Levantamento da Plataforma DRG Brasil, do Grupo IAG Saúde, mostra que o impacto do câncer de pulmão sobre a assistência hospitalar vai além das internações diretamente provocadas pela neoplasia. Entre 2021 e 2025, o levantamento identificou 26.309 internações em que o câncer de pulmão foi registrado como motivo da internação e outras 24.028 hospitalizações de pacientes com a doença internados por outros motivos.

Considerados os dois recortes, foram analisadas mais de 50 mil internações, que representaram aproximadamente R$ 885 milhões em custos assistenciais no período. Nas internações diretamente atribuídas ao câncer de pulmão, o custo médio foi de cerca de R$ 16 mil, totalizando R$ 417,3 milhões. Entre os pacientes hospitalizados por outros motivos, o custo médio chegou a R$ 19,8 mil, com um total de R$ 467,9 milhões.

A pesquisa também utilizou informações do DataSUS para ampliar a análise das hospitalizações por câncer de pulmão no SUS.

Metástase: mortalidade hospitalar mais que dobra

Entre as 26.309 internações diretamente atribuídas ao câncer de pulmão na plataforma, a mortalidade hospitalar foi de 20,8%. Nos casos com registro de metástase, porém, esse percentual chegou a 37,9%, mais que o dobro dos 17,1% observados nas internações sem esse registro. A presença de metástase foi identificada em 17,7% das hospitalizações analisadas.

A mortalidade também aumentou progressivamente com a idade: foi de 16,5% entre pacientes de 18 a 59 anos e alcançou 27,6% entre aqueles com 80 anos ou mais. Entre os homens, a taxa foi de 22,9%, frente a 18,7% entre as mulheres.

Além disso, 28,2% das internações diretamente atribuídas ao câncer envolveram utilização de CTI (Centro de Terapia Intensiva), 12,8% tiveram uso de ventilação mecânica e a permanência média foi de 7,1 dias.

“A diferença de mortalidade entre as internações com e sem registro de metástase mostra como a presença de doença metastática identifica um grupo de maior gravidade no ambiente hospitalar. Esse achado reforça a importância do diagnóstico oportuno e de uma linha de cuidado capaz de acompanhar o paciente ao longo de toda a evolução da doença. Os dados, entretanto, não permitem afirmar em que momento a metástase surgiu nem se houve atraso diagnóstico”, explica Paula Daibert, diretora de Inovação do Grupo IAG Saúde.

Quando o câncer de pulmão não é o principal motivo da internação

Um dos diferenciais do levantamento foi analisar o que acontece quando o paciente com câncer de pulmão chega ao hospital, mas a neoplasia não é o principal motivo registrado da internação.

Foram identificadas 24.028 hospitalizações nessa situação, volume próximo às 26.309 internações diretamente atribuídas ao câncer de pulmão. Em 44,5% delas, o principal motivo da hospitalização foi classificado em grupos potencialmente relacionados ao câncer, à doença metastática ou ao tratamento.

As infecções representaram 22,5% das internações, seguidas por condições respiratórias (8,4%), metástase como principal motivo da hospitalização (7,1%), condições relacionadas ao tratamento ou estado oncológico (3,9%) e eventos tromboembólicos (2,7%). Os demais 55,5% foram classificados como outras condições clínicas.

Dois recortes, diferentes demandas assistenciais

“Olhar apenas para as internações em que o câncer aparece como diagnóstico principal mostra somente parte da trajetória hospitalar desses pacientes. O volume quase equivalente de hospitalizações por outros motivos, associado à maior permanência e ao maior custo médio, sugere uma carga assistencial que se estende para além do tratamento direto do tumor. Infecções, complicações respiratórias, metástases e intercorrências do tratamento fazem parte desse cenário e exigem acompanhamento integrado”, pontua Paula.

DataSUS amplia a dimensão nacional do problema

Como fonte complementar, o DataSUS/SIH-SUS permitiu dimensionar as internações diretamente atribuídas ao câncer de pulmão no SUS. Entre 2016 e 2025, foram registradas 261.662 internações pela doença.

A análise revelou diferenças regionais importantes. A região Sul apresentou a maior incidência de internações, com 23 casos por 100 mil habitantes. Já a região Norte registrou a maior mortalidade hospitalar, de 32,7%, e a maior permanência média, de 9,3 dias.

No período de 2021 a 2025, utilizado para garantir correspondência temporal com a Plataforma DRG Brasil, o DataSUS registrou 140.616 internações, com mortalidade hospitalar de 25,1% e permanência média de 6,8 dias. Tomando como referência o custo médio por internação apurado na Plataforma DRG Brasil, estima-se uma carga assistencial de aproximadamente R$ 2,25 bilhões. O valor é uma projeção da magnitude econômica e não corresponde ao montante efetivamente desembolsado pelo SUS.

“Os dados nacionais mostram que o câncer de pulmão permanece associado a uma carga hospitalar expressiva e a diferenças relevantes entre os territórios. Essas variações reforçam a necessidade de compreender os contextos regionais de acesso, organização da assistência e perfil dos pacientes, sem atribuir causalidade apenas a partir dos dados de internação”, diz a diretora.

Um desafio que ultrapassa o tratamento da neoplasia

Em conjunto, os resultados apontam para uma carga hospitalar expressiva associada ao câncer de pulmão. Além da mortalidade e dos custos das internações diretamente atribuídas à doença, o levantamento evidencia uma dimensão adicional: pacientes com câncer de pulmão também demandam assistência hospitalar por infecções, condições respiratórias, metástases, eventos tromboembólicos, intercorrências relacionadas ao tratamento e diversas outras condições clínicas.

“O cuidado do paciente com câncer de pulmão não termina no tratamento da neoplasia. A prevenção, o diagnóstico oportuno e o acompanhamento contínuo das complicações e demais condições clínicas são fundamentais para reduzir a carga da doença sobre pacientes, famílias e serviços de saúde. As datas de conscientização de agosto são uma oportunidade para ampliar essa discussão e reforçar a importância do combate ao tabagismo e do cuidado ao longo de toda a trajetória do paciente”, conclui Paula.

O levantamento

O estudo é observacional, retrospectivo e descritivo. Foram consideradas internações com registro de neoplasia maligna dos brônquios e dos pulmões (CID-10 C34). A Plataforma DRG Brasil foi analisada entre 2021 e 2025 e o DataSUS/SIH-SUS, entre 2016 e 2025. As duas fontes possuem coberturas e características distintas e foram utilizadas de forma complementar.

O levantamento analisou separadamente as internações em que o câncer de pulmão era o diagnóstico principal e aquelas em que aparecia como diagnóstico secundário. Essa segunda análise não foi reproduzida no DataSUS devido às particularidades observadas na identificação do câncer de pulmão como diagnóstico secundário nessa fonte.