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O navio porta-contentores PanStar Acro, com capacidade para 2.800 TEU (unidades equivalentes a vinte pés), está ancorado num porto da cidade de Busan, no sudeste da Coreia do Sul, a 22 de agosto de 2026, enquanto se prepara para uma viagem de teste até Roterdão, na Holanda, através da rota do Ártico

Coreia do Sul estuda a viabilidade de rota marítima pelo Ártico até à Europa, mais curta do que a convencional, num contexto de derretimento do gelo marinho provocado pelo aquecimento global e de tensões no Médio Oriente.

A Coreia do Sul está a pôr em prática, pela primeira vez, o plano de utilizar comercialmente a Rota Marítima do Norte, também conhecida como Passagem do Nordeste, uma via que liga os oceanos Atlântico e Pacífico através do Ártico, ao longo da costa norte da Europa e da região russa da Sibéria.

O navio porta-contentores PanStar Acro iniciou a viagem experimental no sábado, partindo do porto sul-coreano de Busan com destino aos portos de Felixstowe, no Reino Unido, Roterdão, nos Países Baixos, e Gdansk, na Polónia. A bordo seguem, entre outras cargas, produtos químicos e automóveis usados. Segundo o Ministério dos Oceanos e das Pescas da Coreia do Sul, toda a viagem, incluindo o regresso a Busan, deverá durar cerca de 45 dias.

A procura de uma nova rota marítima viável através do gelo surge como resposta ao conflito em curso no Médio Oriente, desencadeado pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão em fevereiro, que abalaram o transporte marítimo mundial. Com o aquecimento global e o derretimento do gelo marinho, a passagem tem sido considerada uma alternativa por governos e empresas.

Na travessia sul-coreana, serão recolhidos dados sobre o tempo de navegação, o consumo de combustível e os custos operacionais, para perceber se as águas estreitas que separam o Alasca da Rússia podem tornar-se uma passagem permanente para a navegação entre a Ásia e a Europa durante os meses de verão. A longo prazo, Seul pretende estabelecer esta ligação como uma nova rota comercial e transformar Busan num centro logístico internacional.

Muito mais curta do que a rota pelo Canal do Suez

Atualmente, a rota marítima convencional entre a Coreia do Sul e a Europa passa pelo oceano Índico, pelo mar Vermelho e pelo Canal do Suez. Segundo o Instituto Coreano de Política Económica Internacional (Korea Institute for International Economic Policy), este percurso é cerca de 7000 quilómetros mais longo e exige aproximadamente mais dez dias de viagem do que a rota pelo Ártico.

No entanto, a rota ainda só pode ser utilizada de forma sazonal. Sem o auxílio de quebra-gelos, os navios porta-contentores só conseguem atravessar a passagem durante os meses de verão, quando o gelo marinho recua o suficiente. Com as alterações climáticas, o período durante o qual a rota permanece navegável está a tornar-se mais longo.

China e Rússia já experimentaram

A Coreia do Sul não é o único país a apostar cada vez mais na rota do Ártico. A Rússia e a China já têm vindo a expandir a sua utilização comercial.

A 15 de agosto, o navio porta-contentores Dubai Tower, operado por uma empresa de navegação chinesa, partiu de Ningbo, no leste da China, rumo à Europa através da rota do Ártico. A viagem faz parte de um novo serviço sazonal regular que pretende reduzir para metade o tempo de transporte entre a China e a Europa.

A Rússia utiliza a Passagem do Nordeste, entre outros fins, para transportar gás natural liquefeito do porto de Sabetta, na península de Yamal, na Sibéria, para clientes na Ásia. O primeiro navio porta-contentores do mundo a percorrer a rota do Ártico realizou a travessia em 2018.

Os riscos ambientais

À medida que cresce o interesse por esta rota marítima, aumentam também as preocupações com o impacto no sensível ambiente do Ártico. Ambientalistas alertam que o aumento do tráfego marítimo pode perturbar os ecossistemas e acelerar ainda mais o derretimento do gelo marinho.

Por esse motivo, várias grandes companhias de navegação anunciaram que, por enquanto, evitarão utilizar rotas pelo Ártico. Entre elas estão a alemã Hapag-Lloyd, a suíça MSC e a francesa CMA CGM.

“A Rota Marítima do Norte tornou-se progressivamente mais viável porque o Ártico está a aquecer cerca de quatro vezes mais depressa do que a média global, o que levou a uma forte redução da cobertura de gelo marinho”, afirmou o Centro Paran Ocean Citizen Science, grupo ambientalista sul-coreano, num comunicado divulgado no ano passado.

“Mas tornar a rota comercialmente viável exigiria um aquecimento ainda maior, o que coloca esta política em conflito com os esforços para combater as alterações climáticas”, aponta ainda o grupo.