Na noite de 24 de janeiro de 2023, Patrick Clancy saiu de casa para ir buscar comida e um medicamento. Quando regressou à moradia da família, em Duxbury, Massachusetts, percebeu imediatamente que alguma coisa estava errada. No quarto, encontrou “sangue por todo o lado”. No jardim, estava Lindsay, gravemente ferida, depois de se atirar de uma janela do segundo andar.
Mas faltavam os filhos. Foi ao procurá-los que descobriu Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de apenas oito meses, já sem vida. A chamada que fez para o 911 registou o desespero daquele momento. “She killed the f—— kids” [Ela matou as crianças], gritou Patrick.
Mais de três anos depois, voltou a falar daquela noite em tribunal. E o seu depoimento acabou por revelar também a dimensão dos problemas de saúde mental que Lindsay enfrentava nos meses anteriores à tragédia. Patrick contou que a vida familiar se tinha tornado particularmente exigente depois do nascimento dos três filhos.
“Muito stress. Havia dias em que ela tinha os três filhos, horários diferentes para as sestas, necessidades diferentes. Era simplesmente muito stressante”, recordou. Com o passar dos meses, Lindsay começou a sofrer de insónias, ansiedade e depressão. No outono de 2022, Patrick percebeu que o seu estado estava a deteriorar-se.
“Ela continuava a piorar, cada vez mais”, afirmou. A situação agravou-se depois de uma alteração à medicação, em dezembro. Patrick contou que Lindsay começou a perder peso, ficou profundamente deprimida e passou a falar em suicídio. “Começou a dizer que tinha pensamentos suicidas”, revelou.
A mulher também lhe confessou ter pensamentos intrusivos relacionados com a possibilidade de fazer mal aos filhos. Patrick chegou a perguntar-lhe se considerava que deveria ser afastada das crianças. Lindsay respondeu que não. “Era muito confuso porque, no minuto seguinte, ela estava a preparar-lhes o almoço ou a deitá-los. Nunca vi a Lindsay fazer mal às crianças”, afirmou.
As preocupações acabaram por levar ao internamento de Lindsay no McLean Hospital, a 31 de dezembro de 2022. Teve alta a 5 de janeiro e, segundo Patrick, nas semanas seguintes parecia estar a recuperar. A 16 de janeiro, Patrick levou Cora a esquiar enquanto Lindsay ficou em casa com os outros dois filhos. “O estado de espírito dela parecia melhor”, contou.
E foi precisamente essa aparente recuperação que tornou ainda mais difícil compreender o que aconteceria poucos dias depois. Patrick recordou o dia 24 de janeiro como um dia aparentemente normal. Lindsay levou Cora ao médico, brincou com os filhos e chegou a construir um boneco de neve com eles. Durante o dia, trocou mensagens e fotografias com o marido.
“Ela estava a brincar com as crianças e parecia estar de bom humor”, disse. Questionado sobre o estado de Lindsay naquele dia, foi ainda mais direto: “Foi um dos melhores dias dela.” Poucas horas depois, Patrick saiu de casa para ir buscar o jantar. Quando regressou, encontrou a mulher ferida e os três filhos mortos.
A vida de Patrick ficou inevitavelmente dividida entre o antes e o depois daquela noite. Perdeu os três filhos, divorciou-se de Lindsay e, com o tempo, mudou-se para Nova Iorque. Conseguiu reconstruir a vida e, em 2026, voltou a casar com Rachel Danis, médica especialista em fertilidade. Juntos, criaram também a Heard Foundation, dedicada à memória de Cora, Dawson e Callan e à melhoria dos cuidados de saúde mental durante o período perinatal.
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