Este artigo fala de um peixe. Mas também de imigração e novos hábitos de consumo. A tilápia chegou à grande distribuição em 2025 e as suas importações já ultrapassam todo o ano de 2024. Saiba porquê.
A primeira vez que me cruzei com a tilápia foi na peixaria do Carrefour, em Santos, no estado brasileiro de São Paulo, em fevereiro. Um quilo de filetes custava cerca de 60 reais, mais ou menos dez euros à taxa de câmbio da altura. Muito apreciado no Brasil, este peixe de água doce faz as delícias de quem detesta espinhas. Ademais, “é fácil, previsível e pouco peixento“, explicou-me o ChatGPT.
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Mas não era preciso cruzar o Atlântico para provar este peixe estranho, que, apesar de ainda pouco conhecido em Portugal, tem sido descoberto por cada vez mais portugueses. Recentemente, a tilápia passou a fazer parte do sortido de muitos super e hipermercados do país. É vendida inteira ou, mais habitualmente, em filetes frescos ou congelados.
É fácil adivinhar porquê. No final de 2025, existiam 574.195 cidadãos brasileiros a residir em Portugal, mais de um terço de toda a população estrangeira residente, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). “Agora tem tilápia no Pingo Doce e eu fui conferir”, anunciava, em março deste ano, uma influencer brasileira, num vídeo publicado no Instagram. “Quem é brasileiro sabe [que] uma tilápia bem feita com aquele tempero caprichado dá até saudade de casa. Confesso que eu não esperava encontrar isso aqui em Portugal”, assinalava a autora da publicação.
Filetes de tilápia à venda num hipermercado Auchan na zona de Cascais. A venda do peixe “inteiro” é pouco habitual, conta uma funcionária da peixaria.
Hugo Amaral/ECO
Atentas aos novos hábitos de consumo introduzidos no país pela imigração, as duas principais cadeias de retalho nacionais — Pingo Doce e Continente — ‘renderam-se’ à tilápia no ano passado. Fonte oficial da retalhista do grupo Jerónimo Martins diz ao ECO que “a tilápia foi introduzida no sortido do Pingo Doce em 2025, na sequência da identificação de uma oportunidade para responder à procura crescente por produtos alinhados com diferentes hábitos e culturas alimentares”.
“Sendo uma das espécies de peixe mais consumidas no Brasil e tendo em conta a relevância da comunidade brasileira residente em Portugal, o Pingo Doce decidiu disponibilizar este produto, tanto fresco como congelado, reforçando a diversidade da sua oferta e procurando responder às necessidades de diferentes perfis de consumidores”, confirmou.
Já o Continente, que também passou a vender este peixe em 2025, salientou tratar-se “de uma espécie cuja procura tem vindo a crescer, impulsionada sobretudo pelos consumidores brasileiros, para quem este peixe faz parte dos hábitos alimentares, mas também por um número cada vez maior de clientes que procuram novas opções de pescado pela sua versatilidade, sabor suave, facilidade de preparação e preço acessível”.
O preço da tilápia ronda os 15 euros por quilo.Hugo Amaral/ECO
Em julho, um quilo de filetes de tilápia num Continente da Margem Sul custava 14,9 euros. Já uma tilápia inteira congelada, com menos de 350 gramas e maior do que uma mão, estava à venda por 2,66 euros.
Mas o Pingo Doce e o Continente não são as únicas marcas a vender este peixe. “A Auchan começou a comercializar este tipo de produto no primeiro trimestre de 2026, tendo sido esta introdução desta nova espécie motivada pela nossa procura constante em responder às necessidades dos nossos clientes. Sabendo que a tilápia é um dos peixes mais consumidos no Brasil e em vários países asiáticos, fez todo o sentido dar esta resposta às diversas comunidades residentes em Portugal que visitam as nossas lojas”, explica Ricardo Amaral, diretor de Frutas, Verduras e Peixaria na Auchan Portugal. No Auchan de Cascais, que aceitou receber o fotojornalista do ECO no início de agosto, os filetes vendiam-se a 14,99 euros o quilo.
