Desde o início do ano que Leonardo Maria Del Vecchio pretendia comprar as ações de dois dos seus irmãos que procuram deixar a estrutura da holding: Paola, filha do primeiro casamento do pai, e Luca, filho do segundo casamento. O negócio seria fechado por cerca de 10 mil milhões de euros, fazendo de Leonardo Maria o principal acionista individual da Delfin, com 37,5% das ações. A operação foi aprovada pelo conselho da holding em abril, mas nunca foi concluída.
Houve dois votos contra a compra. Um deles foi de Claudio Del Vecchio, filho mais velho do fundador, que faz parte do primeiro ramo da família, juntamente com as irmãs Marisa e Paola. O primogénito é o único dos herdeiros que já tem os seus 12,5% de participações na Delfin controlados através de uma sociedade norte-americana. Claudio Del Vecchio fez carreira nos EUA — é desde 2001 dono do grupo detentor da marca Brooks Brothers.
O segundo voto contrário, e a maior oposição à ascensão de Leonardo Maria no grupo familiar é de Rocco Basilico, filho de Nicoletta Zampillo, a viúva do fundador. Basilico não é filho biológico de Leonardo Del Vecchio, mas recebeu uma das partes de 12,5% da Delfin. Além de votar contra a operação de compra das ações dos outros herdeiros, Basilico contestou judicialmente a deliberação de abril — apesar de também ter anunciado o desejo de deixar a sua posição dentro da empresa familiar em dezembro de 2025, como avançou a Reuters. Contudo, numa entrevista em agosto para o The Gentlemen’s Journal, Basilico continua a assinar como o CEO da Oliver Peoples, uma das marcas da Luxottica, e chefe do departamento de desenvolvimento de wearables, ou os óculos inteligentes, numa parceria com a Meta.
Diante da tentativa de compra em abril, outras questões foram levantadas entre os herdeiros. A primeira delas é a tentativa de transferir as participações na holding para sociedades próprias — o que pediu um dos filhos de Del Vecchio, Clemente, assim como Leonardo Maria e Rocco. As transferências foram submetidas a uma assembleia de acionistas a 30 de junho, mas não obtiveram a unanimidade necessária, explicou o La Repubblica. Foi também nesta assembleia que foram discutidas opções como a recompra pela própria Delfin das ações dos herdeiros que desejam deixar a estrutura da holding.
Quem não participou na assembleia, entretanto, foi Leonardo Maria, que um dia antes publicou uma carta aberta a criticar a administração, especialmente o CEO da EssilorLuxottica e presidente do conselho da Delfin, Francesco Milleri. As críticas vieram depois de a holding se recusar a emitir a letter of patronage exigida pelos bancos para aprovar o financiamento necessário para a compra das ações dos irmãos, por 10 mil milhões de euros. “A questão deixou de ser financeira e passou a ser uma questão de governação”, sinalizou Del Vecchio.
As compras e transferências ficavam assim bloqueadas. Enquanto Luca, Paola, Clemente, Leonardo Maria e Basilico procuravam, por vias diferentes, tornar as suas participações transferíveis ou financiáveis; Marisa e Nicoletta permaneciam sem anunciar uma estratégia equivalente, e a estrutura de oito acionistas permanece. É neste cenário que Leonardo Maria Del Vecchio deixa as posições administrativas na empresa, mas a questão parece longe de uma resolução. “Não estou a sair após uma derrota. Estou a sair após ter cumprido o meu trabalho”, diz, na carta aberta publicada esta terça-feira. “Continuo como acionista por meio da Delfin e continuo a ser responsável por esta empresa a partir daí: deixo os cargos, não a empresa, que faz parte da minha história muito antes de qualquer posição. Desde setembro, LMDV Capital”, destaca, numa publicação nas redes sociais. “Encerro um mandato com metas superadas, uma marca mais forte do que quando a encontrei e uma equipa que sabe o que precisa fazer. Não escolhi o meu apelido. O que faço com ele, porém, sim.”