Não é apenas a má qualidade do alimento consumido no café da manhã, como aquela coxinha, salgado ou pizza do outro dia, que pode prejudicar a saúde. O horário em que a primeira refeição do dia é feita também pode estar relacionado à longevidade.

Um estudo publicado no European Journal of Clinical Nutrition analisou mais de 31 mil adultos com 40 anos ou mais e identificou uma associação entre tomar o café da manhã mais tarde e um maior risco de morte precoce.

De acordo com os resultados, participantes que faziam a primeira refeição depois do meio-dia apresentaram risco 29% maior de morrer por qualquer causa quando comparados aos que começavam a comer entre 7h e 8h. O levantamento, porém, não prova que atrasar o café da manhã seja diretamente responsável pelo aumento do risco.

A primeira refeição do dia não deve ser feita tão tarde

Os participantes do estudo foram solicitados a registrar o que comeram e quando comeram, dentro de um período de 24 horas, sendo o intervalo entre a primeira e a última refeição conhecido como janela alimentar. A partir disso, um padrão surgiu: quanto mais tarde os participantes faziam sua primeira refeição, maior era o risco.

Para analisar os participantes, os pesquisadores observaram uma relação gradual. Em comparação com quem fazia a primeira refeição entre 7h e 8h, aqueles que comiam pela primeira vez entre 8h e 10h apresentaram risco 10% maior de morte por qualquer causa.

Entre os participantes que começavam a comer entre 10h e meio-dia, a associação chegou a 19%. Já para quem fazia a primeira refeição depois do meio-dia, o índice alcançou 29%.

O estudo também encontrou uma relação com mortes provocadas por problemas cardiovasculares. Nesse caso, começar a comer depois do meio-dia esteve associado a um risco 46% maior em comparação com aqueles que iniciavam a alimentação entre 7h e 8h.

Entre pessoas com 50 anos ou mais, os horários mais tardios para iniciar a alimentação foram associados a uma expectativa de vida aproximadamente 2,5 anos menor, em média.

Por que o horário importa tanto?

Uma das possíveis explicações está no relógio biológico. O organismo segue ciclos circadianos que ajudam a regular funções como sono, metabolismo e liberação de hormônios.

Pesquisas anteriores citadas por uma reportagem do New York Post apontam que manter uma alimentação muito tarde pode interferir nesse funcionamento e estar relacionado a alterações nos níveis de açúcar no sangue e nos hormônios associados ao estresse.

No entanto, isso não quer dizer que uma pessoa precise acordar cedo ou comer imediatamente ao sair da cama. O estudo destaca principalmente o padrão de horários e sua possível relação com outros aspectos da saúde.

Outras pesquisas publicadas na PubMed e citadas pelo artigo também demonstraram que comer consistentemente mais tarde pode afetar negativamente o relógio biológico, levando a picos de açúcar no sangue e níveis mais elevados de hormônios do estresse.

No fim, os resultados da pesquisa reforçam a importância de se importar não apenas com o que comer, mas também quando comer.

Estudo não prova causa e efeito

Apesar dos números chamarem atenção, os resultados precisam ser interpretados com cautela. Os pesquisadores encontraram uma associação, e não uma prova de que tomar café da manhã tarde provoque morte precoce.

Um dos autores, Zhilei Shan, destacou ao ScienceAlert que a alimentação tardia deve ser considerada um possível marcador de risco, e não uma evidência definitiva de causa direta.

“Comer mais tarde deve ser interpretado como um potencial marcador de risco e, possivelmente, um comportamento modificável, em vez de uma evidência definitiva de uma relação causal direta”, disse Zhilei Shan.

Além disso, o levantamento apresentou limitações. Os participantes tiveram os horários alimentares analisados a partir de um único registro de 24 horas. Fatores como padrões de sono e horários de atividade física também podem influenciar a saúde e a longevidade.

  • Estagiária sob supervisão de Clayton Matos