Todavia, nesta fase, não é possível encontrar tilápias em qualquer supermercado. Houve marcas que confirmaram ao ECO não vender de todo este peixe. “O Lidl não vende de momento tilápia”, respondeu fonte oficial (o ênfase é nosso). “A Aldi Portugal não tem este produto à venda”, afirmou a retalhista. “Não vendemos tilápia nos nossos supermercados”, respondeu o El Corte Inglés. A Mercadona também não comercializa tilápia, confirmou.
A tilápia posiciona-se com um preço mais barato face à pescada e bacalhau, enquanto, em relação à dourada, o preço por quilo é similar.
Ricardo Amaral
Já o Intermarché, contactado pelo ECO no início de julho, não respondeu. Mas a insígnia dos mosqueteiros não será alheia a esta espécie: “Hoje destacamos na nossa banca a tilápia, um peixe cada vez mais apreciado pelo seu sabor delicado e pela sua versatilidade na cozinha”, anunciou em fevereiro deste ano o Intermarché de Albergaria-a-Velha numa publicação no Facebook, ensinando que “a tilápia tem origem em África, especialmente na região do Rio Nilo”.
A loja fez, inclusivamente, algumas sugestões: “A tilápia adapta-se a várias receitas: grelhada com um fio de azeite e alho; no forno com ervas aromáticas; em filetes panados; em caldeiradas leves; com molho de limão e manteiga.” Acrescenta ainda que “é rica em proteína e pobre em gordura, sendo uma excelente opção para refeições equilibradas”.
Em muitas regiões asiáticas, a tilápia é considerada uma espécie invasora, ameaçando o ecosistema local.EPA/RUNGROJ YONGRIT
Importações neste ano já superam 2024
Para medir o peso da tilápia no mercado português, pedimos informação ao INE, que prontamente se disponibilizou a fornecer dados com base no “movimento físico dos bens” — isto é, registos de “passagem na fronteira” compilados pelas alfândegas nacionais. Os números apontam para um fenómeno ainda residual, mas em franco crescimento.
Em todo o ano de 2025, marcado pela introdução da tilápia na grande distribuição, foram importados 972.767 quilos de tilápias, um aumento superior a 64% face a 2024. Este volume correspondeu a quase 2,4 milhões de euros em importações de tilápias, um aumento de 54,3%.
Já no decurso deste ano de 2026, a tendência tem sido de forte aceleração: até maio, o final da série facultada ao ECO pelo INE, já tinham sido importados 1,4 milhões de euros em tilápias e 511.604 quilos. Mantendo-se a tendência, as importações de tilápia em peso terão ultrapassado em junho todo o ano de 2024, estima o ECO a partir da média mensal.
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Contudo, apesar de o Brasil ser grande consumidor de tilápia, não é de lá que vêm as tilápias consumidas em Portugal. Segundo os dados do INE, a China é, de longe, o principal fornecedor português, seguida da Índia, Espanha, Países Baixos, Vietname, Bélgica e Alemanha, por esta ordem. Analisando por valor, as importações de Espanha ultrapassam as da Índia, com o país vizinho a assumir a segunda posição.
Foi precisamente nos Países Baixos que encontrámos um dos fornecedores de tilápias de pelo menos uma grande cadeia de retalho portuguesa: a Anova Seafood, com sede no sul do país. “Fornecemos tilápias frescas há aproximadamente um ano para o retalho português (inteira e em filetes)”, confirma Erwin Spook, diretor da empresa. “Podemos recorrer a múltiplas origens, se necessário, desde que o produto seja criado de forma sustentável e tenha certificação ASC”, sublinha, acrescentando que, para fornecer os retalhistas portugueses, é preciso “cumprir procedimentos muito rigorosos de homologação da empresa e dos produtos”.
“A tilápia está a crescer de forma lenta, mas sustentada, e ainda não conquistou um lugar nos hábitos de compra dos consumidores portugueses. Por enquanto, todos os parceiros da cadeia estão sobretudo a investir no desenvolvimento deste mercado, que (ainda) não representa volumes significativos”, nota por escrito o diretor da Anova Seafood. “A procura é, como referido, impulsionada pelos retalhistas, que procuram integrar produtos sustentáveis nos seus portefólios. No entanto, é verdade que a tilápia é mais conhecida entre a população imigrante em Portugal, nomeadamente a brasileira e a africana”, reconhece.
