China é o principal comprador de petróleo iraniano. EUA prometem ofensiva económica contra parceiros de Teerão

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, prometeu na segunda-feira um “Dia D económico” para os países que compram petróleo ao Irão. Os especialistas dizem que isso significa, em particular, um país: a China.

Bessent não mencionou a China, mas deixou poucas dúvidas.

“Consideramos que a melhor forma de dialogar com os países é através de uma diplomacia discreta e estamos a estabelecer uma base comum com todos os países para lhes transmitir aquilo que esperamos”, afirmou Bessent na segunda-feira. “Sabemos quem são. Eles sabem quem são.”

Mas, embora a ameaça de Bessent possa colocar a China no centro das atenções, as repercussões poderão fazer-se sentir em todo o mundo — incluindo entre os consumidores norte-americanos, que poderão acabar por ver os seus próprios custos com a energia aumentar.

Teerão terá exportado petróleo no valor de entre 3,9 mil milhões e 4,2 mil milhões de dólares [cerca de 3,4 mil milhões a 3,6 mil milhões de euros] em setembro de 2025, segundo uma análise. A China, o maior consumidor mundial de energia, compra a esmagadora maioria.

“As compras chinesas representam cerca de 90% do petróleo exportado pelo Irão, proporcionando dezenas de milhares de milhões de dólares em receitas anuais que sustentam o orçamento do governo iraniano e as atividades militares”, afirmou no início deste ano a Comissão de Revisão Económica e de Segurança EUA-China.

O anúncio de segunda-feira foi um “tiro de aviso”, afirmou Bessent. Embora algumas entidades e indivíduos tenham sido alvo de sanções, o secretário do Tesouro não anunciou medidas abrangentes dirigidas a qualquer país específico.

Também na segunda-feira, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Lin Jian, disse que “as sanções e as táticas de pressão não ajudam a resolver os problemas, apenas conduzem a uma escalada que não serve os interesses de ninguém”.

Segundo um relatório da Nomura publicado em abril, 38% do petróleo consumido pela China e 23% do seu gás natural liquefeito transitam pelo Estreito de Ormuz, um dos principais focos da guerra no Irão.

A China já reduziu as suas importações de petróleo iraniano. Antes da guerra, as importações de crude iraniano rondavam, em média, 1,4 milhões de barris por dia, mas caíram para cerca de 700.000 barris nos últimos meses, devido à redução da atividade das refinarias e à utilização das reservas armazenadas em terra, segundo Emma Li, da empresa de análise energética Vortexa.

“Uma interrupção total [das importações de crude iraniano] teria provavelmente um impacto imediato limitado na segurança energética global da China, porque as importações provenientes do Irão já diminuíram substancialmente e a China continua a dispor de reservas de crude relativamente elevadas”, explica à CNN Tianyue Hu, analista da empresa de informação energética Rystad.

Mas novas sanções poderão deteriorar ainda mais a já conturbada relação entre a administração Trump e a China. Os dois países envolveram-se no ano passado numa intensa guerra comercial, no auge da imposição de tarifas pelo presidente Donald Trump. Mais recentemente, retomaram uma troca de sanções de retaliação.

“A China é, de longe, o país com maior impacto, se realmente se quiser prejudicar a capacidade do Irão para continuar a financiar as suas atividades”, disse anteriormente à CNN Daniel Tannebaum, investigador sénior não residente do Atlantic Council.

Não é a primeira vez que os Estados Unidos ameaçam impor sanções aos parceiros comerciais do Irão.

A Índia chegou a ser um dos principais importadores de petróleo iraniano. Os dois países mantiveram relações comerciais no valor de 1,1 mil milhões de dólares [cerca de mil milhões de euros] entre abril e dezembro de 2025, envolvendo produtos como arroz e açúcar, mas a Índia deixou de importar petróleo iraniano em 2019 devido às sanções norte-americanas. A Índia voltou, no entanto, a comprar petróleo iraniano em abril deste ano, no contexto de uma crise energética.

Águas turvas

É difícil determinar até que ponto as sanções norte-americanas poderão afetar a China ou outros países dependentes do petróleo iraniano.

Os analistas de Wall Street nem sequer conseguiram obter uma resposta clara sobre a quantidade de petróleo que está a sair do Estreito de Ormuz. Enquanto o secretário da Energia dos EUA, Chris Wright, garante que o estreito está aberto e que o petróleo continua a circular, o Irão afirma o contrário. E os dados de acompanhamento de navios fornecidos por terceiros indicam cerca de metade do volume referido por Wright.

Depois, há as chamadas frotas-fantasma, frequentemente utilizadas por países sujeitos a sanções. Estes navios-tanque escondem os seus proprietários, a origem e o destino das cargas, tornando-os difíceis de localizar e acompanhar. A plataforma de monitorização de navios Kpler afirmou este mês que o trânsito ligado à chamada frota-fantasma representou cerca de 50% do tráfego no estreito nas últimas semanas, face a cerca de 12,5% há um mês.

Mas a redução dos fluxos de petróleo afeta toda a gente. As grandes reservas de crude evitaram que o mundo enfrentasse uma grande escassez de petróleo quando a guerra com o Irão começou, em fevereiro.

E os cessar-fogos periódicos ao longo da guerra fizeram baixar os preços mundiais do petróleo — apenas para voltarem a subir sempre que esses acordos terminavam ou expiravam.

Os consumidores norte-americanos já sentiram os efeitos da subida dos preços do petróleo provocada pela guerra. O preço médio nacional da gasolina é atualmente de 4,10 dólares por galão, cerca de 3,55 euros, em comparação com a média de 3,15 dólares, cerca de 2,72 euros, registada no ano passado, segundo a AAA.

“Ninguém está fora do alcance das sanções dos Estados Unidos”, prometeu Bessent na segunda-feira. Mas o secretário do Tesouro evitou anunciar prazos para quaisquer decisões. E espera-se que o líder chinês, Xi Jinping, visite os Estados Unidos no próximo mês.

“Não vou estabelecer calendários, mas a nossa paciência não é infinita”, sublinhou Bessent.

*Simone McCarthy, Jennifer Hansler, Adam Cancryn e David Goldman contribuíram para este artigo