e a Beatriz Martins. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Tomás Ferreira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.