Filetes de tilápia congelados à venda num hipermercado da zona de Cascais.Hugo Amaral/ECO
Também há fornecedores nacionais, que adquirem a produtores de outras geografias. “O peixe que comercializamos tem maioritariamente duas origens: o Extremo Oriente para congelado e a América do Sul para o fresco. No caso, adquirimos a parceiros do setor em Portugal e que trabalham connosco, também, com outras espécies de produtos”, explica Ricardo Amaral, da Auchan Portugal.
A tilápia está a crescer de forma lenta, mas sustentada, e ainda não conquistou um lugar nos hábitos de compra dos consumidores portugueses.
Erwin Spook
Da curiosidade ao prato
De volta a Portugal, após pedir filetes de tilápia fresca na peixaria de um hipermercado, oiço duas funcionárias portuguesas a falar da novidade: uma colega da caixa comprou tilápia, fez na Air Frier e adorou. Abordadas, assumem que, em breve, irão também comprar e experimentar.
É neste fenómeno de passa-a-palavra que as insígnias também apostam, contribuindo para fazer crescer o mercado em Portugal, à boleia da imigração. “Numa primeira fase, estamos a apostar nas comunidades brasileira e asiática, que são já nossos clientes e estão familiarizados com a espécie”, diz o diretor de Frutas, Verduras e Peixaria da Auchan Portugal. “Paralelamente, esperamos conquistar também os consumidores portugueses. Observamos curiosidade por parte de alguns consumidores portugueses, mas a adesão ainda não é expressiva”, admite.
Hugo Amaral/ECO
Acontece o mesmo nas lojas do Pingo Doce. “Desde o lançamento, temos verificado um interesse significativo em torno da tilápia, que inclusive é visível em conteúdos espontâneos registados nas redes sociais. Embora este interesse seja especialmente expressivo entre a comunidade brasileira, para quem esta espécie faz parte dos hábitos de consumo regulares, os níveis de procura registados sugerem, contudo, que o interesse se estende também a outros consumidores que procuram diversificar as suas escolhas de pescado, refletindo também uma maior abertura a diferentes referências gastronómicas.”
Já o Continente, confirmando que a tilápia tem sido descoberta por outros consumidores além dos brasileiros, adianta: “A integração da tilápia no nosso sortido reflete a nossa preocupação em acompanhar a evolução das preferências dos consumidores e em disponibilizar uma oferta cada vez mais diversificada e relevante para diferentes perfis de clientes.”
Contudo, a expansão da tilápia em Portugal poderá enfrentar uma possível barreira relevante, observa Ricardo Amaral, da Auchan: “O consumidor português, culturalmente, não está habituado ao consumo de peixe de água doce.” E será essa uma das razões pelas quais este produto não encontrou procura mais cedo, onde predominam outras espécies populares.
“A tilápia posiciona-se com um preço mais barato face à pescada e bacalhau, enquanto, em relação à dourada, o preço por quilo é similar”, detalha o responsável da Auchan.
Filetes de tilápia congelados.Hugo Amaral/ECO
O fenómeno da tilápia em ascensão é um exemplo estabelecido de como a grande distribuição está a adaptar as ofertas às características da população residente. Um percurso que, no caso deste produto, iniciou antes mesmo de se saber que habitam em Portugal 1,6 milhões de estrangeiros, estimou o INE a 12 de junho. “Temos vindo a adaptar continuamente a nossa oferta, através da variedade de produtos disponíveis em loja, da valorização de sabores e referências internacionais e da proximidade às diferentes comunidades que fazem parte da sociedade portuguesa”, diz ao ECO o Continente.
Mas o efeito é mais visível no que toca à comunidade brasileira, de longe a maior comunidade imigrante a residir em Portugal. E que, mais do que a tão procurada mão-de-obra, em forte escassez, traz com ela novas referências alimentares. Por isso, da próxima vez que for às compras e encontrar tilápia fresca, não estranhe. É a economia portuguesa a adaptar-se.